CineOP registra em livro 20 anos de luta pela memória do cinema brasileiro

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial a Ouro Preto a convite da Universo Produção
A memória do patrimônio audiovisual brasileiro ganhou um novo e fundamental capítulo. A 21ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Pretro lançou o livro comemorativo de seus 20 anos: “Memória Viva do Cinema Brasileiro: CineOP 20 Anos (2006-2026)”, editado pela Universo Produção, que realiza o projeto Cinema Sem Fronteiras em Minas Gerais, que reúne os festivais Mostra de Cinema de Tiradentes, CineOP e CineBH, além do encontro de negócios no audiovisual Brasil CineMundi, todos sob direção de Raquel Hallak.
Longe de ser apenas um registro institucional ou uma compilação de autoelogios, a publicação de 360 páginas se estabelece como uma obra de valor histórico e científico autônomo, expandindo as fronteiras do debate sobre a memória cinematográfica no país.

Idealizadora do evento e organizadora do livro ao lado de sua irmã e sócia Fernanda Hallak, a produtora cultural Raquel Hallak destaca que a efeméride representou o momento exato de consolidar uma herança duradoura. “Comemorar 20 anos da CineOP, 20 anos de Belo Horizonte, 30 anos de Tiradentes… Pensamos que a melhor forma de celebrar essas datas redondas é deixar expresso o legado que viemos construindo”, pontua Hallak.
Ela enfatiza o caráter essencialmente coletivo dessa trajetória, ressaltando o envolvimento vital de equipes, imprensa e público. “Tudo o que fazemos é uma construção coletiva”, afirma.
A gênese da CineOP, conforme relata sua coordenadora, está umbilicalmente ligada à própria cidade de Ouro Preto e a uma percepção latente de escassez na preservação nacional, que se repetia no mundo do audiovisual.
Hallak rememora que a ideia do festival surgiu a partir de uma experiência na terceira edição da Mostra de Tiradentes, quando uma pesquisa indicou três filmes premiados cujas cópias estavam desaparecidas ou em paradeiro desconhecido.
“Eu não tinha na minha cabeça uma concepção de que se fazia um filme no passado e que esse filme não pudesse ter acesso no presente”, reflete. Diante dessa constatação, nasceu o conceito de um evento voltado ao “cinema patrimônio”, defendendo que as obras cinematográficas merecem o devido tombamento e proteção.

O livro dedica sua primeira parte a essa intrínseca relação entre o festival, a cidade e os equipamentos culturais. Um dos grandes marcos dessa trajetória é a batalha de oito anos para a reforma do Cine Vila Rica, uma preciosidade do interior mineiro que permaneceu fechada por quase uma década.
“Foi uma construção de oito anos para chegarmos a um denominador comum”, explica Hallak, detalhando as dificuldades contratuais e políticas que atrasaram o projeto até que a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) finalmente recebesse os recursos necessários para a restauração física do espaço. A expectativa é que o Cine Vila Rica retorne não apenas como sala de exibição, mas como um centro de formação, alavancando o turismo e o cinema de experiência na região.

A coordenação editorial da obra ficou a cargo do crítico e curador Cleber Eduardo, colaborador contínuo da Universo Produção. Eduardo estruturou o volume de modo a evitar o aprisionamento institucional. “O desafio desses livros de celebração é que eles não se tornem livros institucionais sobre o evento, de uma espécie de auto-adulação”, adverte o curador. O objetivo principal foi garantir que os artigos possuíssem relevância científica intrínseca, operando como um testemunho historiográfico do momento contemporâneo da preservação do audiovisual no Brasil.
Com a contribuição de 31 autores distintos, a publicação verticaliza as discussões, dividindo-se em duas abordagens complementares. A primeira seção assume um tom técnico e político, no qual a educação e a formação profissional surgem como preocupações centrais que perpassam as reflexões dos especialistas, sempre com os olhos voltados para a construção do futuro da área.

Já a segunda metade do livro introduz o conceito de “preservação expandida”. Nessa seção, as fronteiras técnicas são ampliadas para dialogar diretamente com a história do cinema e com pesquisas acadêmicas. Cleber Eduardo detalha que essa abordagem permitiu incorporar estudos fundamentais sobre trajetórias negligenciadas, citando como exemplos as investigações sobre a “cinemateca da quebrada”, de Lincoln Péricles, e a proposição de uma “cinemateca negra”, formulada por Heitor Augusto. “Você vai para um terreno um pouco mais amplo, que tem a ver com a preservação, mas não necessariamente com o trabalho técnico da preservação”, esclarece o coordenador editorial.
Além das análises densas, o livro resgata trechos de entrevistas históricas concedidas por homenageados ao longo das edições da mostra e traz um minucioso trabalho de garimpo e catalogação do acervo fotográfico liderado por Fernanda Hallak, que documenta as personalidades e profissionais da imprensa que ajudaram a pavimentar as duas décadas do fórum.
Mais do que celebrar o passado, o livro dos 20 anos da CineOP projeta os caminhos vindouros da memória nacional. Como bem sintetiza Raquel Hallak, em uma declaração que define o espírito da obra e do próprio festival: “Preservar não é guardar o passado; é acessar o futuro”.
Veja a cobertura completa da CineOP por Miguel Arcanjo
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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