Diários de africano escravizado no Brasil viram peça “Baquaqua” em SP

Alessandro Marba e Breno da Matta em "Baquaqua" - Foto: Felipe Stucchi

Alessandro Marba e Breno da Matta em “Baquaqua” – Foto: Felipe Stucchi

Por Miguel Arcanjo Prado

A escravidão pelo olhar do próprio escravizado. Este é o grande diferencial da peça “Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário”, da Cia. do Pássaro, em São Paulo.

A inspiração veio dos diários de Mahomah Gardo Baquaqua, publicados há 162 anos e que foram adaptados pela dramaturga Dione Carlos e pelo diretor Dawton Abranches, à frente do espetáculo.

“É um relato em primeira pessoa sobre a escravidão. É um olhar humanizado. Um homem comum, com uma trajetória extraordinária. Não é um herói, mas um sobrevivente, um resistente”, diz Dione.

Ela conta que o protagonista foi capturado na África, no atual Benin, e trazido como escravo para Pernambuco, no Brasil. O jovem, que também passou por Haiti, EUA, Canadá e Inglaterra, era filho de prósperos comerciantes muçulmanos, por isso era alfabetizado e pode registrar o horror que sofreu.

Baquaqua deixou seus diários como herança. “Por meio da escrita ele eternizou sua trajetória”, diz Dione, na visão de quem a obra faz forte conexão com o Brasil atual. “Conhecer o passado é uma forma de compreender o presente e evitar repetições no futuro, como muitas que estamos testemunhando agora”, afirma.

A dramaturga Dione Carlos - Foto: Bob Sousa

A dramaturga Dione Carlos – Foto: Bob Sousa

Ela lembra que “as relações de poder instauradas na escravidão refletem a sociedade brasileira atual”. “Basta imaginar que após a ‘libertação’, não houve nenhum tipo de reparação ou inserção social das pessoas escravizadas. É um ciclo de miséria que se repete, de pai para filho”, critica a dramaturga.

Dione lembra outros aspectos culturais de herança escravocrata. “Das empregadas de família, passadas de geração em geração, como amas de leite modernas até o empregado que defende a exploração que sofre, agindo como capitão do mato, como uma forma de estar mais perto de quem manda”, pontua.

Ela lembra que, com sua escrita absolutamente poética, Baquaqua resistiu e se reinventou. “É um depoimento sobre alguém que manteve a sua dignidade em um contexto absolutamente cruel. Tudo o que ele queria era voltar para casa, para a sua família. E fez tudo que estava ao seu alcance para que isso acontecesse”, conta. Baquaqua conseguiu fugir durante uma viagem a Nova York em 1847. Nos Estados Unidos, conseguiu estudar e publicar sua autobiografia.

História omitida

A encenação traz os atores Breno da Matta e Alesssandro Marba, que também colaboraram na criação da dramaturgia. A peça ainda tem Laruama Alves na preparação de atores, Alice Nascimento, na luz, Leonardo Pimentel, na sonoplastia, e Fernando Gimenes na produção. O historiador Bruno Véras prestou consultoria ao grupo.

A peça recupera este importante relato de nossa história. “Parte importante da História do Brasil foi propositalmente omitida em nossa formação. Crescemos acreditando que, no caso dos negros, somos descendentes de pessoas passivas e inexpressivas. Isso é refletido na autoestima das pessoas e precisa mudar. A arte tem este poder”, conclui Dione Carlos.

“Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário”
Quando: Sexta, 14h, sábado, 21h, domingo, 19h. 70 min. Até 30/9/2016
Onde: Cia. do Pássaro – Voo e Teatro – Rua Álvaro de Carvalho, 177, metrô Anhangabaú, São Paulo
Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)
Classificação etária: Livre

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