‘A gente reinventou o livro do Galeano’, diz dramaturgo sobre Veias Abertas no Festival de Curitiba

“As Veias Abertas da América Latina” chega ao Festival de Curitiba © Annelize Tozzeto Divulgação para Miguel Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial ao Festival de Curitiba

Reportagem de SANDOVAL MATHEUS

O escritor uruguaio Eduardo Galeano faleceu em abril de 2015. Quase um ano antes, renegou o seu maior clássico, o livro “As Veias Abertas da América Latina”, durante sua participação na Bienal do Livro de Brasília: “Eu não seria capaz de ler de novo. Cairia desmaiado”. O problema da obra, lançada originalmente em 1971, não era o mérito, uma investigação histórica sobre a exploração sofrida pelo continente durante séculos, mas a forma. “Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima. Meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro”, continuou, zombando se seu próprio estilo na juventude.

Portanto, se estivesse vivo hoje, é presumível que Galeano aprovasse o trabalho da companhia teatral Aquela Cia ao subverter e fragmentar sua principal obra na peça “Veias Abertas 60 30 15 Seg”, em cartaz na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, com sessões nesta sexta e sábado, 10 e 11 de abril, às 20h30, no SESC da Esquina.
“Pro Galeano não terminar desmaiado, a gente teve que pegar o livro e reinventar”, brincou Pedro Kosovski, que assina a dramaturgia ao lado de Carolina Lavigne, durante entrevista coletiva na Sala de Imprensa Teuda Bara & Maurício Vogue, no Hotel Mabu.

Pra isso, o espetáculo trata o livro de Galeano – que mistura história, economia e política num ensaio sobre as tragédias e percalços deste quadrante do mundo – no máximo como uma inspiração para a dramaturgia. “A gente tenta estabelecer um diálogo com a obra”, define o diretor Marco André Nunes. “É um livro pesado, denso, mas ao mesmo tempo a gente fala de beleza. E justapõe as nossas delícias e as nossas dores.”

Na encenação, um funcionário da United Fruit Company, multinacional norte-americana que mandou e desmandou nas repúblicas do Caribe durante todo o século 20, se apaixona por um militar. No dia do casamento, no entanto, o exército colombiano promove o Massacre das Bananeiras, para colocar fim a uma greve de trabalhadores, e os dois ficam em lados opostos do conflito.

Apesar do tema pesado e da sinopse dramática, a montagem é ágil e dinâmica, talvez no sentido mais radical possível. Pra começar, as cenas, fragmentos de no máximo um minuto que se sucedem e também podem ocupar o palco simultaneamente, se desenrolam numa academia de dança (ao som de ritmos como salsa, bolero, mambo, samba e a punta hondurenha). É apenas à noite que o local se transforma em covil para reuniões subversivas.

“Isso dá pra gente a possibilidade de transitar por vários lugares”, diz Pedro Kosovski. “A gente vai de uma encenação mais documental até o melodrama, passando pelo musical.”

No momento em que o debate sobre o Brasil ser ou não um país latino-americano foi reaceso, o espetáculo pretende encampar a discussão. “A peça funciona como uma convocação pra esse lugar”, acredita Kosovski. “Estamos na América Latina. É urgente que os brasileiros entendam isso, porque é assim que somos vistos do norte pra baixo.”
A colombiana Carolina Lavigne concorda: “Pra gente se reconhecer, precisa antes conhecer. É isso o que falta”, constata. “Muitas pessoas acham que o Brasil está fora da América Latina, mas a única diferença é que aqui não se fala espanhol.”

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viaja a convite do Festival de Curitiba.

Siga @miguel.arcanjo

APOIE o jornalismo!
Fazer jornalismo cultural de qualidade é nossa missão e seu apoio é muito importante! Você pode contribuir em nossa chave pix: [email protected]
Compartilhe nossas matérias e interaja em nossas redes sociais.
O jornalismo cultural independente agradece!

Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
© Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado 2026 | Todos os direitos reservados.

Editado por Miguel Arcanjo Prado

Avaliações críticas:
★ Fraco
★★ Regular
★★★ Bom
★★★★ Muito Bom
★★★★★ Excelente

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *