Crítica: Ar infantil prejudica rock potente do Queen em “We Will Rock You”

Cena de "We Will Rock You", em cartaz em SP - Foto: Divulgação

Cena de “We Will Rock You”, em cartaz em SP – Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Que o Queen é uma das mais potentes bandas de rock não há como discordar. Logo, um musical com as canções imortalizadas pelo grupo britânico liderado por Freddie Mercury já larga com a vantagem dos hits do grupo que são parte do inconsciente coletivo mundial.

Contudo, para se tornar um espetáculo teatral harmonioso, é preciso que a dramaturgia e as atuações estejam à altura das músicas cantadas no palco. Isso não acontece em “We Will Rock You – O Musical do Queen”, supervisionado pelos integrantes remanescentes da banda Brian May e Roger Taylor.

A produção escrita e dirigida por Ben Elton, em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, aporta no Brasil após ter sido vista por mais de 15 milhões de pessoas em 17 países, desde sua estreia em Londres, em 2012. Parte delas, fãs da banda.

Musical do Queen tem roteiro futurista - Foto: Divulgação

Musical do Queen tem roteiro futurista – Foto: Divulgação

Pensando neste perfil, o musical traz 24 músicas hits como “Radio Gaga”, “I Want to Break Free”, “Love of My Life” e “We Will Rock You”, que entremeiam uma história futurista que se passa daqui a 300 anos (mas que visualmente soa mais aos anos 1980), quando a música autoral não mais existe, estando os jovens mergulhados em produtos de entretenimento pré-fabricados e frias relações virtuais.

Apesar de bem intencionado e desejoso de criticar o “sistema”, o roteiro de Elton, que aqui tem o diretor residente Thiago Jansen de colaborador, tem um quê de “Super Xuxa contra o Baixo Astral”, com uma trama infantil mais para Sessão da Tarde do que para um musical roqueiro.

Conta a história dos jovens Galileo (Alírio Neto) e Scaramouche (Livia Dabarian), que se sentem um peixe fora d’água no mundo completamente globalizado e plugado, encontrando sua turma num submundo onde nostálgicos do rock que jamais chegaram a conhecer tentam fazer música “de verdade” para resistir aos desmandos de Killer Queen (Andrezza Massei, que se destaca).

Se canta muito bem, na hora das cenas dramáticas a maioria do elenco apela para um registro infantilizado. Muitas vezes as vozes faladas soam como dublagens do Disney Channel. A impressão é que a direção está mais preocupada com o show musical do que com o teatro, sendo notado um descuido na direção de atores.

Também chama a atenção as coreografias, assinadas por Philip Comley, mesmo com o palco repleto de artistas, muitas vezes serem estáticas: os dançarinos não saem de suas marcações no palco e pouco se movimentam em cena, o que daria mais exuberância ao musical.

Cena coreografada do musical "We Will Rock You" - Foto: Divulgação

Cena coreografada do musical “We Will Rock You” – Foto: Divulgação

É preciso, contudo, fazer uma importante observação: na parte musical, o espetáculo vai muito bem. As vozes são primorosas e a banda tem som pesado e virtuoso. Os músicos merecem ser citados e aplaudidos: Rodrigo Hyppolito, Thiago Rodrigues, Fernando Biral, Fábio Stamato, Lucas Vianna, Renato Leite, Yara Oliveira, Mario Gaiotto, Cauê Brisolla, Gabriel Lira Ramos, Kiko Woiski, Rubens Barbosa e Abner Paul.

“We Will Rock You” é um musical contraditório, já que reproduz na prática o que confronta em seu discurso. Na medida em que seu enredo tenta criticar ferozmente o aprisionamento da música em fórmulas comerciais, embaladas com laço de fita para venda a um público dormente de sentidos e ávido por consumir o próximo hit veloz, o musical acaba sendo ele próprio mais um exemplo disso.

“We Will Rock You” * *
Avaliação:
Regular
QuandoQuinta e sexta, 21h, sábado, 17h e 21h, domingo, 16h e 20h. 140 min. Até 31/7/2016
Onde: Teatro Santander – Complexo JK – Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, Itaim Bibi, São Paulo, tel. 11 4003-1022
Quanto: R$ 40 (meia-entrada) a R$ 300
Classificação etária:
Livre

 

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