Moacir Chaves faz Sermão de Santo Antônio aos Peixes em SP: ‘Teatro remedia a solidão humana’

Moacir Chaves faz a peça Sermão de Santo Antônio aos Peixes no Sesc Pinheiros © Nil Canindé Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

O clássico Sermão de Santo Antônio aos Peixes, escrito em 1654 por Padre Antônio Vieira, ganha os palcos paulistas no auditório do Sesc Pinheiros, em cartaz de 16 de julho a 8 de agosto. Com direção, dramaturgia e atuação de Moacir Chaves, que divide a cena com Márcio Vito e o músico Gustavo Corsi, a montagem transpõe a obra do autor barroco para a contemporaneidade. Utilizando peixes como metáforas críticas contra a ganância, a corrupção e a exploração humana, o espetáculo revisita a genialidade daquele que Fernando Pessoa chamou de “Imperador da Língua Portuguesa”. Três décadas após dirigir o saudoso Pedro Paulo Rangel em Sermão da Quarta-feira de Cinza, Chaves retorna ao universo de Vieira com uma proposta mais performática e musical. Nesta entrevista exclusiva ao jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado para o Blog do Arcanjo, o encenador reflete sobre a atualidade desconcertante da obra e o poder do fazer teatral.

Miguel Arcanjo Prado – Moacir, você afirma que Padre Antônio Vieira é o nosso Shakespeare e destaca o caráter performático do púlpito no século 17. Como foi o processo de transpor essa oralidade barroca e a estrutura do sermão religioso para a dinâmica da cena teatral contemporânea?
Moacir Chaves –
Os sermões do Padre Antônio Vieira ultrapassam os limites dos dogmas religiosos. Vieira olhava para a vida cotidiana, para a organização social, para a política global. Além disso, e talvez por isso mesmo, tinha como maior e primeira preocupação, na escrita e pregação dos sermões, a comunicação com a audiência. Nesse sentido, podemos tomá-lo como um dramaturgo, visto que escrevia textos para serem falados, e compreendidos. Havia nele a preocupação formal relacionada à escrita e, podemos supor, também à performance do orador. Vieira foi nosso guia em todo esse processo.

Moacir Chaves e Marcio Vito estão em Sermão de Santo Antônio aos Peixes no Sesc Pinheiros © Nil Caniné Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – O espetáculo revisita a obra de Vieira exatamente três décadas após você ter dirigido Sermão da Quarta-feira de Cinza, com o saudoso Pedro Paulo Rangel. O que mudou na sua percepção artística sobre o autor ao longo desses trinta anos e como essa bagagem influenciou a atual montagem?
Moacir Chaves –
Os dois espetáculos são bastante distintos, foram construídos a partir de premissas muito distintas. A primeira encenação era centrada em uma ideia de personagem que estruturava toda a cena, enquanto a atual montagem tem um caráter mais performático, o que explica, aliás, a presença do músico Gustavo Corsi em cena. A música se constitui como uma outra fala em cena, e ilumina o que há de performatividade nos discursos verbais. Quanto ao que mudou em minha percepção artística sobre Antônio Vieira… creio que somente a minha admiração por sua obra, que cresce cada vez que me debruço sobre ela.

Miguel Arcanjo Prado – O texto original é marcado por uma crítica ácida à colonização, à corrupção e à exploração dos povos indígenas em 1654. Diante do cenário político e social atual do Brasil, de que maneira as metáforas dos peixes ecoam na plateia de hoje?
Moacir Chaves –
Infelizmente, as coisas parecem ter mudado pouco ao longo desses quase trezentos anos. A corrupção, no sermão, está atrelada à maldade básica ressaltada por Deus, que é o fato de que os homens se comem uns aos outros, ou, mais exatamente, os grandes comem os pequenos, “não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem…” Ao ler essas palavras, penso sempre nas grandes corporações que tentam nos roubar de todas a maneiras, na praga das bets, que destroem vidas sem fim, na uberização do trabalho…

Miguel Arcanjo Prado – Além de assinar a direção e a dramaturgia, você divide o palco com Márcio Vito, acompanhado pela música ao vivo de Gustavo Corsi. Como se estabelece o jogo cênico entre vocês?
Moacir Chaves –
Da melhor maneira possível. Marcio e Gustavo são maravilhosos companheiros de trabalho e de vida. Espero percorrer ainda muitas sendas ao lado desses queridos amigos, assim como também com Ricardo Kosovski, que compunha o elenco na temporada carioca.

Miguel Arcanjo Prado – A montagem aborda a grande contradição humana de se aceitar determinados dogmas ou discursos, mas não abrir mão de privilégios na prática. Como o teatro cumpre o papel de expor essa ferida da desigualdade em sua peça?
Moacir Chaves –
Eu acho que o primeiro papel do teatro é remediar a inarredável solidão humana. Quando assisto uma boa peça de teatro, desde sempre, me sinto acompanhado e em comunidade. Desde jovem sinto isso, ia quase sempre sozinho ao teatro, lá nos meus 17, 18 anos, mas não me sentia só. O cinema nunca me proporcionou isso, deve vir daí a minha preferência absoluta pelas salas de teatro. A partir desse compartilhamento, a partir do afeto, talvez consigamos também nos comunicar, ouvir, pensar, trocar ideias sobre a vida, a sociedade, sobre nós mesmos no mundo. Resta sempre uma esperança de que isso aconteça, e é essa esperança que nos leva a perseverar.

SERVIÇO

Sermão de Santo Antônio aos Peixes

Local: Sesc Pinheiros – Teatro Paulo Autran – R. Paes Leme, 195 – Pinheiros, São Paulo, SP
Temporada: De 16 de julho a 8 de agosto. Quinta a sábado, às 20h30.                     
Dias 31/07 e 07/08 sessões às 16h e às 20h30
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia entrada) e R$ 15 (credencial plena).
Vendas emsescsp.org.br, pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou nas bilheterias de todas as unidades do Sesc SP.
Duração: 60 min | Classificação: 14 anos. 
Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.                                                                 
Nos dias 31/07 e 01/08, as sessões contam com tradução em Libras.
Sesc Pinheiros  
Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo (SP)
Horário de funcionamento: Terça a sexta: 10h às 22h. Sábados: 10h às 21h. Domingos e feriados: 10h às 18h30
Estacionamento com manobrista
Como Chegar de Transporte Público: 350m a pé da Estação Faria Lima (metrô | linha amarela), 350m a pé da Estação Pinheiros (CPTM | Linha Esmeralda) e do Terminal Municipal Pinheiros (ônibus).
Acessibilidade: A unidade possui rampas de acesso e elevadores, além de banheiros e vestiários acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. Também conta com espaços reservados para cadeirantes. 

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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