Claudya comemora 60 anos de carreira com novo álbum Deixa Eu Dizer – Ao Vivo

Claudya completa 60 anos de carreira © Dani Gurgel Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Há vozes que pertencem a uma época. E há vozes que atravessam épocas. Claudya faz parte do segundo grupo. Aos 60 anos de carreira, a cantora celebra sua trajetória com o lançamento de um novo álbum ao vivo, Deixa Eu Dizer – Ao Vivo, que foi gravado na Casa Natura Musical, em março deste ano, e que chegou a todas as plataformas digitais pela gravadora Kuarup em setembro de 2026. 

O registro reúne 12 faixas — algumas apresentadas em medleys — e revisita diferentes momentos de uma carreira construída entre grandes compositores, diferentes gêneros da música brasileira e uma das interpretações vocais mais reconhecíveis de sua geração. O trabalho também promove três encontros especiais que simbolizam a força e a permanência da música brasileira: Alaíde Costa participa de “Dindi”, clássico de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira; Ayrton Montarroyos participa de “Panema Leblon”, de Sergio Fayne e Vitor Martins; e Patrícia Marx participa de “Com Mais de Trinta”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.

As participações acontecem exclusivamente no disco e ampliam o caráter afetivo do projeto, reunindo artistas de diferentes gerações em torno de uma intérprete que construiu sua história justamente a partir da capacidade de transformar encontros musicais em momentos de grande intensidade.

Seis décadas entre a memória e o presente

Aos 60 anos de carreira, Claudya poderia simplesmente olhar para trás. Mas escolhe fazer o contrário: revisita sua história para reafirmar sua presença no presente. O registro ao vivo funciona como uma espécie de fotografia artística dessa trajetória. Há espaço para clássicos, canções menos óbvias, composições próprias, repertório popular e momentos de forte experimentação interpretativa.

A abertura já anuncia essa diversidade. Claudya começa com “Deixa Eu Dizer”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, uma das canções mais associadas à sua trajetória, em um medley que inclui “Só Que Deram o Zero Pro Bedeu”, de Luis Wagner, “Agora Quem Ri Sou Eu”, parceria de Claudya e Cristiê, e “Garra”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.

O repertório segue por diferentes paisagens da música brasileira, passando por “Menina Fulô”, de Luiz Wanderley, e “Ossain”, de Antonio Carlos e Jocafi. Em “Dindi”, a voz de Claudya encontra a de Alaíde Costa, uma das grandes intérpretes da música brasileira. O encontro é particularmente simbólico por aproximar duas artistas que ajudaram a construir uma tradição de interpretação sofisticada e profundamente ligada à canção.

“Claudya é uma cantora que admiro há muitos anos. Ela tem uma voz muito particular, uma força interpretativa enorme e uma trajetória que merece ser celebrada. Cantar ‘Dindi’ ao lado dela foi um encontro muito bonito, porque a música nos aproximou de uma maneira muito natural. Fiquei muito feliz de participar desse momento tão importante dos 60 anos de carreira dela.” — Alaíde Costa

A gravação prossegue com um medley formado por “Frente Fria”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, “Amigo”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, e “Minha Voz Virá do Sol da América”, também de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. Em seguida, Claudya recebe Ayrton Montarroyos em “Panema Leblon”. O encontro estabelece uma ponte entre diferentes gerações de grandes intérpretes e reforça a importância da voz como instrumento de interpretação e memória.

“Participar de um projeto que celebra 60 anos de carreira da Claudya é uma alegria e também uma responsabilidade. Ela é uma intérprete de muita personalidade, que construiu uma trajetória muito importante na música brasileira. Cantar ao lado dela é reconhecer uma história que continua viva e que ainda inspira quem está chegando.” — Ayrton Montarroyos

Outro encontro marcante acontece em “Com Mais de Trinta”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, com a participação de Patrícia Marx. A escolha da canção ganha uma dimensão especial dentro de um projeto que fala sobre passagem do tempo, permanência e reinvenção. A presença de Patrícia amplia essa conversa e coloca duas gerações de cantoras em diálogo dentro de uma mesma interpretação.

“A Claudya é uma referência de intérprete. Ela tem uma história muito bonita e uma maneira muito própria de colocar verdade em cada música. Participar dessa gravação, justamente na celebração dos 60 anos de carreira dela, foi uma experiência muito especial para mim. ‘Com Mais de Trinta’ também tem uma relação muito interessante com o tema do tempo, então achei o convite muito simbólico.” — Patrícia Marx

Um repertório que conta uma história

A segunda metade do disco reafirma a multiplicidade artística de Claudya. “Reza Tambor e Raça”, parceria da própria cantora com Tony Osanah, traz sua dimensão autoral e sua relação com a construção de repertório. Na sequência, ela revisita “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

O registro ao vivo chega então a “Mundo Maravilhoso”, de Juliano Telles, seguida de “Vai e Vem”, de Edson Silva e Sijavan Cunha. E, como uma espécie de retorno ao ponto de partida, “Deixa Eu Dizer” reaparece em sua versão integral antes do encerramento com “Pois É Seu Zé”, de Gonzaguinha. A escolha de terminar com Gonzaguinha reforça a característica essencial do projeto: um álbum que não pretende apenas reunir sucessos, mas construir uma narrativa sobre uma cantora e sua relação com a música brasileira.

“Eu quis que esse álbum tivesse a cara da minha trajetória. Não queria simplesmente registrar um show comemorativo. Queria contar uma história através das músicas, mostrar as diferentes fases, os diferentes sentimentos e tudo aquilo que a música representa para mim depois de 60 anos de carreira.” — Claudya

Para a cantora, a presença de Alaíde Costa, Patrícia Marx e Ayrton Montarroyos acrescenta ao álbum uma dimensão que vai além da participação especial. “Ter Alaíde, Patrícia e Ayrton comigo nesse álbum é um presente. São três artistas que admiro profundamente e que representam momentos e gerações diferentes da nossa música. Cada encontro tem uma história própria e, juntos, eles ajudam a mostrar que a música brasileira não tem idade. Ela passa de uma geração para outra.” — Claudya

Uma celebração da música brasileira

A escolha dos convidados também traduz uma das ideias centrais do projeto: a música brasileira como território de encontro entre gerações. Alaíde Costa, Patrícia Marx e Ayrton Montarroyos possuem trajetórias distintas, mas têm em comum uma característica fundamental: a valorização da interpretação. É justamente esse ponto que aproxima os três convidados de Claudya. Mais do que reunir nomes importantes, o disco cria encontros artísticos que dialogam com as próprias características das canções escolhidas. Em “Dindi”, a delicadeza e a sofisticação da canção de Tom Jobim encontram duas intérpretes de personalidade marcante. Em “Panema Leblon”, Claudya e Ayrton Montarroyos estabelecem um diálogo vocal entre gerações. Já em “Com Mais de Trinta”, a presença de Patrícia Marx acrescenta uma nova camada à canção de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. O resultado é um álbum que olha para a história sem ficar preso a ela.

12 faixas e muitos encontros

01. Deixa Eu Dizer — Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza / Só Que Deram o Zero Pro Bedeu — Luis Wagner / Agora Quem Ri Sou Eu — Claudya e Cristiê / Garra — Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle

02. Menina Fulô — Luiz Wanderley

03. Ossain — Antonio Carlos e Jocafi

04. Dindi — Tom Jobim e Aloysio de Oliveira

Participação especial: Alaíde Costa

05. Desacato – Antonio Carlos e Jocafi / Frente Fria — Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle / Amigo — Fred Falcão e Arnoldo Medeiros / Minha Voz Virá do Sol da América — Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle

06. Panema Leblon — Sergio Fayne e Vitor Martins

Participação especial: Ayrton Montarroyos

07. Com Mais de Trinta — Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle

Participação especial: Patrícia Marx

08. Reza Tambor e Raça — Claudya e Tony Osanah

09. Jesus Cristo — Roberto Carlos e Erasmo Carlos

10. Mundo Maravilhoso — Juliano Telles / Vai e Vem — Edson Silva e Sijavan Cunha

11. Deixa Eu Dizer — Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza

12. Pois É Seu Zé — Gonzaguinha

Ficha Técnica:

Direção musical, arranjos e piano: Alexandre Vianna

Produção Musical: Alexandre Vianna e Graziela Medori

Mixagem e Masterização: Alexandre Vianna

Backing Vocal: Graziela Medori e Izzy Mistura

Guitarra: Caetano Ribeiro 

Baixo: Richard Metairon

Bateria: Bruno Silva

Percussão: Vitor da Candelária

Saxofone: Rafael Clarim

Trompete e trombone: Reynaldo Izzepi

Participações Especiais: Alaíde Costa, Ayrton Montarroyos e Patricia Marx

Imprensa e MGMT: Paulo Henrique de Moura – PHM MGMT

Produção e Mkt Digital: Tiago Junior e Diego Assunção – Agência Erizo

Foto: Allison Sales

Capa: Diego Assunção

Gravadora: Kuarup

Lançamento do álbum ao vivo: 4 de setembro de 2026

Disponível em todas as plataformas digitais

Sobre Claudya

Nascida Maria das Graças Rallo, no subúrbio do Rio de Janeiro, Claudya mudou-se ainda criança com a família para Juiz de Fora, em Minas Gerais. Foi ali que começou a cantar em festas escolares e programas de auditório locais, chamando atenção desde cedo pelo talento e pela presença de palco. Aos 17 anos, em busca de oportunidades profissionais mais amplas, mudou-se novamente com a família, dessa vez para São Paulo, então um dos principais polos da música popular brasileira e sede de programas televisivos que funcionavam como verdadeiras vitrines para novos talentos.

Naquele momento, um dos espaços mais cobiçados era O Fino da Bossa, exibido pela TV Record. Foi o trompetista Waldir de Barros, músico da orquestra da emissora e figura que Claudya considera seu grande apoiador, quem sugeriu que a jovem cantora fizesse um teste para o programa. Aprovada, foi contratada e escalada para a segunda parte da atração, dividindo o palco com nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues e Baden Powell. Foi ali que Maria das Graças deixou de existir artisticamente: por sugestão da própria cantora — inspirada na ascendência italiana do pai —, adotou o nome Cláudia. “Eles queriam um nome marcante”, relembra. Décadas depois, nos anos 1990, a grafia seria alterada para Claudya, por sugestão da numerologia.

O início era promissor, mas aquele período também marcaria um dos episódios mais dolorosos de sua trajetória. Em 1965, impulsionada pelas aparições na televisão, gravou seu primeiro disco, um compacto. No ano seguinte, foi convidada pelo jornalista e produtor Ronaldo Bôscoli para uma temporada de shows no Rio de Janeiro. A proposta inicial — batizar o espetáculo de Quem Tem Medo de Elis Regina? — causou estranhamento imediato. Claudya nunca compreendeu a ideia e recusou o título, que acabou sendo substituído por Cláudia: Não Se Aprende na Escola. Ainda assim, a história se espalhou e a cantora tornou-se alvo do que hoje se chamaria de fake news: passou a ser vista como oportunista, alguém que desejava ocupar o espaço de Elis.

Segundo Claudya, nada foi feito para desfazer o mal-entendido. “A intenção deles era botar mais lenha na fogueira, porque O Fino da Bossa estava perdendo audiência para o programa Jovem Guarda, do Roberto Carlos. Queriam fomentar rivalidade, briga — e eu não queria nada disso. Eu queria cantar, trabalhar, ganhar meu dinheiro”. Ela lamenta nunca ter conseguido conversar sobre o assunto com Elis, falecida em 1982. “Eu precisava falar com ela, sentia essa necessidade, mas infelizmente não foi possível”.

Mesmo com a insistência da direção para que permanecesse no programa, Claudya deixou a Record e migrou para a TV Excelsior, onde passou a integrar o elenco do Ensaio Geral, ao lado de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ainda assim, o episódio afetou suas oportunidades no Brasil. Diante do cenário, decidiu ir para o Japão, onde permaneceu por seis meses realizando shows e gravando dois compactos e um LP. De volta ao país, encontrou nos festivais da canção um novo impulso: participou de disputas na TV Record e na TV Excelsior, além de festivais internacionais, defendendo obras de compositores como Marcos e Paulo Sérgio Valle, Baden Powell e Paulo César Pinheiro.

Apesar da visibilidade, Claudya nunca se sentiu confortável com rótulos. “Nunca gostei de ser marcada como cantora disso ou daquilo: romântica, de samba, de festival. Eu era crooner de orquestra, de grupos musicais em Juiz de Fora, estava acostumada a cantar de tudo”, afirma. Essa versatilidade marcou também sua passagem pela Odeon, no início dos anos 1970, quando lançou alguns de seus discos mais importantes. O disco Jesus Cristo (1971), impulsionado pela regravação da canção de Roberto e Erasmo Carlos, foi um grande sucesso, seguido por Você, Cláudia, Você e Deixa Eu Dizer. No auge da carreira, porém, outro revés: segundo a cantora, a chegada de Clara Nunes ao cast da gravadora fez com que as atenções se concentrassem exclusivamente na nova estrela. Àquela altura, Claudya já compunha — em um período, como ela própria observa, em que “não se confiava muito nas mulheres compositoras”.

Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória viria em 1983, quando foi escolhida para protagonizar o espetáculo Evita, sobre Eva Perón. Cantando, dançando e atuando ao lado de Mauro Mendonça e Carlos Augusto Strazzer, permaneceu nove meses em cartaz no Rio de Janeiro. “Titubeei muito para aceitar, porque não era atriz e sabia que seria comparada a Bibi Ferreira e Marília Pêra. A trilha sonora era dificílima”, recorda. O esforço foi recompensado com elogios da crítica, capas em jornais e revistas e indicação ao Prêmio Molière.

Décadas depois, em 2008, sua voz alcançaria uma nova geração de forma inesperada. O sample de Deixa Eu Dizer — gravada por Claudya em 1973, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza — foi utilizado por Marcelo D2 no rap Desabafo, do álbum A Arte do Barulho. A canção se espalhou pelas rádios, pistas e chegou à trilha sonora de Velozes e Furiosos 5: Operação Rio. Subitamente, jovens ouvintes passaram a buscar seus discos e sua história, abrindo um novo e significativo capítulo em sua carreira.

Hoje, aos 78 anos e celebrando 60 anos de trajetória, Claudya segue fiel ao que define como teimosia: cantar. Mãe da cantora Graziela Medori, ela mantinha, antes da pandemia, uma série de shows comemorativos dedicados à própria obra. Para o historiador e pesquisador Ricardo Santhiago, “Claudya é uma cantora extraordinária, com timbre, técnica e percepção musical absolutamente únicos”. Segundo ele, os percalços enfrentados ao longo da carreira se agravam em um mercado musical que mudou radicalmente desde os anos 1960. “Por isso, é importante historicizar sua trajetória sem vitimismo”, afirma.

Discografia

1967 – Cláudia

1971 – Cláudia

1971 – Jesus Cristo

1971 – Você, Cláudia, Você

1973 – Deixa Eu Dizer

1977 – Reza, Tambor e Raça

1979 – Pássaro Emigrante

1980 – Cláudia

1985 – Luz da Vida

1986 – Sentimentos

1992 – A Estranha Dama

1994 – Leão de Judá

1994 – Entre Amigos (com Zimbo Trio)

1998 – Claudya Canta Taiguara

1999 – Brasil Real

2005 – Horizons

2011 – Senhor do Tempo: Canções Raras de Caetano Veloso

2016 – Para Sempre Amanhecer – Duo com o pianista Tiago Mineiro

2026 – Deixa eu Dizer – Ao Vivo

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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