★★★★ Crítica: Visita a Domicílio mostra o que restou depois do tempo entre tango, risada, ausência e reencontro

Por FELIPE GUIGUEL
Do Eu Amo Curitiba
Fotos Adriano Escanhuela
★★★★
VISITA A DOMICÍLIO
Avaliação: Muito Bom
Crítica por Felipe Guiguel
Quartas e quintas, 19h. 60 min. 18 anos.
Até 25/6/2026 no Teatro Sérgio Cardoso, SP
Compre seu ingresso!
Após estreia no Festival de Curitiba e agora em cartaz em São Paulo, Visita a Domicílio transforma, com humor e muita dança, um reencontro de dois amores em uma investigação emocional intensa sobre memórias, ausências afetivas e dinâmicas estruturais que moldam nossos afetos cotidianos
A peça Visita a Domicílio, coprodução internacional Brasil-Argentina, estreou nacionalmente entre 7 e 9 de abril no Teatro Paiol, dentro da Mostra Fringe do 34º Festival de Curitiba, e agora faz temporada em São Paulo no Teatro Sérgio Cardoso, às quartas e quintas, 19h, até 25 de junho com ingressos na Sympla. A obra escrita por Alberto Romero tem direção de Zé Guilherme Bueno, em codireção com o crítico e jornalista Miguel Arcanjo Prado, e produção executiva de Fabio Camara. No elenco, Juan Maneul Tellategui e Cícero de Andrade interpretam os personagens Gabo e Fernando, um casal que se reencontra depois de 25 anos, após um namoro na adolescência com fim repentino.
A peça utiliza elementos da teledramaturgia, dialogando também com linguagem do sitcom. Com direção de movimento de Zuba Janaina, o espetáculo apresenta dança e entrosamento entre os personagens ao longo de seu desenvolvimento, com movimentos corporais que marcam momentos de humor e comemoração pelo reencontro. Esse tom de trabalho sobre o corpo como ferramenta de ânimo, que ocorre nos dois primeiros terços da peça, cria uma afinidade entre a plateia e a narrativa apresentada.
Mas não é apenas de comédia que o espetáculo se constrói. Ele também utiliza o drama para abordar um tema que toca o coração: um “e se” que já passou pela mente de muitas pessoas ao pensarem em um passado romântico que poderia retornar.

Essa atmosfera de revisitação emocional aparece na própria concepção da direção. Em conversa após a apresentação, o codiretor Miguel Arcanjo destacou que Gabo e Fernando se reencontram “em uma idade da vida em que as pessoas costumam fazer um grande balanço daquilo que viveram e começar a sentir uma certa nostalgia do passado”. Segundo ele, a peça nasce justamente desse questionamento íntimo sobre “como teria sido minha vida se tivesse tomado aquela decisão lá atrás diferente da que tomei”.
Com isso, o reconhecer novamente alguém que hoje pode já ter se tornado outra pessoa, carrega um mistério e um suspense que nascem do receio sobre como serão essas novas trocas, baseadas em questões interpessoais nada atuais. Trata-se de um tema que marca a profundidade sobre uma afetividade intensa entre duas pessoas, mas apresentado de maneira suave em seu princípio.

Além da direção de movimento de Zuba Janaina, destaco também a atuação do argentino Juan Manuel Tellategui (que, na peça, comemora 30 anos de carreira, 15 em Buenos Aires e 15 em São Paulo), que se mostra encantadora e envolvente com a plateia, especialmente na proximidade em que o Teatro Paiol proporcionou na relação com o público.

Juan Manuel Tellategui inicia a peça com uma atuação forte, interpretando um personagem que vive uma vida livre nas relações sexuais e amorosas, com direito a rejeições sem meias palavras. Trata-se de alguém que sente a necessidade constante de manifestar seu ego em relações superficiais e sem forte laço afetivo, abrindo espaço para a descartabilidade do outro, ao mesmo tempo em que esse comportamento revela um processo social já discutido por Zygmunt Bauman na concepção de “amor líquido” marcada pela fragilidade dos vínculos, pela instabilidade afetiva e pela lógica de consumo aplicada às relações humanas em um mundo altamente conectado de interações rápidas calçadas em interações digitalizadas.

Esse padrão expõe também um indivíduo marcado por comportamentos inconscientes que atravessam conflitos existenciais profundos, que o levam a transitar de afeto em afeto em busca de um parceiro idealizado, quase utópico, capaz de curar suas dores internas. Esta marca comportamental converge com uma vida que segue em permanente estado de “má-fé”, conceito desenvolvido por Jean Paul Sartre para definir os mecanismos pelos quais um indivíduo evita confrontar a própria liberdade, seus vazios internos e suas angústias existenciais ao se refugiar em performances sociais e afetivas que trazem conforto à própria psiquê. Na psicologia, isso pode também ser associado ao conceito de “recalque”, descrito por Freud, como uma forma do cérebro proteger a si mesmo das consequências de um trauma instaurado no passado.

Nesse contexto, surge Cícero de Andrade como Fernando, um médico que, em mais um dia de trabalho, realiza um atendimento domiciliar a um paciente com dores na coluna. É nesse ponto que se inicia uma dança de memórias entre os dois, navegando pelo passado em busca de esclarecer as razões do sumiço de Fernando da vida de Gabo. A dramaturgia sustenta esse reencontro através de lacunas emocionais que nunca foram resolvidas.
Como aponta Miguel Arcanjo, “por mais que Gabo tenha idealizado muito tudo o que aconteceu com os dois lá atrás, ficaram algumas lacunas que ele precisa aproveitar esse reencontro inesperado para conseguir as respostas que tanto queria”. É justamente essa busca por respostas que mantém o suspense e a tensão afetiva da obra até seus momentos finais.

E as respostas se mostram entre risadas, danças e lembranças, com os objetos de cena que passam a integrar essa coreografia, sendo constantemente movimentados pelos personagens e pela equipe de apoio — as assistentes de direção Julia Zann e Luiza Carvalho em Curitiba e os contrarregras Jean Lizo e Danni Bristot, além dos assistentes Luiza Quintero e Runan Braz em São Paulo.
Logo, essa sensação de suspensão temporal é assumida pela própria encenação entre uma cena e outra na residência de Gabo. Miguel Arcanjo Prado define o apartamento na Avenida Corrientes como “um túnel do tempo que os levasse para 25 anos atrás”, no qual a sonoplastia de Eder Sousa se destaca, trazendo músicas argentinas e ambientação sonora da movimentada avenida portenha. Ainda que os personagens tenham seguido caminhos distintos, “Gabo e Fernando também são, de certa forma ainda, aqueles dois adolescentes do passado”.

A direção transforma o espaço cênico em um território onde estas memórias de adolescentes e o presente de dois adultos aos 40 anos passam a coexistir. Esses elementos são fundamentais para contar a história do casal: vão de fotografias a itens decorativos e até objetos mais íntimos, que remetem à profunda intimidade que ambos tiveram juntos.

À medida que essa coreografia entre cenário, assinado por Kleber Montanheiro e Zé Guilherme Bueno, e personagens se desenvolve, os móveis vão sendo retirados de cena, enquanto que a luz criada por Nicolas Manfredini faz mudanças que acompanham os diferentes tons da peça. Isso abre espaço para que a narrativa passe a se apoiar cada vez mais nos atores e em seus diálogos. Trata-se de uma representação semiótica: quanto mais os personagens revisitam o passado, mais o espaço ao redor se esvazia para que a história ocupe esse vazio.
Esse movimento é fundamental para que a dramaturgia do argentino Alberto Romero ganhe intensidade e profundidade, afastando-se gradualmente da linguagem de “sitcom e de novela” e aproximando-se de um teatro, que utiliza a dança, agora mais lenta, como forma de expressão.

Não por acaso, a peça também incorpora a linguagem da dança: inicialmente alegre e expansiva, e, ao final, íntima e contemplativa. Assim, além do sitcom, da novela e do teatro, a obra também dialoga com a dança. Os atores tornam-se bailarinos de um tango simbólico entre palavras, ações, deslocamentos de objetos e contato corporal.
Como em toda dança a dois, há quem conduza e quem siga o ritmo e, nesse tango de atuações, o argentino Juan Manuel Tellategui se destaca ao conduzir a intensidade emocional, justamente por seu personagem carregar o maior peso do drama e dúvidas em sua trajetória.

Durante esse percurso, a peça aborda temas comuns a casais LGBTQIA+, trazendo situações e falas familiares a esse universo, mas também se propõe a ir além ao tocar, ainda que de forma sutil, na bissexualidade presente nesse universo colorido. Abordar essas questões, dentro de um contexto social ainda marcado por preconceitos, exige cuidado na condução do humor, evitando invisibilização. Esse é um passo delicado que a direção e a dramaturgia executam com sensibilidade.
Por fim, somos confrontados com verdades duras sobre o que ocorreu 25 anos antes, em um palco já esvaziado, sob a luz de um amanhecer. Após uma noite de revelações, os nós do passado se mostram impossíveis de desfazer. O que impede essa reparação não é apenas o tempo, mas a própria ausência das condições e das pessoas que fizeram parte daquele contexto.

Esse desfecho revela profundas questões sociais e íntimas relacionadas a preconceito e autoritarismo, tão presente na América Latina, seja na Argentina ou no Brasil, evidenciando como estruturas sociais podem impactar drasticamente trajetórias pessoais.
Em síntese, o espetáculo se propõe a emocionar e provocar reflexões sobre as barreiras enfrentadas por casais LGBTQIA+, especialmente para aqueles que observam essas realidades de um lugar de conforto. Para isso, utiliza o humor como estratégia: primeiro acolhe, depois desestabiliza, conduzindo a plateia a um potente plot twist final.
Após sua estreia no Festival de Curitiba, a peça segue em temporada em São Paulo. Estreou dia 20 de Maio e seguirá em cartaz até 25 de Junho, no Teatro Sérgio Cardoso, quartas e quintas, 19h, estando em cartaz no Mês do Orgulho e sendo opção cultural para quem vai à Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo.

Fica a recomendação ao público paulistano: vá de coração e mente abertos, não apenas para rir, mas para sair com reflexões profundas sobre como o amor pode ser moldado por dinâmicas sociais que, por mais conhecidas que sejam, mal somos capazes de imaginar suas dimensões, principalmente quando não se é uma pessoa com vivências LGBT. Assim, um encontro inesperado pode revelar o quanto nossas vidas ainda são atravessadas por um passado que, por vezes, nos fazem questionar se a ignorância, de fato, pode ter sido uma bênção.
★★★★
VISITA A DOMICÍLIO
Avaliação: Muito Bom
Crítica por Felipe Guiiguel
Quartas e quintas, 19h. 60 min. 18 anos.
Até 25/6/2026 no Teatro Sérgio Cardoso, SP
Compre seu ingresso!
Compre seu ingresso para Visita a Domicílio em SP
Siga @feguiguel e @euamocuritiba

Fazer jornalismo cultural de qualidade é nossa missão e seu apoio é importante! Você pode contribuir em nossa chave pix: [email protected]
Compartilhe as matérias e siga nossas redes sociais.
Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
© Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado 2026 | Todos os direitos reservados.
Editado por Miguel Arcanjo Prado
Avaliações críticas:
★ Fraco
★★ Regular
★★★ Bom
★★★★ Muito Bom
★★★★★ Excelente





