Aluna acusa professor na peça Oleanna, que estreia no Teatro Vivo com Velson D’Souza e Julianna Gerais

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Clássico do Teatro contemporâneo, a peça “Oleanna”, do estadunidense David Mamet, estreia em 10 de abril, no Teatro Vivo, em São Paulo, protagonizada pelos atores Velson D’ Souza e Julianna Gerais, sob direção de Daniela Stirbulov. A temporada vai até 7 de junho, sexta e sábado, 20h, domingo, 18h.
“Oleanna” traz o confronto entre John, um professor universitário no processo de obtenção de uma promoção, e Carol, uma de suas alunas com dificuldades no curso.
A primeira montagem no Brasil do texto foi há 30 anos, em 1996, protagonizada pelos atores Antônio Fagundes e Mara Carvalho, que na época eram casados.
Acusação inesperada
Inicialmente, Carol procura John no seu escritório para pedir ajuda com o seu entendimento do material do curso. A dinâmica muda drasticamente quando Carol apresenta uma queixa formal contra John ao comitê de avaliação da universidade, acusando-o de sexismo, elitismo, comportamento inadequado e assédio sexual, com base nas suas conversas particulares e atitudes.
Confrontado com a potencial perda da sua carreira, John tenta desesperadamente entender as acusações e convencer Carol a retirar a queixa, expondo a fragilidade da comunicação, as complexas relações de poder entre professor e aluno e as interpretações radicalmente divergentes dos mesmos eventos.

Público se envolve
A peça envolve o público na cena, levantando questões difíceis sobre o que constitui assédio ou abuso de poder. Enquanto as discussões sobre agressão sexual e assédio frequentemente giravam em torno de acusações de que um lado estava mentindo ou exagerando, em “Oleanna”, o público tem acesso a todas as interações privadas entre o acusador e o acusado. Assim, o público pode tirar suas próprias conclusões, tendo em vista que todos os fatos são apresentados a ele sem cortes.
A obra destaca também um debate contínuo sobre as normas do “politicamente correto”. Exatamente o que acontece atualmente na nossa sociedade: aqueles que se opõem ao “politicamente correto” veem essas normas como punitivas e arbitrárias, enquanto defensores do “politicamente correto” as consideram diretrizes úteis para evitar que qualquer grupo de pessoas se sinta indesejado ou desconfortável. A versão do “politicamente correto” de Carol está relacionada à igualdade de mulheres e pessoas economicamente desfavorecidas no contexto da universidade.
Tensões no palco
“Oleanna” parte da premissa de que as grandes tensões contemporâneas — poder, comunicação, cancelamento, abuso e interpretações subjetivas da verdade — se manifestam não apenas nos discursos públicos, mas, principalmente, nos encontros privados. A montagem propõe um dispositivo frontal e tensionado: duas plateias dispostas em corredores opostos, frente a frente, tendo o espaço da ação no centro. O público não observa apenas, ele é observado. Cada espectador se torna também paisagem do olhar do outro.
A configuração espacial radicaliza a pergunta central da dramaturgia de David Mamet: quantos lados pode ter uma mesma verdade? Ao acompanhar o embate entre professor e aluna dentro de uma universidade, a plateia é deslocada da posição confortável de observadora para a de júri silencioso.
Inserido no campo de tensão entre as duas personagens, o público testemunha a escalada do conflito quase como prova material, sendo constantemente provocado a revisar suas próprias percepções, certezas e julgamentos. Ao ver e ser visto, o espectador é convocado a reconhecer a fragilidade das narrativas e o peso das interpretações.
Dois lados
Nesta encenação, o espaço alternativo não é apenas cenário: é argumento. A arquitetura da sala se torna metáfora viva da polarização: dois lados que se encaram, dois discursos que disputam legitimidade, duas verdades que reivindicam razão.
“Oleanna”, de David Mamet, questiona quantos lados pode ter uma mesma verdade. Em uma encenação imersiva para 50 pessoas, duas plateias frente a frente transformam o público em um júri silencioso, posicionado no centro da tensão. A arquitetura da sala torna-se metáfora da polarização, onde cada espectador também é observado pelo outro.
“Radicalizamos a discussão sobre a fragilidade da comunicação e as relações de poder dentro de um sistema educacional. Uma experiência cênica visceral que confronta certezas e desloca perspectivas”, conta a diretora Daniela Stirbulov.
Ficha Técnica:
Texto: David Mamet
Tradução: Velson d’Souza
Direção: Daniela Stirbulov
Elenco: Velson D’Souza e Julianna Gerais
Assistente de direção: Enzo Malaquias
Direção de produção: Fabio Camara
Cenografia: Carmem Guerra
Adereços: Rebeca Oliveira
Figurino: Allan Ferc
Iluminação: Fran Barros
Assessoria de imprensa: Fabio Camara
Design gráfico: Enzo Malaquias
Mídias sociais: Carolina Romano
Fotos: Caio Gallucci
Produção: Braza Produções e Lugibi Produções
Realização: Braza Produções e Espaço Co.Lab
Idealização: Velson D’ Souza
SERVIÇO:
LOCAL: Teatro Vivo (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Vila Cordeiro). 40 lugares
DATA: 10/04 até 07/06 (Sexta e sábado 20h e domingo 18h).
INFORMAÇÕES: 11 3430 1524
VENDAS PELA INTERNET: https://bileto.sympla.com.br/event/117441
INGRESSOS: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia).
DURAÇÃO: 70 min
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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