João Luiz Fiani celebra estar no Festival de Curitiba desde o início: ‘O teatro sempre sobrevive’

João Luiz Fiani: grande nome do teatro do Paraná e brasileiro participa do Festival de Curitiba desde o começo © Divulgação para Miguel Arcanjo 2026

Reportagem de VICTOR STELLA

João Luiz Fiani é um dos maiores nomes do teatro e da dramaturgia paranaense, e está completando 47 anos de carreira. Desde 1994, comanda o primeiro teatro privado na cidade de Curitiba, o Teatro Lala Schneider, que leva o nome de sua mestra nos palcos. 

Nascido em 1963, ele começou cedo nos tablados, aos 13 anos. Fiani é um apaixonado pelo cenário teatral, e já atuou, produziu e dirigiu mais de 200 espetáculos.

Este ano, mantém sua tradição de integrar a programação do Festival de Curitiba. Como ator estará na peça “Morte Pede Passagem”, no Teatro Lala Schneider, nos dias 10 e 11 de abril, às 20h. Como diretor, João apresenta uma grande lista, dentre as obras estão: “Werther”; “A Noite das Mal Dormidas”; “A Tarada do Boqueirão” e “A Cigarra e a Formiga”, que integram a programação do maior festival de artes cênicas da América Latina.

O ator, além de estar nos palcos, atualmente também é gestor cultural público. Ele é Diretor de Ação Cultural da Fundação Cultural de Curitiba e participa ativamente dos eventos artísticos da cidade, na gestão do prefeito Eduardo Pimentel.

Fiani também já atuou em algumas produções de grande destaque nacional pela Rede Globo, como “Lua Cheia Do Amor”, “A Grande Família” e “Roda de Fogo”, entre outras. Mas, sua verdadeira paixão está nos espetáculos.

Nesta entrevista com o repórter Victor Stella para Miguel Arcanjo, João Luiz Fiani conta mais sobre seu passado, suas visões no cenário do teatro e expectativas e medos que o cercam sobre o futuro.

Como começou a sua relação com a dramaturgia e o teatro?
Eu gosto sempre de contar essa história porque ela é bonitinha. Eu tinha de 13 para 14 anos e estudava em um colégio no Rio de Janeiro chamado São Sebastião. Tinha uma professora de português, a professora Márcia, que era atriz, e eu me apaixonei por ela. Eu tinha 13 anos e ela devia ter uns 30 e poucos, ela montou um curso de teatro na escola e eu fui o primeiro aluno a fazer a inscrição do curso de teatro dela. Eu falo que comecei a fazer teatro por paixão, não pelo teatro em si, mas pela minha professora de português, só que, a partir daí, eu conheci a arte. Ela me levava para ver espetáculos e, com 13 anos, a primeira peça que assisti foi A Cantora Careca, de Eugène Ionesco. Isso com certeza influenciou minha cabeça e me fez enxergar o teatro. A partir daí, entrei na faculdade de teatro e fiz o curso do Teatro Guaíra junto a nomes importantes do teatro brasileiro, como Luís Melo, entre outros. Foi então que comecei a fazer teatro efetivamente, e sigo nessa estrada até hoje.

E ao todo, quantas peças você já fez? Desde atuação, direção, produção…
Mais de 200 peças, por causa do meu teatro. Como sou dono do Teatro Lala Schneider,a gente é obrigado a colocar muitas peças em cartaz, e eu estou completando esse ano 47 anos de carreira, então são 47 anos fazendo muito teatro.

E você tem alguma peça que mais te marcou?
É difícil, porque tenho muitas. Mas um espetáculo que gosto muito como ator e autor é o “Nem Freud Explica” , que foi uma peça que a gente ficou em cartaz por muito tempo, eu e o Marino Júnior. É uma peça que me dá um prazer muito grande, e sempre onde a gente fez lotou, fizemos no Rio, fizemos em São Paulo, e muitas vezes em Curitiba. 

Como começou essa relação com o Festival de Curitiba?
Desde o primeiro dia em que os meninos resolveram ter o Festival de Curitiba – falo “meninos” porque foi há 30 e poucos anos -, eles fizeram a festa de lançamento no Graciosa, um clube aqui de Curitiba. Eu fui convidado pelo Leandro [Knopfholz], pelo Victor [Aronis] e pelo Cássio [Chameck]. Fui acompanhado de um grande amigo meu, que já não está mais entre nós, o Paulo Autran. Foi a primeira reunião do Festival de Curitiba, o lançamento oficial. Eu acompanhei todo o processo e toda a ideia, enfim, foi um projeto muito interessante que nasceu de três super jovens e que hoje é um grande patrimônio da nossa cidade, do nosso estado e um patrimônio brasileiro também.

E também como é sua relação atualmente com o festival? Como você enxerga ele?
Eu sou fã absoluto do Festival de Curitiba. Para mim, ele tem uma importância fundamental. Primeiro, porque ele propicia que a gente possa ver teatro, conviver com outros nomes e conhecer outros estilos que são feitos no Brasil, isso enquanto artista. Como produtor, diretor e proprietário de teatro, é um momento em que temos a possibilidade de ver nossas peças sempre lotadas, porque o festival tem isso, né? É uma imersão e faz com que todo mundo assista ao teatro. Eu sempre brinco que, aqui em Curitiba, nessa época, tem uma mesa de jantar com várias pessoas e um fala: “Ah, eu vou ver cinco peças do festival”; aí outro fala: “Ah, vou ver três”; “Ah, eu vou ver oito”. Aquele que está na mesa e não comprou nenhum ingresso acaba se sentindo péssimo e diz: “Ah, eu vou ter que ir”. Então, isso é muito legal, quanto mais se fala de teatro, melhor. Eu sou fã do Festival de Curitiba.

E esse ano, você está interligado com alguma peça no Festival? Produzindo, atuando…
Sim, eu estou. Primeiro, porque administro, nesse momento, quatro teatros no festival: o Teatro Lala Schneider, o Teatro Paulo Autran, o Teatro Fernanda Montenegro e o Teatro João Luiz Fiani. Recebi uma homenagem do Shopping Novo Batel, e o teatro leva o meu nome, esses três, Fernanda, Paulo e Fiani estão lá no Shopping Novo Batel, além do Teatro Lala Schneider, que fica no centro de Curityiba. Toda a programação desses quatro espaços foi feita por mim, tem espetáculos de São Paulo e do Rio de Janeiro, tem espetáculos nossos e espetáculos de parceiros. Como ator, eu estou na peça Morte Pede Passagem, que já faz muitos anos que eu faço. Como diretor, tem Werther, tem A Noite das Mal Dormidas, tem A Tarada do Boqueirão, tem A Cigarra e a Formiga… Tem todos os estilos, é uma lista de espetáculos para crianças, para adultos, enfim, para todos os públicos.

Desde que começou até hoje, quais mudanças percebe no cenário do teatro? 
O teatro sempre vai permanecer. Isso é uma condição da gente ter o teatro como uma arte que resiste, que persiste. A gente é resistência, essa é a palavra certa. Mas o que eu sinto muita falta é de mais divulgação dos nossos trabalhos, de mais repercussão por parte da mídia, por parte da imprensa. No Festival de Curitiba isso até acontece, porque é impossível não falar do festival, mas ao longo do ano a gente sofre muito com a falta de repercussão do nosso trabalho. Para mim, essa é a maior questão, o maior problema que eu encontro hoje no panorama do teatro paranaense.

E tem alguma ideia do que poderia ser feito para mudar isso? O que vocês da cena podem fazer de mudança, ou vocês acham que depende apenas da mídia?
Eu vou fazer uma mea culpa. Às vezes, nós que fazemos teatro não nos preocupamos, efetivamente, com o público, a gente faz o teatro mais para a gente, alguns espetáculos, né? E, ao fazer o espetáculo para a gente, esquecemos de quem compra o ingresso, de quem prestigia, de quem vai ver, de quem quer curtir a arte. Não existe o interesse naquilo que nós estamos fazendo, então, acho que esse é um ponto. Nós temos que cuidar mais do que estamos oferecendo para o público.

E que você acha da nova geração com o teatro? Você acha que antigamente tinha mais interesse ou menos? 
A nova geração, vou falar agora dos atores mais jovens, dos espetáculos mais jovens, está muito mais envolvida em causas que mexem com a sociedade. Isso é muito importante, é um fator que eu acho que é saudável para a nossa arte. A arte está olhando o mundo, enxergando as pessoas, enxergando os seres humanos, enxergando a diversidade e colocando isso no trabalho. Isso, para mim, é muito importante. A minha geração, as pessoas mais velhas, a gente não tem esse compromisso, digamos, com essas questões mais sociais no sentido de pertencimento, de causas mais ligadas à diversidade. A gente acaba ficando um pouco alheio a isso, mas não porque nós não queremos ter esse olhar, é que, às vezes, nós não sabemos como lidar com essas pautas, sabe? Então, acho que falta isso. E isso eu consegui, de certa forma, corrigir no meu trabalho, porque eu me cerquei dessa moçada nova que está começando, que tem esse olhar. Isso está sendo muito legal para mim. Hoje, qualquer espetáculo que eu faço, eu prefiro e preciso colocar esse tipo de questionamento. Acho que esse é um momento importante que a gente está vivendo.

E você acha que as redes sociais afastaram o público do teatro?
Não, é claro que as pessoas se acomodam e ficam em casa olhando a tela do celular, mas eu acho que chega uma hora que as pessoas querem o contato com o público, com os atores, com a história, com a arte. A questão maior pra mim, com relação à rede social, é o imediatismo, o que o teatro não propõe. O teatro propõe a reflexão, então talvez daqui pra frente, a gente tenha que tomar mais cuidado.

E você acha que falta o Brasil dar mais valor o teatro produzido aqui em Curitiba?
Sim, com certeza. Mas eu não culpo o Brasil, eu culpo a imprensa. É o que eu falei: a imprensa não repercute o que a gente faz. É só um ou outro teatro feito em Curitiba que ganha uma repercussão nacional, não porque foi feito aqui, e sim que foi pro Rio ou foi pra São Paulo e acabou tendo uma visibilidade. E, modéstia à parte, todos os nossos espetáculos que vão para Rio e São Paulo, eles se transformam em espetáculos de uma repercussão grande. Então, acho que caberia tão pouco a imprensa de São Paulo e Rio, dar um pulinho aqui pra ver o que é feito em Curitiba, acho que vale a pena.

Atualmente você é diretor da Ação Cultural da Fundação Cultural de Curitiba. Com é estar nesse cargo público?
Eu estou nessa gestão do prefeito Eduardo Pimentel e sou responsável por todas as linguagens de cultura e arte da cidade, como: literatura, arte visuais, teatro, música, enfim, todas as linguagens. Eu sou responsável pelos espaços culturais da cidade, como o Teatro Paiol, o Teatro Novelas Curitibanas, TUC, Memorial de Curitiba, Teatro Antônio Carlos Kraide, enfim são essas atividades. Além dos eventos né? Como o Festival da Palavra, como o Natal de Curitiba, como o Carnaval, e as outras atrações que a cidade tem.

Como foi ter a Lala Schneider como sua mestra e como é que é conduzir o teatro com esse nome?
Minhas duas primeiras professoras de teatro foram nomees fundamentais. Uma se chama Ivone Hoffmann, que é um dos maiores nomes do teatro brasileiro, e a outra é a Lala Schneider, uma das maiores atrizes que tivemos. E por que eu quis ter um teatro? Os teatros em Curitiba se resumiam – estou falando de espaço cênico – ao Teatro Guaíra, Teatro Paiol e o teatro de bolso nessa época, isso eu tô falando 1980 até os anos 1990, só tinham esses teatros em Curitiba, e eu ficava meio indignado. A gente ensaiva três meses para apresentar duas semanas, três semanas, um mês. E eu falava: “Não, Curitiba merece ter um teatro que as peças fiquem em cartaz, como no Rio, como em São Paulo, um ano ou dois anos”. E aí, aluguei o barracão onde funciona o Teatro Lala Schneider. Claro que isso faz 34 anos, e que eu aluguei esse espaço 33 anos, e ele é alugado até hoje. Continuo trabalhando pra pagar o aluguel, e quando eu fui dar o nome do teatro, eu pensei bastante em vários nomes, mas Lala Schneider tem um significado muito grande pra cultura da cidade. Hoje em dia, se fala muito em empoderamento feminino, e a Lala, naquela época que ela começou a fazer teatro, nos anos 1950, ela quebrou paradigmas. Ela peitou a sociedade, ela fez-se atriz e foi muito importante pro movimento feminino na cidade. Eu fiz isso não dessa forma tão consistente, hoje eu tô mais consciente, porque hoje a gente discute esse tipo de pauta. Mas, naquela época, lá nos anos 1980, quando comecei a fazer teatro, depois quando eu inaugurei o Lala, foi 1994, essa discussão não estava tão evidente. E quando eu escolhi a Lala, eu escolhi porque ela era uma pessoa muito importante pra cultura da cidade e por ser mulher. E eu acho que eu acertei, porque ela passou a ter uma importância e a figura da atriz curitibana passou a ser mais respeitada. 

Como você enxerga o futuro dos teatros em Curitiba?
A gente depende muito das leis ao incentivo à cultura, mas a reforma tributária que está se vislumbrando talvez acabe com o ISS, o IPTU, ICMS. Ainda cabe um estudo maior sobre isso, a minha preocupação é que se mude o formato das leis que nós temos hoje, e que as leis passem a ter menor capacidade de apoiar os projetos culturais. Então essa é uma preocupação que eu tenho com relação ao futuro. Mas com relação ao teatro, o teatro já passou por tanta coisa, por tanta dificuldade, e o teatro sempre sobrevive, e os teatros estão sempre por aí. Eu não tenho medo disso, eu não tenho medo da falta de público, porque o público nunca vai abandonar o teatro, a minha preocupação realmente é com a parte estrutural, de caráter político, do caráter antidemocrático, do caráter de perseguição, e assim por diante, isso é uma coisa que me assusta um pouco. 

*Estudante de Jornalismo da Universidade Positivo sob supervisão de Miguel Arcanjo em parceria com a professora Katia Brembatti.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viaja a convite do Festival de Curitiba.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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