Crítica: Perturbadora, “Justine” do Satyros mostra que bem não vence no fim

Cléo De Páris como Justine: vida de virtude e horror - Foto: Andre Stefano

Cléo De Páris como Justine: vida de virtude e horror – Foto: Andre Stefano

Por Miguel Arcanjo Prado

No Brasil em que vivemos, repleto de políticos inescrupulosos que roubam nosso dinheiro e depois choram de forma canastrona na TV como se fossem pobres coitados, fica difícil decretar que a honestidade e a virtude são modelos de sucesso.

É o que parece constatar de forma desolada a peça “Justine”, que encerra a remontagem da tetralogia inspirada em Marquês de Sade (1740-1814) pelo grupo Os Satyros, sob direção de Rodolfo García Vázquez.

Cléo De Páris é a protagonista. A grande musa da praça Roosevelt volta a uma peça do grupo após hiato de três anos — sua montagem anterior no Satyros havia sido “Édipo na Praça”, na qual performava cantando “Evidências”, de Leandro e Leonardo, com uma latinha de cerveja na mão, em cena simples e profunda que entrou para a história do Satyros.

Desta vez, Cléo usa parte de si para construir a personagem escrita por Sade e abraçada por ela em uma comunhão desnorteadora. Cléo sofre com Justine. É evidente.

A Justine de Cléo é ao mesmo tempo forte e frágil, mas, sobretudo, resignada com as agruras que o destino vai lhe impondo, sem, contudo, desistir de insistir em um comportamento virtuoso que lhe traz péssimas consequências. Enquanto isso, Juliette, sua irmã depravada, vivida pela bela e intensa Lorena Garrido, conquista o dinheiro e a glória a cada crime cometido. Mas, Justine jamais abre mão de sua moral, preferindo as agruras a se perverter.

Parte do elenco de "Justine": muitos corpos no palco - Foto: Andre Stefano

Parte do elenco de “Justine”: muitos corpos no palco – Foto: Andre Stefano

A obra traz um elenco do Satyros rejuvenescido. Muitos dos novos rostos já tinham aparecido nas outras peças da saga Sade, mas, agora, demonstram estar mais experientes, ou seja, menos crus. E contam sempre com a perspicácia de Vázquez como diretor — com assistência de Marcelo Thomaz —, sempre capaz de criar soluções em cena para dar unidade às suas peças, no caso desta, contada como uma fábula épica para maiores de 18 anos.

Além de Cléo e Lorena, compõem o gigantesco elenco Alex de Felix, Billy Eustáquio, Cristian Silva, Daiane Brito, Diego Ribeiro, Eric Barros, Evandro Roque, Fabia Mirassos, Felipe Souza, Fernando Soares, Hugo Godinho, Janaina Arruda, Júlia Innocencio, Lenin Cattai, Lucas Allmeida, Lucas Cavallaro, Michele Gois, Marcelo Vinci, Rhafael de Oliveira, Silvio Eduardo, Stephane Sousa e Tom Garcia.

A direção abusa da quantidade excessiva de corpos no palco, criando cenas impactantes, sobretudo as de forte apelo sexual, com ajuda de seu coro vigoroso — marca já conhecida da trupe.

Diante do Brasil atual, repleto de toda vilania possível coroada com poder e dinheiro, “Justine” joga em nossa cara sua verdade perturbadora: ao contrário do que aprendemos nos contos infantis, na vida real, os bons não vencem no final. Só resta, então, a desilusão e o horror?

“Justine”
Avaliação: Muito bom * * * *
Quando: Sexta e sábado, 21h. 90 min. Em cartaz por tempo indeterminado.
Onde: Estação Satyros – Praça Franklin Roosevelt, 134, metrô República, São Paulo, tel. 11 3258-6345
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada); moradores da praça Roosevelt pagam R$ 10
Classificação etária: 18 anos

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