CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto acontece de 25 a 30 de junho na cidade histórica de Minas Gerais

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Ouro Preto recebe, a partir do próximo dia 25 e até 30 de junho, a 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. É o principal evento brasileiro dedicado à preservação, história e educação audiovisual, que acontece na Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. Com programação inteiramente gratuita, a mostra ocupa diferentes espaços da cidade com exibições de filmes, debates, encontros, atividades artísticas, lançamentos e apresentações musicais.
A cerimônia oficial de abertura acontece no dia 25 de junho, às 19h30, no Cine-Praça, montado na Praça Tiradentes, com uma performance audiovisual concebida por Chico de Paula e Raquel Hallak e dedicada à celebração dos temas que orientam esta edição. Na Preservação, a temática é “Primeiros gestos na preservação audiovisual: práticas, memórias e futuro”; na História, “Como elas começaram? Memórias do primeiro filme”; e na Educação, “Primeira vez: cinema, descoberta e invenção”. Na abertura acontece ainda a homenagem à cineasta Helena Solberg, uma das pioneiras do cinema dirigido por mulheres no Brasil. Ela estará presente para receber o Troféu Vila Rica e terá parte de sua obra exibida durante o evento.
A performance audiovisual da abertura este ano pretende traduzir por sons, músicas, imagens e movimentos as reflexões propostas pelas curadorias do evento e tem por ponto de partida a ideia de uma primeira experiência audiovisual e dos instantes que antecedem a criação.

Em diálogo com o tema central da edição, “Um país existe nas imagens que preserva”, a apresentação vai percorrer simbolicamente os gestos fundadores da vida, do cinema e da memória, estabelecendo conexões entre os três eixos temáticos da Mostra, segundo o diretor Chico de Paula.
“Todas as três abordagens da mostra têm uma afinidade na proposta de cada uma. A gente construiu a abertura desse ano muito baseada nessa questão da primeira vez, da primeira experiência, do primeiro momento, do momento que antecede o fato, o acontecimento”, afirma ele. “Tem um repertório muito amarrado com as temáticas, com cada tema, com cada momento. Então, a gente vai partir da criação do mundo, da criação do cinema, da criação da vida”,
A performance vai se voltar ainda à presença feminina nos processos criativos, em referência à Temática Histórica. “A abertura está construída nesse sentido e também com um olhar muito atento para a mulher nos seus primeiros momentos criativos, entendendo a criação como um ato feminino”, destaca Chico.
Diversos artistas e criadores ligados às artes de Minas Gerais vão estar na apresentação, incluindo como músicos, atores e estudantes do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), numa integração desejada pela equipe artística desde edições anteriores. Além disso, fazem parte do line up o músico e compositor André Pelisser; a cantora e atriz Eda Costa; o ator e cantor Fábio Pádua; o músico e compositor João Avelar; a atriz, diretora e professora Maíra Lana; a cantora e atriz Thaiz Cantasini; e o ator e cantor Tiago Valentim. A condução da cerimônia será do ator e dramaturgo David Maurity, e a trilha sonora ao vivo será executada pela DJ Fê Linz. As intervenções visuais são assinadas pelo VJ Gabriel Fix.
Em seguida à cerimônia, o público na praça vai assistir à sessão especial dedicada à homenageada Helena Solberg, com os curtas-metragens “A Entrevista”, de 1966, considerado um marco do cinema feminista brasileiro, e “Meio-Dia”, de 1970. Ambos sintetizam os primeiros movimentos de Solberg e dialogam diretamente com as reflexões propostas pela edição.
A noite segue no Cine Lounge Show, com as apresentações do DJ Pátrida e sua discotecagem digital de música eletrônica e grooves brasileiros; e depois a banda Tropikaus e o repertório de clássicos brasileiros e canções regionais.

Filmes
As sessões dialogam diretamente com as três temáticas que norteiam a CineOP: História, Preservação e Educação.
As sessões acontecem em três espaços principais: o Centro de Artes e Convenções da UFOP, sede do evento e do Cine-Teatro Petrobras (510 lugares); a Praça Tiradentes, com o Cine-Praça (500 lugares), destinado à abertura, ao encerramento e às exibições ao ar livre; e o Cine-Museu (90 lugares), instalado no Anexo do Museu da Inconfidência. Parte da programação também poderá ser acompanhada gratuitamente pela plataforma www.cineop.com.br. São, ao todo, 135 filmes, sendo 33 longas, 4 médias e 98 curtas divididos em 42 sessões.
A programação reúne filmes de 18 estados brasileiros e de seis países, reafirmando seu papel como espaço de encontro entre diferentes territórios, olhares e cinematografias. Entre os estados representados, destacam-se Rio de Janeiro (29 filmes), São Paulo (21), Minas Gerais (12) e Pernambuco (5), além de produções da Bahia, Paraná, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Alagoas, Goiás, Pará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Roraima e Sergipe. A programação também inclui obras da Argentina, Colômbia, Uruguai, Bolívia, Estados Unidos e Alemanha.
MOSTRA COMPETITIVA CONTEMPORÂNEA
Pelo segundo ano consecutivo, a CineOP realiza a Mostra Competitiva Contemporânea, intitulada Arquivos em Questão. A seleção reúne cinco longas-metragens em pré-estreia nacional selecionados pelos curadores Cleber Eduardo e Juliana Gusmanpor compartilharem o uso criativo de imagens de arquivo como elemento estruturador de novas possibilidades de linguagem, estruturação e narrativa. Nestes filmes, os arquivos extrapolam serem registros do passado e aparecem como matéria estética, política e afetiva, com a potência da montagem e da ressignificação.
O júri oficial da mostra Arquivos em Questão vai escolher o melhor filme, que ganha o Troféu Vila Rica, e é formado por Anita Leandro, documentarista e professora de cinema na UFRJ; Gabriela Lima Gomes, professora associada do Departamento de Museologia da Universidade Federal de Ouro Preto, na área de Preservação e Conservação de Bens Culturais; e João Luiz Vieira, professor titular do Departamento de Cinema e Vídeo e do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A competição é formada pelos seguintes filmes:
– “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas” (Carlos Adriano, SP): ensaio cinepoético que parte do único registro filmado do escritor Marcel Proust para refletir sobre as possibilidades e impossibilidades de adaptação de sua obra monumental.
– “Apopcalipse Segundo Baby” (Rafael Saar, RJ): documentário que percorre a trajetória de Baby do Brasil desde os Novos Baianos até a carreira solo.
– “Universo Circular – Jocy de Oliveira” (Dácio Pinheiro, RJ) apresenta o percurso artístico da compositora e pioneira da música eletrônica no país, ainda em atividade aos 90 anos.
– “Irritante Prodígio” (Luiza Lindner, SP) investiga os limites entre autobiografia, performance e memória ao revisitar uma infância marcada por longos períodos de internação hospitalar e psiquiátrica.
– “Notas sobre um Desterro” (Gustavo Castro, DF) transforma imagens registradas por uma família brasileiro-palestina na Cisjordânia em uma reflexão sobre deslocamento, colonização e violência.
MOSTRA CONTEMPORÂNEA
Os longas e curtas-metragens em pré-estreia ampliam as discussões sobre memória e trauma, como acontece em “Anistia 79”(Anita Leandro, RJ), que retoma imagens realizadas durante a Conferência Internacional pela Anistia, em Roma, em 1979, e revisita reflexões sobre os crimes da ditadura militar brasileira. “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário” (Paulo Severo, RJ) recupera materiais inéditos das gravações do disco lançado em 1995 e reconstrói um período decisivo da música brasileira. Outro artista representado nos filmes aparece em “Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha” (Luis Abramo e Pedro Rossi, RJ), dedicado ao realizador do clássico “Viagem ao Fim do Mundo” e ao seu projeto de um cinema poético e radical. “As Dores do Mundo – Hyldon” (Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues, RJ) e “Vivo 76” (Lírio Ferreira, PE) completam a seleção.
A Mostra Contemporânea da 21ª CineOP apresenta um panorama diverso de obras que exploram imagens e sons de arquivo por meio de documentários, ensaios experimentais, animações e filmes-poema. Os curtas revisitam temas como mineração, patrimônio industrial, memória cinematográfica, figuras marcantes da cultura brasileira, histórias indígenas, relações de trabalho e narrativas históricas silenciadas, propondo novas leituras para materiais preservados ao longo do tempo. Ao combinar pesquisa, invenção estética e reflexão crítica, a mostra reafirma o arquivo audiovisual como matéria viva, capaz de reconfigurar as relações entre passado, presente e futuro.
Entre os curtas, com seleção de Rubens Fabricio Anzolin e Camila Vieira, a seleção inclui “Ouro de Tolo Remix” (Gabriel Afonso, MG), “Terceira Montanha” (Tetsuya Maruyama, RJ/EUA/França), “Cinzenta: Inventários da Chaminé” (Natália Reis, MG) e “Sem Título #11: Um Analecto à Mula” (Carlos Adriano, SP), entre outros.
MOSTRA HISTÓRICA E HOMENAGEM
Com o tema “Como Elas Começaram? Memórias do Primeiro Filme”, a Mostra Histórica percorre diferentes gerações de realizadoras brasileiras e revisita os momentos inaugurais de suas trajetórias.
A seleção reúne obras representativas, como “Feminino Plural” (Vera de Figueiredo, RJ), lançado em 1976; “Mar de Rosas” (Ana Carolina, RJ, 1977); “Que Bom Te Ver Viva” (Lucia Murat, RJ, 1989), que articula depoimentos de ex-presas políticas e ficção para refletir sobre as marcas da ditadura; “Um Céu de Estrelas” (Tata Amaral, SP, 1996), drama de violência doméstica concentrado em uma única noite; e “Um Dia com Jerusa” (Viviane Ferreira, SP, 2020).
A homenagem da 21a CineOP é para a cineasta Helena Solberg, cuja filmografia também ganha destaque. A sessão de abertura, na noite de 25 de junho, apresenta “A Entrevista” (1966), considerado um marco do cinema feminista brasileiro, e “Meio Dia”(1970). Entre os títulos programados na homenagem, está “Carmen Miranda: Bananas Is My Business” (1995), que procura devolver complexidade à imagem da artista brasileira internacionalizada por Hollywood.
MOSTRA PRESERVAÇÃO
Composta por versões restauradas de filmes do passado e por obras que refletem sobre a própria atividade de preservar imagens e com curadoria de José Quental e Vivian Malusá, a seção em 2026 tem a exibição de “O Ébrio” (Gilda Abreu, RJ), clássico de 1946 restaurado em 4K e que completa 80 anos desde seu lançamento. O filme, um dos maiores sucessos do audiovisual brasileiro, reafirma a importância da diretora, uma das pioneiras da presença feminina na realização cinematográfica do país.
Também integram a programação “Vento Norte” (Salomão Scliar, RS), drama ambientado em uma comunidade pesqueira do litoral gaúcho, e curtas restaurados como “Jangada de Ir e Vir” (Marcus Vale, CE), de 1977, e “A Luta do Povo” (Renato Tapajós, SP), de 1980, que evidenciam o trabalho e a resistência popular.
Em pré-estreia nacional, “Os Irmãos Segreto” (Michele Manzolini e Federico Ferrone, Itália/Brasil) recupera a trajetória dos irmãos italianos pioneiros do audiovisual brasileiro. Outro destaque é “O Filme Infinito” (Leandro Listorti, Argentina), construído a partir de fragmentos de obras argentinas jamais concluídas e que transforma restos e materiais órfãos em uma reflexão sobre memória e criação.
MOSTRA EDUCAÇÃO
A Mostra Educação, com curadoria de Adriana Fresquet e Clarisse Alvarenga, reúne filmes produzidos em contextos escolares e experiências formativas a partir de estímulos do uso do audiovisual como ferramenta pedagógica e espaço de descoberta. Além de trabalhos de estudantes de várias partes do país, reunidos por integrantes da Rede Kino, serão exibidos alguns longas-metragens: “Fraternura” (Evanize Sydow e Américo Freire), retrato afetivo de Frei Betto e de sua trajetória familiar atravessada pela experiência da prisão durante a ditadura militar; e “Arquivo Vivo” (Vincent Carelli e Ana Carvalho), que revisita quatro décadas do projeto Vídeo nas Aldeias e o retorno das imagens às comunidades indígenas onde foram originalmente realizadas, numa reflexão sobre memória, território e continuidade cultural.
CINE-EXPRESSÃO – A ESCOLA VAI AO CINEMA
O Cine-Expressão – A Escola vai ao Cinema é o programa educativo da 21ª CineOP que convida estudantes a vivenciarem o cinema como experiência de encontro, percepção e pertencimento. Realizadas nos dias 25, 26, 29 e 30 de junho de 2026, no Cine-Teatro do Centro de Artes e Convenções da UFOP, as sessões gratuitas são organizadas por faixa etária e apresentam uma seleção de 15 curtas-metragens brasileiros, entre animações e ficções. A experiência é complementada por debates após as exibições e pelo Material de Conexões e Saberes, que amplia as possibilidades de diálogo e aprendizagem nas escolas. A curadoria é de Ramina El Shadai.
MOSTRINHA DE CINEMA
A Mostrinha, sessão dedicada às crianças e famílias, apresenta nesta edição Papaya, primeiro longa-metragem de Priscila Kellen, um exemplar da animação inventiva infantil. Uma semente de mamão é expelida prematuramente do fruto do mamoeiro pela ferida causada por um pássaro germinador. Ao cair em terreno inóspito, a pequena semente ainda sem força para penetrar a terra com suas raízes sonha em voar em direção ao sol. A animação de Kellen é uma aventura cheia de cores, sons e vegetais antropomorfizados que investe na experiência da criança com as imagens para além das narrativas convencionais.
PROGRAMAÇÃO ONLINE
A programação online da 21ª CineOP é acessível gratuitamente de qualquer parte do mundo pela plataforma cineop.com.br. Integram o catálogo digital títulos da Temática Histórica, entre eles dez obras de Helena Solberg, como “A Alma da Gente” (2013) e “Dupla Jornada” (1975); da Temática Preservação, “Herbaria” (Leandro Listorti); além de curtas da sessão TV UFOP, disponíveis de 26 de junho a 5 de julho. Debates, abertura e encerramento também serão transmitidos pelo YouTube da Universo Produção.
Programação da 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto
- ABERTURA OFICIAL
- EXIBIÇÃO DE FILMES – LONGAS, MÉDIAS E CURTAS
- PRÉ-ESTREIAS E MOSTRAS TEMÁTICAS
- HOMENAGEM A HELENA SOLBERG
- MOSTRINHA DE CINEMA
- MOSTRA VALORES
- SESSÕES CINE-ESCOLA
- 21º ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS E ACERVOS AUDIOVISUAIS BRASILEIROS
- ENCONTRO DA EDUCAÇÃO: XVIII FÓRUM DA REDE KINO
- DEBATES, DIÁLOGOS E RODAS DE CONVERSA
- OFICINAS
- MASTERCLASSES INTERNACIONAIS
- EXPOSIÇÃO
- LANÇAMENTO DE LIVROS
- CORTEJO DA ARTE
- SHOWS
- FESTA JUNINA – ARRAIÁ DA CINEOP
- CINE-CONCERTO DE ENCERRAMENTO
- PROGRAMAÇÃO ONLINE
SOBRE A CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO
O EVENTO DA PRESERVAÇÃO, HISTÓRIA E EDUCAÇÃO
A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto é o único evento brasileiro dedicado ao cinema como patrimônio cultural e, há 21 anos, ocupa lugar de destaque no calendário audiovisual nacional ao articular preservação, história e educação. Realizada anualmente em Ouro Preto (MG), consolidou-se como espaço de referência para a reflexão sobre memória audiovisual, formação de público e desenvolvimento de políticas para o setor. Mais do que um festival de cinema, a CineOP é um espaço permanente de construção de conhecimento, valorização do patrimônio audiovisual e fortalecimento da cultura brasileira.
Toda a programação é gratuita. www.cineop.com.br
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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