Crítica: Trupe Sinhá Zózima cria poesia na dureza do ônibus em SP

A atriz Cleide Amorim, da Trupe Sinhá Zózima, em cena no ônibus - Foto: Bob Sousa

A atriz Cleide Amorim, da Trupe Sinhá Zózima, em cena no ônibus – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos Bob Sousa

O Terminal Parque Dom Pedro II, no coração do centro de São Paulo, vê arrefecer o pico de passageiros na volta para a casa. É quase 20h de uma terça-feira. É quando chegam, com sua música envolvente, os atores da Trupe Sinhá Zózima, que lá fazem residência artística desde 2009, para mais uma sessão da nova peça do grupo especializado em teatro dentro do ônibus: “Os Minutos que Se Vão com o Tempo”.

Logo, alguns passageiros resolvem deixar-se contagiar por aquele som. Uma senhora idosa se aproxima, curiosa, e dança, enquanto outros preferem olhar desconfiados. Os mais apressados ignoram. Mesmo assim, os personagens surgem, cada qual com seus dilemas, e perguntam aos passageiros onde eles gostariam de estar naquele momento. Muitos suspiram ao responder lugares bem longe dali.

E todos rumam para a fila do ônibus que levará os artistas e os passageiros até o Terminal em São Miguel Paulista, no extremo leste da cidade, naquela noite. Em ônibus de linha, comum. O ingresso é a passagem. Lá dentro, enquanto a viagem cruza a aguerrida zona leste paulistana por uma hora e quarenta minutos, a poesia se faz com a doçura da Sinhá Zózima.

Anderson Maurício em "Os Minutos que se Vão com o Tempo" - Foto: Bob Sousa

Anderson Maurício em “Os Minutos que se Vão com o Tempo” – Foto: Bob Sousa

No embalo lento do ônibus — o motorista, atento com os artistas, vai um pouco mais devagar —, o público reflete sobre sua vida, sobre o que sente falta, sobre a dureza da metrópole que precisa enfrentar diariamente naquele transporte público, no qual tanto tempo de suas vidas é perdido. E é recuperar esses minutos o objetivo desta obra, torná-los criativos, emotivos, artísticos.

A luz fria e branca do ônibus mantém os passageiros despertos. Descansar a vista na volta para a casa parece ser proibido pelo sistema opressor da cidade grande. Por que não uma luz amarela, mais branda, senhor prefeito e donos de empresas de ônibus? É como se os passageiros fossem galinhas de granja, presos em um eterno dia artificial, obrigados ao estresse da produtividade mesmo após um cansativo dia de trabalho.

Junior Docini em cena de "Os Minutos que se Vão com o Tempo" - Foto: Bob Sousa

Junior Docini em cena de “Os Minutos que se Vão com o Tempo” – Foto: Bob Sousa

Mas, a poesia da Sinhá Zózima resiste e faz com que a gente se esqueça da frieza daquela luz. E olhe nos olhos dos artistas. Que nos dão cartas escritas a mão. E aí todos sonhamos outra vez.

O texto de Cláudia Barral, feito de forma colaborativa com a trupe sob direção de Anderson Mauricio, traz imagens afetivas de volta à memória dos espectadores. A moça que sonha em se casar, aquela casa da meninice com seu quintal cheio de árvores, a querida mãe que morreu e deixou muita saudade. Tudo ganha novo contorno com a presença do espetáculo naquele ambiente. Os passageiros riem e choram. Vivem.

Os que embarcam, logo são incorporados à cena. Os que descem, inclusive uma personagem, se despedem daquele momento ímpar de fantasia coletiva.

A atriz Maria Alencar desce e se despede da peça - Foto: Bob Sousa

A atriz Maria Alencar desce e se despede da peça – Foto: Bob Sousa

Ao lado dos artistas Anderson Mauricio, Cleide Amorim, Junior Docini (e seu violão), Maria de Alencar, Priscila Reis, Tatiana Nunes Muniz e Tatiane Lustoza, a viagem tão dura fica mais simples de ser enfrentada. Há um encontro bom. Uma comunhão que só a arte feita com o coração é capaz de alcançar.

Quem bom que existe a Trupe Sinhá Zózima para deixar São Paulo um pouco mais leve. Nem que seja apenas pelo tempo que dura uma longa viagem de ônibus.

“Os Minutos que se Vão com o Tempo” * * * * *
Avaliação: Ótimo
Quando: 30/8/2016, 20h, última apresentação
Onde: Terminal Parque Dom Pedro II, São Paulo, na linha 4313, sentido Terminal Cidade Tiradentes
Quanto: R$ 3,80 (preço da passagem do ônibus)
Classificação etária: Livre

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