Michael Sullivan lança álbum Ivanilton: ‘Sou incansável de morrer e renascer’| Entrevista do Arcanjo

Ícone da música brasileira, Michael Sullivan lança Ivanilton, seu álbum autobiográfico © Divulgação Blog do Arcanjo 2023

Autor de hinos da música brasileira como Me Dê Motivo, Leva, Amor Perfeito e Estranha Loucura revê trajetória em álbum com 11 inéditas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

O cantor Michael Sullivan é um ícone da música brasileira. Afinal, é compositor de Me Dê Motivo, um dos grandes sucessos de Tim Maia, além de outros clássicos como Amor Perfeito, gravado por Roberto Carlos, Leva, por Tim Maia, Wisky a Go-Go, pelo Roupa Nova, Estranha Loucura, por Alcione, Joga Fora, por Sandra Sá, e canções que marcaram gerações de crianças como Piuí Abacaxi, do Trem da Alegria, e Lua de Cristal e Arco-Íris, de Xuxa. Agora, o grande artista busca renascer indo ao encontro de suas origens no álbum autobiográfico Ivanilton, primeiro disco de músicas inéditas do artista pernambucano desde Amar É Lindo, de 1995.

O título do álbum com 11 faixas reproduz o nome de batismo de Sullivan, nascido Ivanilton de Souza Lima, no Recife, Pernambuco, em 9 de março de 1950. Aos 73 anos, ele convocou Alice Caymmi para produzir com ele o álbum, que traz participações especiais de Alice Caymmi, Fagner, Ana Carolina, Filipe Catto, Almério, Julio Secchin e Roberta Campos.

Michael Sullivan se considera um sobrevivente, afinal, chegou a morar nas ruas quando foi tentar a vida artística no Rio de Janeiro. Como diz, nasceu “no planeta fome e sede”, complementando a frase da amiga Elza Soares. Como ela, lutou a vida inteira contra o preconceito de uma crítica arrogante e elitista para com sua obra monumental, que habita nos corações dos brasileiros há algumas gerações.

Sou uma pessoa muito corajosa, incansável de morrer e renascer.”

Michael Sullivan

O artista conversou sobre seu novo trabalho nesta exclusiva Entrevista do Arcanjo ao Blog do Arcanjo. Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Foi difícil ou fácil reencontrar o Ivanilton? Por quê?
Michael Sullivan – Foi um ato de coragem expor o protagonismo de Ivanilton.Eu nunca me acostumei com o sucesso, eu sempre trabalhei para ele, Ivanilton é um acordo de justiça com minha persona, que assume suas raízes. Eu entendi que a minha música é como o Nordeste, maior que qualquer preconceito. Ivanilton é um lutador, um guerreiro. Michael Sullivan é a uma força de trabalho.

Miguel Arcanjo Prado – Dizem que todo mundo que amadurece tende a voltar ao começo de tudo, mas enxergando tudo sob uma nova perspectiva. É isso que está acontecendo?
Michael Sullivan – O amadurecer me deu armas para enfrentar os gatilhos da minha realidade bem difícil, onde já se nasce numa contagem regressiva a desesperança. Meu amadurecer significa separar de forma mais nítida esse velho homem, e concertar de forma mais íntima em como servir à música.

Miguel Arcanjo Prado – Você se considera um sobrevivente? Por quê?
Michael Sullivan – Nasci num planeta próximo a Elza Soares, nasci no planeta fome e sede.
E vivi partindo, porque o homem que não soube sobreviver aos maus tempos, não vai ver os bons. Ao vir  para o Rio de Janeiro, morei na rua. A arte como resistência é fundamental.Mas a minha arte é sobre existência. Fazer o óbvio e ser bem sucedido, é para poucos, porque muitos resistem ao óbvio. Vejo que Eu sobrevivi, a música me usou.

Miguel Arcanjo Prado – Como você enxerga a nova geração da música brasileira? Alguém te chama mais a atenção? Quem e por quê?
Michael Sullivan – Eu sempre vejo a música brasileira com muita esperança, porque o filtro artístico que o brasileiro tem, o posiciona com notoriedade no mundo. Todos os dias nascem talentos, de fato somos a terra da arte. Nascem Almério, Alice Caymmi, Filipe Catto, Juliano Holanda, Roberta Campos, Júlio Sechin, Liniker, Luedji Luna.

Miguel Arcanjo Prado – Me Dê Motivo é um hino. Qual sua relação com essa canção?
Michael Sullivan – Agradeço desde já pela qualificação de hino! Ao compor Me Dê Motivo dei meu melhor para entregar a um grande amigo uma ideia de canção que ele me “pilhou” para fazer… Ele disse: ‘Ivanilton faz uma música pra mim, meio declamando, com um refrão poderoso…’ Tim Maia era esse amigo, e ele foi o meu mentor. Eu recém saído das ruas, ele foi quem me deu meu primeiro violão , me ensinou a tocar, me ensinou a ouvir sonoridades novas e meu impulsionou para compor. Então me juntei com Paulo Massadas para entregar o melhor que poderia para o meu grande amigo, que tanto fez por mim artisticamente, e assim fizemos Me Dê Motivo.

Miguel Arcanjo Prado – Você ajudou a construir um dos maiores fenômenos da cultura pop no Brasil, que foi a Xuxa cantora. Acha que falta a cena pop brasileira atual valorizar mais nomes como você?
Michael Sullivan – De fato a gratidão tem memória curta. Acho que falta essa sabedoria aos fomentadores do mainstream cultural, porque o povo preserva suas memórias como as mais afetivas.

Miguel Arcanjo Prado – Hoje os artistas da música estão correndo atrás dos algoritmos e fazendo música para a tecnologia. Mas música não precisaria ter humanidade pra tocar corações?
Michael Sullivan – Eu tenho ficado preocupado. Aprendi que, para fazer música, você precisava de ter os critérios musicais bem apurados, ser altamente capacitado em suas habilidades de cantar, de compor e de produzir. Ligávamos o rádio, colocávamos um som, e lá sempre esteve evidente as qualificações daqueles que eram bem sucedidos. Hoje a música tem sido feita por critérios de popularidade, e não por critérios musicais.

Miguel Arcanjo Prado – O que você pensa do excesso de autotune? O que acha que Tim Maia diria?
Michael Sullivan – Acho que o excesso de autotune impede de se ouvir a afinação apurada.
A música boa pra mim está entre a falta e o excesso de zelo. Tim Maia estaria hoje a cada segundo em lives no Instagram apontando quem não canta nada, exatamente como escrachava alguns amigos antes dele partir!

Miguel Arcanjo Prado – Por que escolheu a Alice Caymmi pra produzir esse disco?
Michael Sullivan – Minha releção  afetiva com Alice Caymmi é transgeracional. Sempre teremos laços musicais. Alice é uma artista plural, aberta, apreensiva pelo o que é certeiro e direto ao ponto. Nosso encontro é onde tudo flui, e não há nenhuma ideia perdida ou não concluída. Eu e Alice juntos somos capazes de criar qualquer gênero musical. E digo que esse encontro não foi para um projeto apenas, nos trouxemos nossa amizade, nossa  vida e experiências para um registro desse tempo musical nosso. E acho que a mulher tem uma visão sempre incrível de qualquer universo que ela se dedicar. E na música não há tanto protagonismo para mulher produtoras e compositoras. Foi incrível poder também trazer o olhar da Alice e seu protagonismo feminino.

Miguel Arcanjo Prado – Quando você olha para trás e vê a obra monumental que criou na música, o que você sente?
Michael Sullivan – Que sou uma pessoa muito corajosa, incansável de morrer e renascer.

Colaboraram Adriana de BarrosJoão Schelbauer

Ouça Ivanilton, de Michael Sullivan

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Jornalista cultural influente e respeitado no Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo Pod. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra o júri de Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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