Consuelo de Castro enfrentou classe média e ditadura em suas peças

A dramaturga Consuelo de Castro (1946-2016) - Foto: Danilo Verpa/Folhapress

A dramaturga Consuelo de Castro (1946-2016), em 2014- Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Por Miguel Arcanjo Prado

O teatro brasileiro está de luto nesta quinta (30), dia em que a dramaturga Consuelo de Castro Lopes morreu, aos 70 anos, vítima de câncer. A autora retratou de forma ferina a classe média e os anos de forte repressão que o Brasil viveu durante a ditadura civil-miltar (1964-1985)

Apesar de ter feito toda sua carreira em São Paulo, ela era de Araguari, no interior de Minas Gerais. Mas, desde a adolescência, adotou a maior metrópole brasileira como seu lugar. Estudou ciências sociais na USP (Universidade de São Paulo), onde fez parte do movimento estudantil na efervescente década de 1960, onde tudo era perigoso e divino maravilhoso, como definiu Caetano Veloso.

Estreou no teatro no fatídico ano de 1968, aquele que Zuenir Ventura definiu como o ano que não terminou, com a peça “Prova de Fogo”, que seria montada pelo Teatro Oficina de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, de quem foi amiga, mas que logo foi censurada pelos militares por retratar o movimento estudantil – em especial a épica guerra entre estudantes do Mackenzie e da USP na rua Maria Antônia, na qual estava o então líder estudantil José Dirceu, retratado na peça. A obra só foi montada em 1993 por Aimar Labaki.

Assim, sua segunda peça foi a sua primeira a ser encenada: “À Flor da Pele”, de 1969, com o embate entre uma jovem atriz e seu professor, com quem vive um romance tórrido. Foram vividos por Miriam Mehler e Perry Salles no Teatro Paiol, em São Paulo, sob direção de Flávio Rangel.

Perry Salles e Miriam Mehler em À Flor da Pele, de 1969 - Foto: Divulgação

Perry Salles e Miriam Mehler em À Flor da Pele, de 1969 – Foto: Divulgação

A obra abocanhou o prêmio da APCT (Associação Paulista de Críticos Teatrais), atual APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Em 1976, virou filme nas mãos do cineasta Francisco Ramalho, com Denise Bandeira e Juca de Oliveira como protagonistas.

Em 1974, Consuelo surge com novo texto, “Caminho de Volta”, ambientado em uma agência de publicidade, ambiente que ela passou também a trabalhar na década de 1970. Mais uma vez, levou os principais prêmios de texto: Molière, APCT e Governador do Estado.

Em 1975, fez “O Porco Ensanguentado”, sobre mulheres de classe média que se envolvem com rituais de magia. Do mesmo ano é “A Cidade Impossível de Pedro Santana”, com um arquiteto sonhador como protagonista e que não foi montada. Em 1979, voltou a fazer sucesso com “O Grande Amor de Nossas Vidas”, um retrato da classe média sob direção de Gianni Ratto.

Nos anos 1980, Consuelo apostou em novas formas de escrita teatral, saindo do realismo político tão presente até então. São desta fase: “Louco Circo de Desejo”, com o conflito entre uma jovem prostituta e um empresário, “Script-Tease”, com duas redatoras de uma tenebrosa telenovela, “Marcha à Ré”, escrita em parceria com Emílio Alves e que reedita o mito de Orfeu e Eurídice, “Mel de Pedra”, na qual embarca no abismo que separa o sonho do real, e “Uma Caixa de Outras Coisas”, que escreveu para a então bailarina Clarisse Abujamra.

Tradução e cursos de dramaturgia

Consuelo também traduziu e adaptou o clássico norte-americano “Hair” na montagem de 1987 dirigida por Antonio Abujamra, e também deu cursos de dramaturgia no Brasil e em Cuba na década de 1990, na qual ainda fez leitura em 1997 de seu texto “Medeia: Memórias do Mar Aberto”. Em 2000, o diretor Zé Renato montou seu texto romântico “Only You”, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural.

Consuelo fez parte da geração de dramaturgos surgidos nos anos mais sombrios da ditadura civil-militar e que tiveram de driblar em seus textos a feroz censura naquela época.

Ela foi conhecida por ter um humor ferino, presente em diálogos ágeis e repletos de espontaneidade, uma de suas grandes marcas. Fez parte do grupo de dramaturgos que ficou conhecido como “Geração de 1969” e que tinha também Antonio Bivar, Leilah Assumpção, José Vicente e Isabel Câmara, todos ícones do teatro em tempos de chumbo.

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