Morre Wanderley Sanches, grande jornalista cultural do Brasil

Morre Wanderley Sanches: Brasil perde um de seus maiores jornalistas culturais – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Jamais vou me esquecer de estar no alto de um trio elétrico descendo a Rua da Consolação com o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e ver, no meio da multidão, Wanderley Sanches e Mário Viana acenando, felizes, para mim e Juan Manuel Tellategui, meu marido, com aquela cumplicidade que aquele casal sempre demonstrou em nossos encontros nesta vida tão fugaz.

Também não vou me esquecer de estarmos Juan e eu no Réveillon 2020, todos felizes e inocentes, celebrando a chegada daquele que seria o ano da pandemia, quando, em uma festa debruçada sobre a Baía de Todos os Santos, nos encontramos, coincidentemente, com Wanderley Sanches e Mário Viana, outra vez felizes da vida. Brindamos juntos o novo ano.

Essas lembranças não saíram da minha mente nesta terça, enquanto acompanhava, sem ter muito o que dizer e só sentir, o velório do grande nome do jornalismo cultural brasileiro chamado Wanderley Sanches.

Após brava luta por sua saúde nos últimos meses, ele morreu em São Paulo. Amigos e familiares se despediram no velório do Cemitério do Araçá, antes da cerimônia de cremação na Vila Alpina.

Formado pela Faculdade Cásper Líbero, o paulistano Wanderley Sanches conhecia como a própria palma da mão a cultura de sua cidade. Era uma verdadeira enciclopédia dos principais fatos artísticos das últimas décadas.

Afinal, editou por 20 anos o Roteiro da Semana da revista Veja São Paulo na Editora Abril, onde se aposentou em 2011, saindo por conta própria para curtir a vida, como na época registrou o Jornalistas & Cia.

Profissional impecável da imprensa, sempre zeloso pelo bom texto e apuração primorosa, ele contribuiu de forma inestimável na formação de novas gerações de repórteres e editores; e também deu apoio crucial à criação de um mercado artístico pulsante na cidade de São Paulo e, por consequência, em todo o Brasil.

Venerava os grandes nomes da música popular brasileira e as fotos de sua coleção de discos de vinil fizeram sucesso nas redes durante a quarentena, assim como suas camisetas sempre descoladas.

Defensor veemente da democracia, fez questão de ir votar nas últimas eleições, mesmo já doente. Afinal, precisava garantir o direito de outros como ele existirem e viverem sua vida de forma plena.

Wanderley Sanches deixa o marido, o escritor, dramaturgo e roteirista Mário Viana, com quem foi feliz até o fim.

Os dois formaram um dos mais belos e apaixonados casais da cultura brasileira, sendo exemplo e referência para casais homoafetivos que vieram depois.

Afinal, Wanderley e Mário foram corajosos para seu tempo e pioneiros ao legitimar socialmente o amor entre dois homens, bem antes de o casamento homoafetivo ser lei e em um tempo no qual muitos viviam no triste armário, mesmo no meio artístico e jornalístico.

Wanderley Sanches é um ícone e um pioneiro em todos os sentidos dessa coisa frágil chamada vida.

Por isso, ao me despedir dele no Araçá nesta tarde, só pensava dele todo feliz, com o sorriso no rosto, vindo me abraçar naquele Réveillon em Salvador. Celebrando estar vivo e feliz.

Porque no fundo a vida é isso, aproveitar com leveza os bons e efêmeros momentos que ela nos brinda. E isso Wanderley Sanches nos ensinou. Tanto que partiu desse plano aplaudido por todos que o amaram.

Wanderley Sanches na infância – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo
Wanderley Sanches na década de 1980 com seu famoso macacão – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo
Mário Viana e Wanderley Sanches com a amiga Sandra Favre em Paris nos anos 1980 – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo
Mário Viana e Wanderley Sanches: um dos mais belos e apaixonados casais da cultura brasileira – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo
Mário Viana e Wanderley Sanches em viagem romântica pela Itália – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo
Réveillon 2020 em Salvador: Juan Manuel Tellategui, Miguel Arcanjo Prado, Wanderley Sanches e Mário Viana – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo
Wanderley Sanches: Brasil perde um ícone do jornalismo cultural – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo

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O jornalista Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, criado em 2019. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e apresenta o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Eleito um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se por três vezes e recebeu a Medalha Mário de Andrade, maior honraria nas letras do Governo do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, Uma, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Melhores do Ano Guia da Folha, Prêmios ANCEC e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Prêmio Governo do Estado de São Paulo – Medalha Mário de Andrade.
Foto: Edson Lopes Jr.
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