Crítica: Recusa mergulha na cultura indígena com afinada dupla de atores com entrega desmedida

Recusa deu a Eduardo Okamoto e Antônio Salvador o APCA de melhor ator – Foto: Ernesto Vasconcelos/Clix

Por Miguel Arcanjo Prado

O árduo trabalho de pesquisa teatral é evidente na encenação do espetáculo Recusa, da Cia. Balagan, com direção de Maria Thaís.

Em cena, Eduardo Okamoto e Antonio Salvador, que dividiram o Prêmio APCA de melhor ator em 2012, vivem os dois índios Pripkura que rejeitam a civilização do homem branco.

Em um trabalho exaustivo e convincente, a dupla faz jus ao reconhecimento que teve. Entregam-se aos personagens sem medo ou receio, demonstrando domínio de corpo, voz e olhar.

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Os mitos indígenas são incorporados na história – incluindo aí a inspiração narrativa mitológica em pares apontada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) como característica dos indígenas do Novo Mundo.

Os atores representam bichos, riem, gritam e, sobretudo, falam língua indígena.

No começo, a sensação é de estranhamento, mas, aos poucos, o público mergulha, por meio da fala e gestos, na cultura apresentada no palco.

Recusa: entrega desmedida – Foto: Ernesto Vasconcelos/Clix

Luiz Alberto Abreu assina a dramaturgia, que partiu da notícia de jornal sobre os dois índios que não quiseram contato com o mundo civilizado e faz do corpo dos atores sua grande história.

A narrativa não é convencional; engloba pensamentos, situações e sensações daqueles índios diante do mundo. Na primeira parte, provoca mais interesse que nos momentos finais, quando o público sente o começo de um cansaço. Um pequeno corte teria feito bem ao espetáculo.

A direção acerta ao priorizar o trabalho dos atores. Não há pirotecnias fora do corpo destes. O delicado cenário assinado por Márcio Medina – responsável também pelos figurinos – é de simplicidade poética. Contudo, a iluminação de Davi de Brito poderia ter tido uma proposta de maior peso, o que não acontece.

Apesar da contundência da atuação de ambos, Okamoto consegue se destacar, mais preciso e sem arroubos.

A reiteração faz o espetáculo perder impacto na parte derradeira. Um destes momentos é a longa inserção da história de Macunaíma, livro de Mário de Andrade de 1928, que, apesar de ser feita de forma crítica, soa forçada.

Recusa é um teatro feito no corpo de uma afinada dupla de atores entregues à missão de dar vida no mundo e na arte civilizada a dois índios que desprezaram tudo o que vinha do homem branco. Esta é a grande dualidade da peça e também seu maior mérito.

Recusa
Avaliação: Bom

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