Opinião: Sem Elke Maravilha ficamos todos mais caretas, sem brilho, sem cor

Elke Maravilha (1945-2016) - Foto: Leonardo Soares/UOL

Elke Maravilha (1945-2016) – Foto: Leonardo Soares/UOL

Por Miguel Arcanjo Prado

Como acreditar que Elke Maravilha morreu nesta terça (16) aos 71 anos? Como pode ter fim aquela alegria de viver, aquela mulher tão cheia de verdade, que sempre lutou pela liberdade de pensamento e de poder ser do jeito que cada um é? Não, não dá para acreditar.

Elke Maravilha com Chacrinha, que a tornou popular - Foto: Divulgação

Elke Maravilha com Chacrinha, que a tornou popular – Foto: Divulgação

Elke Georgievna Grunnupp, nascida na fria São Petesburgo, na Rússia, em 22 de fevereiro de 1945, tinha mesmo a quentura do Brasil. Era aqui seu destino, onde veio parar ainda criança com os pais russo e a mãe alemã, imigrantes em busca do calor dos trópicos para criar o filho.

O posto que a tornou conhecida do grande público foi o de jurada do programa do Chacrinha. Só o grande comunicador brasileiro teria a audácia de fazer da exuberante Elke Maravilha uma figura das tardes familiares, com a subversão tropicalista que inventou para o meio televisivo e da qual sua jurada colorida era peça fundamental.

Elke foi criada em Itabira, no interior de Minas. Do alto da montanha, onde sempre tinha farto horizonte à frente, já sabia que o mundo era seu lugar. Foi assim que aos 20 anos de idade resolveu partir de casa para viver sozinha no Rio de Janeiro, onde os nove idiomas que dominava (português, russo, alemão, francês, inglês, italiano, espanhol, grego e latim) lhe abriram portas de trabalho que lhe permitiram se sustentar.

Elke Maravilha nos tempos de modelo - Foto: Divulgação

Elke Maravilha nos tempos de modelo – Foto: Divulgação

Logo, sua beleza exótica chamou a atenção e Elke tornou-se modelo. Virou amiga da estilista Zuzu Angel. Seu rosto também chamou a atenção dos cineastas, que a disputavam em seus filmes. Elke esteve no elenco de clássicos do cinema brasileiro como “Xica da Silva”, de Carlos Diegues em 1976, e “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco, de 1981.

Mas o melhor papel de Elke Maravilha sempre foi ela mesma. E ela sabia disso muito bem e jamais decepcionava seus fãs em qualquer aparição pública que fosse. Sempre disparava seu pensamento coerente e nada conservador, fazendo chegar pela televisão aos mais simples um novo jeito de se pensar e de se encarar a vida, sem hipocrisia.

Mesmo ao falar de assuntos considerados tabus por parte da sociedade, Elke impunha, com seu jeito doce, sua possibilidade de verdade e de visão de mundo. Progressista, falava sem medo de temas como aborto, homossexualidade e drogas. Era artista de verdade. No teatro, sua última aparição foi na peça “Krisis”, com a Cia. Nova de Teatro e na qual contracenava com Paulo César Pereio, em 2013. Era o grande destaque.

Esta terça está desbotada. Sem ela, fica tudo mais triste. Sem Elke Maravilha, o Brasil perde boa dose de sua mais linda verdade, tornando-se mais hipócrita, mais sem sal. E nós todos ficamos, por tabela, mais caretas, sem brilho, sem cor.

Elke Maravilha: sem ela, ficamos sem cor - Foto: Divulgação

Elke Maravilha: sem ela, ficamos sem cor – Foto: Divulgação

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