Grupo Andaime de Teatro faz últimas sessões de Massapê no Sesc Belenzinho

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Um dos grupos mais queridos do interior de São Paulo, fundado em Piracicaba há 40 anos, o Grupo Andaime de Teatro vive dias de intenso diálogo paulistano. Mas, que está chegando ao fim, pelo menos esta temporada. O público tem até este domingo, 14 de junho, para assistir ao espetáculo Massapê – Histórias de vida e arte de Antonio Chapéu, em cartaz no Sesc Belenzinho. As três últimas apresentações acontecem na sexta-feira, às 19h, e no domingo, às 11h e 16h. No sábado não haverá sessão em função do jogo do Brasil na Copa do Mundo.
O espetáculo celebra os 40 anos do Grupo Andaime ao reunir as memórias de família de seu fundador em uma narrativa que revisita a trajetória dos cortadores de cana e de suas famílias, remanescentes do povo negro que deixaram o interior de Minas Gerais rumo aos canaviais de Piracicaba. Com texto de Solange Dias e direção de Rogério Tarifa, a montagem reafirma a relação do grupo com a cultura popular brasileira, matéria-prima de sua trajetória artística.
A narrativa se constrói a partir de memórias reais e simbólicas de Chapéu, formando em cena um território híbrido entre o quintal de sua infância, a sala de memória e o palco de resistência. O tempo é simultâneo: presente e passado coexistem, convocando vozes, cantos, sombras e gestos que moldam o barro da existência, entrelaçando episódios de sua trajetória com referências à oralidade, à ancestralidade negra e às tradições do interior paulista, como a Folia de Reis, a música caipira e os saberes do ofício artesanal.
“Minha família foi sempre ligada à cultura popular, à catira, à congada e às festas de Reis. Então eu sempre dava um jeito de colocar alguma coisa ali no meio. Uma música, ou uma reza, ou uma dança. E agora num espetáculo que vai tratar só disso, dessa história, pra mim é um acontecimento. É como se eu juntasse tudo que eu fiz até agora num espetáculo só. Quase como a realização de um sonho”, afirma Antonio Chapéu.
Ainda que centrado na figura de Antonio Chapéu, o texto de Solange Dias se abre para outras presenças simbólicas, criando camadas sensíveis de representação. Os objetos em cena assumem função dramatúrgica e afetiva. A linguagem mistura o coloquial ao lírico, a conversa ao canto, o real ao imaginado. A dramaturgia acolhe intertextualidades e incorpora musicalidades, poesias e falas populares que ecoam a trajetória do protagonista, além de canções compostas por Juh Vieira, criadas especialmente para o espetáculo. Ao final, o espetáculo se desenlaça como um rito de continuidade: uma oferenda à memória e à arte como caminhos de transformação.
A peça surge, a partir desse entrecruzamento entre memória e invenção, com a utilização de vivências reais e um inventário de lembranças, como recurso disparador para a criação de cenas, além da busca de uma linguagem poética inspirada nas obras de Guimarães Rosa. “Acho que uma das minhas funções principais como diretor é conseguir amarrar toda essa liberdade de linguagem nesse campo poético de criação que a gente constrói. Temos uma equipe muito potente, que constrói junto comigo essa pesquisa que eu chamo de ato-espetáculo-musical”, explica o diretor Rogério Tarifa.
O reencontro do diretor com o grupo também coroa uma história antiga. “Dirigi a peça que marcou os 25 anos do grupo Andaime, e volto agora a dirigir o espetáculo que celebra os 40 anos desse grupo tão importante. É um espetáculo popular, poético, um resgate da memória brasileira, resgate de culturas que se insiste em tentar apagar, mas elas estão como sempre resistindo, resistindo e formando seres e construindo linguagem”, acrescenta Tarifa.
O público pode esperar um espetáculo rico em elementos cenográficos, música, histórias emocionantes e causos compartilhados. “É como se eu pegasse todas essas fagulhas que foram acesas durante esses 40 anos para apresentar de uma vez só. É uma coisa que está mexendo muito comigo, inclusive. Tem muita coisa que eu achava que sabia da história da minha família, da minha história, que eu só vim a descobrir agora nessa pesquisa. Quantas outras famílias também não passaram por isso? Por essa busca do ser humano de encontrar soluções melhores de vida. Eu fico imaginando que isso por si só já vai identificar com muita gente”, conclui Chapéu.
Sinopse:
Massapê surge da pesquisa do Grupo Andaime, das lembranças e memórias dos cortadores de cana e de suas famílias, remanescentes do povo negro, quando empreenderam uma travessia do interior de Minas Gerais para a lida nos canaviais de Piracicaba, interior de São Paulo. História de boa parte do povo brasileiro, a montagem é resultado do entrecruzamento entre memória e invenção, com a utilização de vivências reais e um inventário de lembranças da “família Silva”, como recurso disparador para a criação de cenas, além da busca de uma linguagem poética inspirada nas obras de Guimarães Rosa.
Ficha Técnica:
Concepção e atuação: Antônio Chapéu. Texto: Solange Dias. Direção Geral: Rogério Tarifa. Direção Musical e composições: Juh Vieira. Músicos: Juh Vieira, Marcos Coin e Dicinho Areias. Subs: Daniel Warschauer e Yuri Coin de Carvalho. Direção de movimento: Marilda Alface. Direção de palco: Diego Dac. Cenário: Rogério Tarifa e Diego Dac. Marceneiro: Valdemir Mineiro. Figurino: Juliana Bertolini. Iluminação: Marisa Bentivegna. Vídeo e fotos: Thiago Altafini. Pesquisa Teórica: Alexandre Mate e Sol Barreto. Designer gráfico: Fábio Viana. Assessoria de imprensa:Adriana Balsanelli. Participações especiais: Família Silva (Joaquim Juarez da Silva, Vera Lúcia Silva Carvalho, José Carlos de Carvalho, Maria Cecília Moreno, Pedro Moreno, Maria do Carmo, Ana Inácio Silva, João Domingos, Elsabete Moreno, Sonia Regina Moreno de Lima, Ana Hermínia, Maria Paula Ferreira Silva) e Grupo Andaime (Jorge Lode, Carlos Jeronimo, Ariane Martins, Jennifer Garcia, Tiago de Luca e Joseane Bigaran). Produção: Rodri Produções. Assistentes de produção: Diego Leo e Julia Terron. Assistente administrativo: Rafael Tavares. Direção de produção: Carolina Henriques e Jessica Rodrigues.
Serviço: Estreou em 28 de maio. Temporada: Até 14 de junho de 2026
Sexta-feira, às 19h, Domingo às 11h e 16h.
Não haverá sessão no sábado, 13 de junho, em função do jogo do Brasil na Copa do Mundo.
Sesc Belenzinho – (Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo)
Duração: 100 minutos
Classificação: Livre.
Fazer jornalismo cultural de qualidade é nossa missão e seu apoio é importante! Você pode contribuir em nossa chave pix: [email protected]
Compartilhe as matérias e siga nossas redes sociais.
Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
© Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado 2026 | Todos os direitos reservados.
Editado por Miguel Arcanjo Prado
Avaliações críticas:
★ Fraco
★★ Regular
★★★ Bom
★★★★ Muito Bom
★★★★★ Excelente




