A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário volta no Teatro Estúdio em São Paulo

A Igreja do Diabo volta no Teatro Estúdio © Pedro Veras – A Casa que Fala Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Depois de uma primeira temporada marcada pela repercussão entre público e crítica e por mais de dez indicações a importantes prêmios do teatro e do humor, “A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário” retorna aos palcos de São Paulo para uma curtíssima temporada em outubro, no Teatro Estúdio. Inspirada no conto homônimo de Machado de Assis, a montagem escrita, dirigida e musicada por Guilherme Gila revisita a provocação criada pelo autor no século XIX a partir de uma linguagem contemporânea, combinando humor, filosofia moral, música pop brasileira e coreografias de linguagem queer para colocar em cena as contradições entre virtude, vício, desejo e comportamento social.

Guilherme Gila e Edyelle Brandão, de A Igreja do Diabo © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2024

Realizado pela A Casa que Fala, o espetáculo original estreou em São Paulo em 2023 e construiu uma trajetória de reconhecimento que incluiu os prêmios de Melhor Musical Off no Prêmio Bibi Ferreira e Dramaturgia Original para Guilherme Gila no Prêmio Destaque Imprensa Digital, além de Melhor Musical Off e Atriz Revelação para Edyelle Brandão entre os Destaques do Ano de Miguel Arcanjo Prado. A montagem também chegou ao Prêmio PRIO de Humor com indicações para Edyelle, em Melhor Performance, e para a própria produção, reconhecida pela qualidade da concepção e realização do musical independente.

Machado de Assis encontra o teatro musical pop

Publicado originalmente no século XIX e posteriormente reunido no livro Histórias sem Data, de 1884, “A Igreja do Diabo” parte de uma premissa provocadora: cansado de exercer seu ofício sem organização, regras ou doutrina própria, o Diabo resolve fundar uma igreja. A partir da inversão entre virtudes e pecados, Machado de Assis constrói uma narrativa que expõe as contradições do comportamento humano e coloca em xeque a capacidade das pessoas de permanecerem inteiramente fiéis a qualquer sistema moral.

É dessa provocação machadiana que Guilherme Gila parte para transportar a discussão para o presente. Na versão musical, a Diaba decide criar sua própria religião e, pouco a pouco, conquista seguidores com uma doutrina na qual praticar maldades é incentivado e ser uma boa pessoa se torna o maior dos defeitos. Apresentados aos chamados “sete ditados capitais”, os novos fiéis abraçam as regras e começam a transformar o mundo em um lugar cada vez pior. Mas, como já propunha Machado em seu conto, a natureza humana logo se mostra mais contraditória do que qualquer doutrina é capaz de prever.

A filosofia moral atravessa a montagem sem abandonar o humor. “A Igreja do Diabo” explora as fronteiras entre aquilo que uma sociedade estabelece como moral ou imoral por meio de uma sonoridade inspirada no universo pop e de uma linguagem coreográfica queer. A escolha dialoga com expressões artísticas protagonizadas por mulheres, pessoas pretas e integrantes da comunidade LGBTQ+, grupos cujos comportamentos, corpos e manifestações artísticas foram, historicamente, submetidos a diferentes formas de julgamento moral.

Música, dança e comicidade tornam-se, assim, caminhos para aproximar a ironia e as provocações do texto machadiano do público contemporâneo. Sem reproduzir literalmente o universo do século XIX, a montagem encontra no teatro musical uma maneira própria de abordar temas como virtude, vício, hipocrisia e natureza humana, transformando questões filosóficas em uma comédia pop brasileira.

A nova temporada reúne Edyelle Brandão, Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira. Edyelle retorna ao papel da Diaba, personagem que lhe rendeu reconhecimento na primeira montagem, enquanto o elenco dá vida às diferentes figuras desse universo em que céu, inferno e humanidade se encontram para colocar à prova os limites da moral.

À frente da criação está Guilherme Gila, responsável pela direção geral, dramaturgia e músicas do espetáculo. O trabalho marca mais um encontro do artista com a obra de Machado de Assis no teatro musical: Gila também é o responsável pela direção musical, composições e letras de “Dom Casmurro”, outra premiada adaptação do clássico machadiano para os palcos. Em “A Igreja do Diabo”, a direção musical é de Samir Alves e as coreografias são assinadas por Gabriella Medeiros. A equipe criativa conta ainda com cenografia de Laís Damato, cenotécnica de Isis Patacho, desenho do vitral de Pietro Di Pompeii, desenho de luz de Fran Barros e figurinos de Graziela BastosRebeca Reis assina a produção executiva, Dan Maschio responde pela identidade visual e Anne Beatriz, pelas artes gráficas.

Com realização da A Casa que Fala, “A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário” reencontra o público apostando no diálogo entre um dos grandes nomes da literatura brasileira e uma linguagem cênica contemporânea. Mais de um século depois da publicação do conto, a provocação permanece atual: afinal, seria a humanidade capaz de seguir à risca uma religião em que a principal regra é ser mau?

SERVIÇO:

“A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário”

Temporada: segundas e terças-feiras, às 20h
Local: Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada para estudantes, professores e aposentados)
Duração: 80 minutos, sem intervalo
Classificação indicativa: 12 anos

FICHA TÉCNICA:

Elenco: Edyelle Brandão, Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira
Direção geral, dramaturgia e música: Guilherme Gila
Direção musical: Samir Alves
Coreografia: Gabriella Medeiros
Cenografia: Laís Damato
Cenotécnica: Isis Patacho
Desenho do vitral: Pietro Di Pompeii
Desenho de luz: Fran Barros
Figurino: Graziela Bastos
Produção executiva: Rebeca Reis
Assessoria de imprensa: GPress Comunicação
Identidade visual: Dan Maschio
Artes gráficas: Anne Beatriz
Realização: A Casa que Fala

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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