Thiago Soares recebe bailarina Sasha De Sola, dos EUA, em nova temporada de Carmem no Rio

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Um dos artistas brasileiros mais celebrados da dança internacional, Thiago Soares retorna aos palcos do Rio de Janeiro com “Carmem”, releitura do clássico de Georges Bizet criada para a Cia. de Dança Thiago Soares. De 16 a 19 de setembro, no Teatro Multiplan, no VillageMall, o bailarino, coreógrafo e diretor artístico apresenta uma montagem que aproxima a personagem do universo latino-americano e combina a técnica clássica à dança contemporânea, às linguagens urbanas e à teatralidade. Nas sessões de 17 e 19 de setembro, às 20h, o espetáculo contará com a participação especial de Sasha De Sola, primeira bailarina do San Francisco Ballet, em sua estreia no Brasil. Os ingressos estão à venda pela Sympla.
Conhecida por atravessar gerações como símbolo de desejo, sensualidade e insubmissão, Carmem ganha novos contornos nesta versão. Mais do que a mulher fatal perpetuada pelo imaginário em torno da obra, ela surge como uma mulher consciente de suas escolhas, que se recusa a estabelecer suas relações a partir da ideia de posse. É essa liberdade, e o preço cobrado por ela, que conduz a narrativa.
A relação entre Carmem e José concentra o principal conflito da montagem. O que começa pelo desejo e pela paixão se transforma com a chegada do ciúme, do controle e da tentativa de determinar a liberdade do outro. Ao deslocar o foco da história, Thiago propõe uma leitura atual sobre a diferença entre amar alguém e acreditar que esse amor concede o direito de posse.
“Carmem sempre me interessou pela força da personagem e, principalmente, pelo que ela representa: liberdade, desejo e a recusa em pertencer a alguém. É uma obra muito conhecida, mas justamente por isso me interessava encontrar uma maneira de contá-la a partir do meu olhar e do nosso tempo. Minha intenção nunca foi simplesmente remontar um clássico, mas utilizar essa história como ponto de partida para construir uma linguagem própria”, afirma.
A música de Bizet permanece como um dos pilares da criação, mas a montagem não pretende reproduzir uma Espanha tradicional nem transportar literalmente a ópera para a dança. A narrativa se aproxima da América Latina, ganha características brasileiras e passa pela experiência dos corpos que estão em cena. O vocabulário clássico convive com uma movimentação mais contemporânea, física e teatral, na qual os encontros, as tensões e os conflitos entre os personagens também constroem a dramaturgia.
Esse encontro entre a técnica clássica, as linguagens urbanas e a teatralidade acompanha Thiago desde o início de sua história com a dança. Nascido em São Gonçalo e criado no Rio de Janeiro, ele começou pela dança de rua e pelo hip-hop antes de chegar ao balé clássico, aos 15 anos, no Centro de Dança Rio. Dois anos depois, já integrava o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2001, conquistou a medalha de ouro no Concurso Internacional de Ballet de Moscou, resultado que projetou seu nome internacionalmente.
Em 2002, ingressou no The Royal Ballet, em Londres, e, quatro anos depois, alcançou o posto de Principal Dancer, posição máxima dentro de uma das companhias mais prestigiadas do mundo. Durante sua trajetória no grupo britânico, interpretou personagens centrais de obras como “Romeu e Julieta”, “O Lago dos Cisnes”, “Giselle”, “A Bela Adormecida”, “Manon”, “Mayerling” e “Onegin”, além de participar de processos criativos com alguns dos principais nomes da dança internacional. Em 2004, recebeu o prêmio de Outstanding Male Artist na categoria clássica do Critics’ Circle National Dance Awards, no Reino Unido.
A dimensão internacional da temporada se amplia com a participação especial de Sasha De Sola, primeira bailarina do San Francisco Ballet, que fará em “Carmem” suas primeiras apresentações no Brasil. Integrante da companhia norte-americana desde 2007, ela foi promovida a Principal Dancer em 2017 e, três anos depois, recebeu o título de Diane B. Wilsey Principal Dancer. Em seu repertório estão personagens centrais do balé clássico e contemporâneo, como Aurora, de “A Bela Adormecida”, e Kitri, de “Dom Quixote”, além de obras como “O Lago dos Cisnes”, “Giselle”, “Romeu e Julieta”, “O Quebra-Nozes” e “Onegin”. O encontro entre artistas com carreiras construídas em duas das mais prestigiadas companhias de dança do mundo poderá ser visto nas sessões de 17 e 19 de setembro, às 20h.
A rotina de Thiago ao longo desses anos consolidou não apenas sua técnica, mas sua compreensão sobre a construção de uma carreira. Ao retornar ao Brasil, o artista passou a direcionar essa experiência também para a criação coreográfica, a direção artística e a formação de outros bailarinos.
“Depois de tantos anos construindo minha carreira fora, comecei a sentir uma necessidade muito grande de devolver ao Brasil parte de tudo o que a dança me proporcionou. Voltar não significava encerrar minha trajetória internacional, mas iniciar um novo capítulo, no qual eu pudesse compartilhar experiência, criar e contribuir para o desenvolvimento de outros artistas”, explica.
A Cia. de Dança Thiago Soares nasceu, em 2025, desse novo momento. Com sede na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o grupo mantém uma rotina de aulas, preparação técnica, ensaios e criação de repertório, além de desenvolver um trabalho voltado à profissionalização de jovens talentos. A escolha dos bailarinos não se limita à execução: considera musicalidade, personalidade, presença cênica e disponibilidade para transitar entre diferentes qualidades de movimento. A técnica clássica sustenta o trabalho, mas dialoga com a dança contemporânea, as linguagens urbanas e a cultura brasileira na construção de uma identidade própria.
“Continuo sendo bailarino e continuo querendo estar no palco, mas hoje existe também uma responsabilidade e um desejo muito fortes de abrir caminhos, formar artistas e ajudar a construir novas possibilidades para a dança no Brasil”, diz Thiago.
Depois da temporada carioca de “Carmem”, a companhia pretende ampliar a circulação de seu repertório, estabelecer intercâmbios com outros artistas e instituições e fortalecer sua estrutura de trabalho no Rio de Janeiro. Entre os projetos em desenvolvimento está uma montagem de “O Quebra-Nozes”, produção que amplia a atuação do grupo e dá continuidade ao projeto de construir, no Brasil, uma companhia capaz de dialogar com a dança produzida no mundo sem abrir mão de sua identidade.
SERVIÇO:
“Carmem” | Cia. de Dança Thiago Soares
Temporada: de 16 a 19 de setembro de 2026
Horários: quarta, quinta, sexta e sábado, às 20h; sábado também às 16h
Sessões com participação especial de Sasha De Sola: 17 e 19 de setembro, às 20h
Local: Teatro Multiplan – VillageMall
Endereço: Avenida das Américas, 3.900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro/RJ
Ingressos: a partir de R$ 110
Vendas: Sympla
Duração: 80 minutos
Classificação etária: livre
Concepção, direção e coreografia: Thiago Soares
Convidada especial: Sasha De Sola
Sobre Sasha de Sola
Sasha De Sola é primeira bailarina do San Francisco Ballet, onde atualmente detém o título de Diane B. Wilsey Principal Dancer. Nascida em Winter Park, na Flórida, formou-se na Kirov Academy of Ballet, em Washington, D.C., com bolsa integral por mérito, estudando com Ludmila Morkovina, Anatoli Kucheruk, Alla Sizova e Vladimir Djouloukhadze. Em 2004, recebeu uma bolsa de estudos para aperfeiçoamento na Escola de Ballet da Ópera de Paris.
De Sola ingressou no San Francisco Ballet e avançou gradualmente na companhia até ser promovida a primeira bailarina para a temporada de 2017. Em 2020, passou a ostentar o título de Diane B. Wilsey Principal Dancer.
Ao longo de sua carreira, interpretou alguns dos principais papéis do repertório do balé clássico, entre eles Odette/Odile, em O Lago dos Cisnes; Aurora, em A Bela Adormecida; o papel-título de Giselle; Kitri, em Dom Quixote; e Manon, na versão de Sir Kenneth MacMillan. Entre outros destaques estão Tatiana, em Eugene Onegin, de Yuri Possokhov; Cinderela, em Cinderella, de Christopher Wheeldon; Raymonda, na releitura do clássico criada por Tamara Rojo; Titânia, em Sonho de uma Noite de Verão, de George Balanchine; Elizabeth Lavenza, em Frankenstein, de Liam Scarlett; Olga, em Onegin, de John Cranko; e a Princesa Henriette, em A Pequena Sereia, de John Neumeier.
De Sola também criou papéis de destaque em obras de Christopher Wheeldon, Helgi Tomasson, Bridget Breiner, Val Caniparoli, Liam Scarlett, Yuri Possokhov, Myles Thatcher, Trey McIntyre, Nicolas Blanc, Arielle Smith, Stanton Welch, Danielle Rowe e Dwight Rhoden.
Como artista convidada, apresentou-se com companhias e em galas ao redor do mundo. Entre suas premiações em competições estão a medalha de bronze na categoria juvenil do Youth America Grand Prix, em 2004; o prêmio de Melhor Dupla Juvenil no USA International Ballet Competition, realizado em Jackson, Mississippi, em 2006; e a medalha de bronze na categoria juvenil do Varna International Ballet Competition, também em 2006. Em 2020, foi indicada ao título de Bailarina do Ano pela revista Dance Europe e, em 2023, recebeu reconhecimento por sua excelência no balé clássico pela Petipa Heritage Foundation.
De Sola graduou-se summa cum laude pelo St. Mary’s College of California, com bacharelado em Artes Cênicas, e, em 2022, concluiu o programa Crossover into Business, da Harvard Business School. Foi escolhida como a primeira participante do programa Raising Leaders, do San Francisco Ballet, iniciativa de desenvolvimento profissional voltada a ampliar a formação dos bailarinos para além dos palcos, por meio de mentoria, acompanhamento profissional e oportunidades de observação de diferentes áreas de atuação. Como parte do programa, realizou, em maio de 2025, uma residência de pesquisa de três semanas na Europa, junto ao Dutch National Ballet e ao Royal Swedish Ballet.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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