Semana Criativa de Tiradentes chega à 10ª edição de 15 a 18 de outubro com foco na cultura brasileira

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Na charmosa cidade histórica mineira de Tiradentes, a pedra-sabão, a madeira entalhada e o som cadenciado dos martelos nos ateliês mantêm uma conversa contínua com a paisagem do século XVIII. Entre 15 e 18 de outubro de 2026, tudo isso fica mais forte, pois é quando a cidade mineira recebe a décima edição da Semana Criativa de Tiradentes, projeto idealizado pela jornalista Simone Quintas e pelo produtor cultural Júnior Guimarães. O evento transforma o território em campo de reflexão e produção sobre o fazer manual brasileiro.
Concebida originalmente em torno do design, a iniciativa expandiu suas margens ao longo da última década. De acordo com Simone Quintas, o evento ampliou seus laços com a cultura e hoje opera como um festival onde diferentes áreas do conhecimento se encontram. Embora o design permaneça como pilar central, a proposta atual abrange a cultura brasileira em suas diversas manifestações, incorporando música, arte, arquitetura, artesanato, moda, gastronomia e abordagens territoriais.

“Hoje, entendemos a Semana Criativa de Tiradentes como um festival de criatividade e cultura em que essas diferentes áreas se encontram e se contagiam positivamente. O design continua sendo uma linguagem fundamental, mas o festival hoje fala de cultura brasileira por meio da música, da arte, da arquitetura, do artesanato, da moda, da culinária, dos territórios e diferentes formas de criação”.
Simone Quintas e Júnior Guimarães
organizadores da Semana Criativa de Tiradentes
A escolha do centro histórico como suporte para as discussões recusa a lógica de confinamento dos eventos corporativos tradicionais. Júnior Guimarães destaca que a geografia e a história de Tiradentes constituem a própria identidade do projeto. Ao ocupar o casario e as vias públicas, a iniciativa propõe um fluxo contínuo entre os participantes, os moradores e a memória da cidade, algo impossível de replicar na estrutura impessoal de um centro de convenções.
A edição de 2026 estrutura suas atividades em torno de eixos como patrimônio, ancestralidade e sustentabilidade, prestando homenagem ao artista local Vinicius Rosa Rios, cuja produção dialoga com o barroco mineiro e a arte sacra. O tema dos ex-votos será objeto de debate em mesa com a participação de Angela Gutierrez, fundadora do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, e de Leônidas Oliveira, secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. No âmbito das artes visuais, o artista multimídia tiradentino Thiago Rocha Pitta apresenta a instalação Ovo de Mina.
A ocupação do Sobrado Ramalho, edificação colonial sob tutela do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), fica a cargo do coletivo A Casa D’Preto. O espaço recebe a exposição Orí-gem, com trabalhos dos artistas locais Bruno Henrique de Souza, Mestre Prego e Elizabeth Ramos, além de sediar o I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, com curadoria de Pedro Rubens e Heloisa Nascimento. A trajetória de Dih Morais, primeiro estilista quilombola a apresentar coleções no continente africano, também integra o painel de discussões, abordando a relação entre pertencimento e criação.

Práticas de resistência cultural e linguagem têxtil ocupam espaço central na programação. A jornalista Lia Lombardi apresenta minidocumentário sobre os bordados executados pelo marinheiro João Cândido durante seu confinamento após a Revolta da Chibata. A relação entre criação manual e ecologia aparece na conversa entre os integrantes da Família Dumont e o ator Luis Melo, criador do espaço Campo das Artes, bem como na apresentação da curadora Lilian Pacce sobre a exposição Caatinga Stitching Resilience, exibida anteriormente em Londres.
A dimensão prática do evento manifesta-se no aprendizado de técnicas artesanais. Expedito Jonas de Jesus conduz atividades de entalhe em pedra-sabão, enquanto Rondinelly Santos orienta a prática em madeira e Marlon Carvalho aborda a pintura da escultura Pássaro Barroco. A joalheira Marisa Portella ministra técnicas para confecção de adornos em metal, Tissa Martins orienta a tecelagem de minibancos e Manu Ebert introduz a técnica japonesa das Temari Balls. O painel de debates inclui ainda temas sobre desenvolvimento territorial e identidades locais, como Parintins Criativo, Made in com gingado e Cidades que criam, cidades que transformam.

As manifestações folclóricas e os rituais coletivos ocupam o espaço público ao longo do período. O grupo alagoano Cortejo do Bobo Gaiato, vindo de Porto das Pedras, realiza apresentação pelas ruas da cidade, juntando-se ao tradicional Cortejo do Congado de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia. Mestre Prego, capitão do Congado, também conduz a oficina Toque de Tambor, voltada ao ensino dos ritmos percussivos da tradição afro-brasileira. O encerramento do evento é marcado pelo Agulhaço, encontro coletivo de bordado dirigido pela artesã gaúcha Lu Gastal.
A divulgação completa de horários, locais e procedimentos de inscrição ocorre no dia 5 de outubro de 2026, por meio do site oficial do evento, com atualizações prévias veiculadas na página do projeto na rede Instagram (@semanacriativadetiradentes).
Curadoria
A trajetória da Semana Criativa é marcada por um movimento constante de abertura e renovação. A curadoria, que nasceu com forte conexão entre design e artesanato, foi incorporando outras linguagens até se tornar o que é hoje: um espaço de encontro entre diferentes expressões da criatividade brasileira. Em 2025, o festival promoveu mais de 200 atividades com 36 designers, cerca de 300 artesãos representados direta e indiretamente, e mais de 80 mil atendimentos ao público. Ainda em construção e com divulgação no dia 5 de outubro, a evolução da programação da 10ª edição pode
ser conferida no perfil do Instagram @semanacriativadetiradentes e já reúne nomes como o artista visual Thiago Rocha Pitta, o chef confeiteiro Lucas Corazza, a future thinker Andrea Bisker, a arquiteta Lígia Agostini, o artista do bambu Marcelo Maia, a pesquisadora em moda e biomateriais Tainah Fagundes, a urbanista social Ester Carro, o designer quilombola Dih Morais, a cientista de dados Zaika dos Santos, além de bate-papos com a Família Dumont, o ator Luis Melo e o homenageado da edição, o artista tiradentino Vinicius Rosa Rios.
A realização de um festival dessa magnitude em uma cidade histórica como Tiradentes, segundo os organizadores, é também uma decisão de conteúdo em que o diálogo entre patrimônio, saberes tradicionais e produção contemporânea é um dos pilares do evento.
“Tiradentes não é apenas o cenário onde o festival acontece. A cidade faz parte da identidade da Semana Criativa. Realizar um evento dessa dimensão é também reafirmar o convite para que o público vivencie a programação enquanto circula pela cidade e se relaciona com sua história e com seus moradores – isso é algo que não se replica, por exemplo, em um centro de convenções”, afirma Júnior Guimarães.
Impacto na economia criativa
O crescimento do público é um dos indicadores mais evidentes da relevância do festival. Em 2024, foram 14 mil visitantes; em 2025, o número saltou para aproximadamente 22 mil pessoas ao longo dos quatro dias – 57% a mais e cerca de três vezes a população da cidade. Quase metade desse público, 46%, vem de Minas Gerais, 23% de São Paulo, 13% do Rio de Janeiro e 18% de outros estados – o que gera uma demanda direta por hospedagem, alimentação, transporte e comércio. Do público total presente na mais recente edição, 36% foi formado por arquitetos,
designers e paisagistas.
O Mercado da Semana Criativa, que neste ano ganha novo endereço na Villa da Matriz, reúne marcas, artesãos e pequenos produtores de diferentes regiões do Brasil, consolidando-se como uma importante frente de comercialização e visibilidade para a produção autoral. Um dos desafios, reconhece Guimarães, é fazer com que essa movimentação econômica se distribua cada vez mais pela cidade – e a própria estrutura descentralizada do festival, ocupando diferentes casas, já contribui para esse objetivo: “O fato do festival não se concentrar em um único espaço, mas em diversas ruas e casas de Tiradentes, já faz as pessoas caminharem pela cidade, favorecendo essa
movimentação no comércio local como um todo”, pondera.
A sustentabilidade financeira do festival também é um capítulo à parte. Foram dez anos construindo credibilidade, público, conteúdo e relações de longo prazo com parceiros que forjaram a solidez da trajetória da Semana Criativa de Tiradentes.
“Os patrocinadores passaram a compreender que estar presente no festival não se trata apenas de exposição de marca, mas de participar de um projeto que tem identidade muito definida e uma relação real com a cidade, com o artesanato e com a cultura brasileira. Não vendemos espaço na Semana Criativa justamente porque queremos ter controle do que está sendo exibido e discutido. É indispensável que estejam todos alinhados com a nossa razão de existir”, defende Simone.

Novas vozes
Novas vozes, novos territórios e o legado para a comunidade A ampliação do festival para novos públicos é um dos marcos dessa década. Novos Projetos como A Casa D’Preto e da Casa Rio traduzem esse movimento de abertura
para outras vozes, outros repertórios e novas experiências.
Sob a curadoria dos arquitetos e urbanistas Pedro Rubens e Heloisa Nascimento, A Casa D’Preto ocupa o Casarão Ramalho, sede do IPHAM, e nasce como uma resposta urgente para valorizar saberes, artes e tecnologias ancestrais historicamente silenciadas. Guiada pelo símbolo Adinkra Eban, que representa amor, segurança, abrigo e proteção, a programação inclui a exposição Orí-gem, com artistas locais como Bruno Henrique de Souza, Hudson Silveira, Selma Maria e Elizabeth Ramos; o I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, reunindo coordenadores de 16 estados brasileiros e Lisboa; o lançamento da Plataforma Arquitetura D’Preto, que conecta clientes a profissionais negros da construção civil; e a exibição do documentário A Casa D’Preto, com direção de Daniel Pereira e Tainara Matos.
“A diversidade de ações programadas para a estreia da Casa D’Preto ajuda a ampliar o olhar sobre o Brasil e mostra que a criatividade brasileira não pode ser compreendida a partir de uma única região, estética ou linguagem. Essa pluralidade é fundamental para aquilo que queremos que a Semana seja: um espaço de encontro entre diferentes expressões da cultura brasileira”, destaca Guimarães.
Estreando na Semana Criativa de Tiradentes, a Casa Rio funciona como um espaço- conceito e uma ativação cultural criada por Didi Maakaröun (Conceito MAADI) e Vivi Baldeija (Capivara do Vale). O projeto desenvolve ações integradas de curadoria estética e narrativa contemporânea, reunindo design autoral, arte, artesanato e vivências sensoriais. O objetivo é criar conexões comerciais e afetivas com o público, traduzindo de forma sensível a essência cultural fluminense dentro do festival mineiro.
Além dos quatro dias de evento, a Escola da Semana Criativa de Tiradentes e as imersões realizadas ao longo do ano vêm fortalecendo a economia criativa local, conectando designers, arquitetos e artesãos da região em um processo contínuo de troca de conhecimento, valorização de técnicas e geração de renda.
“Uma das transformações mais importantes desses dez anos foi entender que a Semana Criativa não poderia existir apenas durante quatro dias por ano. A Escola da Semana nasce justamente dessa vontade de criar uma atuação permanente, ligada à transmissão de saberes e fazeres e à formação. Em paralelo às próximas edições, queremos aprofundar cada vez mais essa presença ao longo do ano e fortalecer a relação com a comunidade local. O festival cresceu muito, mas nosso maior desafio agora é fazer com que esse crescimento deixe um legado cada vez mais consistente para Tiradentes e para a região”, conclui Simone Quintas.
Destaques
CASA CRIATIVA
A Casa Criativa funciona como o QG e o coração das experiências da Semana Criativa de Tiradentes. Instalado em um casarão histórico, o espaço abriga mostras e exposições que revelam o resultado das criações conjuntas entre designers e artesãos brasileiros. Além de servir como polo comercial de design autoral, promove o intercâmbio de saberes por meio de palestras, rodas de conversa sobre sustentabilidade e oficinas afetivas de bordado, como o tradicional Agulhaço.
CASA PARÁ
Já consolidada na Semana Criativa, a Casa Pará é um espaço imersivo que conecta a cultura e o design da Amazônia com o festival mineiro. Idealizada pela plataforma A Casa Como Ela É e pelo escritório Guá Arquitetura, a embaixada cultural reúne artesãos e designers nortistas. A programação destaca coleções de design colaborativo feitas com miriti, exposições de artes manuais ancestrais, intervenções artísticas embaladas por tecnobrega e experiências gastronômicas exclusivas.
CASA MATA ATLÂNTICA
Cultura, artesanato, literatura e gastronomia que têm em comum a relação com o bioma ganham destaque na Casa Mata Atlântica, programação que reúne pequenos produtores, criadores e projetos ligados à gastronomia e ao artesanato. São diferentes maneiras de produzir a partir da terra, valorizando saberes locais, matérias-primas, pessoas e práticas comprometidas com a sustentabilidade – uma imersão nos fazeres que nascem da floresta e se transformam em identidade, memória e futuro.
CASA ARADO
A Casa Arado é a embaixada do Estúdio Arado, responsável pela identidade visual da Semana Criativa, que teve como inspiração ferramentas como extensão das mãos. O espaço funciona como um memorial imersivo dedicado a pesquisar, resgatar e difundir a cultura e o imaginário rural caipira brasileiro. Instalado em um casarão histórico, o espaço opera como galeria de arte gráfica vintage e loja conceitual, comercializando cartazes, papelaria fina, gravuras e itens selecionados de mercearia artesanal.
CASA DO DESIGN CEARENSE
A Casa do Design Cearense na Semana Criativa de Tiradentes é a vitrine de um coletivo que une criadores como Érico Gondim e Leo Ferreiro para projetar o design contemporâneo aliado ao artesanato ancestral do Ceará. Com apoio da ADECE (Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará) e da plataforma e hub criativo Nordestesse, o espaço promove imersões e mostras de mobiliário que fundem saberes em palha e argila à rica iconografia cultural e folclórica do estado.
SERVIÇO
10ª Semana Criativa de Tiradentes
Data: 15 a 18 de outubro de 2026
Local: Tiradentes (MG) – programação distribuída por diversos pontos da cidade
Ingressos: gratuitos (reservas para palestras no site oficial)
Para a programação completa, informações e inscrições acesse, a partir de 5 de
outubro: semanacriativadetiradentes.com.br
Tinta oficial: Coral
Patrocínio máster: Electrolux
Patrocínio: Sebrae e Casa Riachuelo
Copatrocínio: Eliane e Decortiles
Apoio: Atlas Revestimentos, CAU-MG, Germer Porcelanas e Lider
Parceria cultural: Belotur, Prefeitura de Belo Horizonte, Metropolitano, Villa da Matriz e
UNESCO
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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