Crítica | Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo liga chamas da destruição ao Brasil atual ★★★★

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo ★★★★

Em 2018, ano de maus presságios ao Brasil, o povo viu, estarrecido, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruído por impiedosas labaredas. As chamas tornaram-se, rapidamente, símbolo dos caminhos turvos que o país tomava.

O espetáculo Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo, com a prestigiada companhia carioca Barca dos Corações Partidos, faz um tratado sobre o triste episódio, criando correlações com o Brasil que temos hoje, quatro anos depois, por três atos.

A atriz Adassa Martins em cena de Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo: estreia aplaudida no Sesc Vila Mariana – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Luzia, a primeira brasileira, esqueleto de mais de 11 mil anos achado em 1975 na cidade mineira de Lagoa Santa e cujo fóssil sobreviveu milagrosamente às labaredas, é quem conduz a história.

A montagem celebra os dez anos da Barca, além dos 30 anos da Sarau Cultura Brasileira, importante produtora carioca conduzia por Andréa Alves, à frente do projeto idealizado por ela com patrocínio do Instituto Cultural Vale e correalização do Sesc São Paulo, também responsável por grandes sucessos dos palcos, como o premiadíssimo (e inesquecível) musical Elza, sobre a vida da saudosa cantora Elza Soares.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

E é justamente o premiado autor de Elza, Vinicius Calderoni, quem assina não só o texto quanto também a direção de Museu Nacional. Divididos em distintas fases, o musical aposta no teatro épico-narrativo, com atores falando diretamente à plateia, em detrimento do jogo de cena típico do teatro dramático.

Com um texto repleto de múltiplas e velozes informações, que exigem extenuante atenção do público para acompanhar tantos dados típicos de uma Wikipedia, a encenação tem seu trunfo no time de atores competentes, que buscam conferir fluidez e vida a um texto que em certos momentos se aproxima à crônica ou ao panfleto.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

A direção musical de Alfrego Del-Penho e Beto Lemos aposta em exuberante brasilidade, com destaque para os instrumentos percussivos que levantam boa parte do espetáculo, salvando o público da energia muitas vezes indigesta das cenas apresentadas, tal qual o incêndio que acompanhamos atônitos pela TV e redes sociais — ou o noticiário político atual.

As canções do espetáculo foram compostas por Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Vinicius Calderoni, Adrén Alves, Lucas dos Prazeres e Ricca Barros. Estão em cena os atores e músicos Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios e Ricca Barros, integrantes da Barca dos Corações Partidos, além dos sete artistas convidados: Adassa Martins, Aline Gonçalves, Ana Carbatti, Felipe Frazão, Lucas dos Prazeres, Luiza Loroza e Rosa Peixoto.

Todos repletos de percetível entrega. Adrén Alves, geralmente o ator de maior destaque da Barca, dessa vez foi misturado ao democrático coro. Quem está acostumado às peças do grupo, caso deste crítico, sente falta de maiores possibilidades dramatúrgicas que valorizem o talento deste artista de habilidade comprovada.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Calderoni aponta Museu Nacional como o encerramento de uma trilogia que inclui não só já citado espetáculo Elza como também Sísifo, solo com Gregório Duvivier, todos eles utilizando ora uma celebridade da música, ora um mito grego e agora a história de um museu para traçar um panorama de conflitos do Brasil.

Neste trio de peças, na visão modesta deste crítico, Elza é a obra-prima de Calderoni. Afinal, não é todo dia que surge à frente de um dramaturgo personagem tão interessante e inspiradora.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Mas, voltemos ao Museu Nacional. A peça possui cenas interessantíssimas, como quando expõe a dualidade do Brasil dividido em dois países antagônicos, ou quando a atriz indígena diz que seu discurso não será ouvido.

Outra cena forte é a que reúne os atores negros e indígenas da peça em um futuro hipotético no qual a branquitude foi vencida — os artistas se dirigem à plateia, majoritariamente branca, como costumam ser as plateias e a elite do teatro, expondo a contradição presente nos anseios a nas realidades da mesma.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Aliás, esta contradição indigesta está presente até mesmo no produção do próprio espetáculo, quando se observa, à luz do discurso no palco, quem compõe cena e bastidores. Contudo, ao assumir essa autocrítica, em vez de buscar escondê-la, o espetáculo cresce.

Nas questões técnicas, o musical ainda carece de maior lapidação no tocante à coreografia e movimento dos atores em cena, assinados por Fabricio Licursi, como também na iluminação, assinada por Wagner Antônio — em muitos momentos da estreia vista por este crítico, os atores e a luz lutaram para se encontrar. Mas isso, certamente, será resolvido ao longo da temporada.

É preciso destacar os figurinos de Kika Lopes e Rocio Moure. Já a cenografia de André Cortez não alcança a potência de outros trabalhos que o mesmo já realizou — a imponente arquitetura do Museu Nacional poderia ter inspirado algo mais impactante.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Museu Nacional – Todas as Vozes do Fogo tem como grande mérito valorizar a construção científica da memória de nosso povo, sem deixar de questionar sob qual ótica essa memória foi e é construída. Seria interessantíssimo ver a montagem ser apresentada a estudantes, sobretudo os dos ensinos fundamental e médio, para que os mesmos fossem estimulados a realizarem as reflexões profundas que esta necessária obra propõe. Afinal, um povo sem memória só tende a caminhar, cegado pelas labaredas da ignorância e perversidade, rumo ao abismo.

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo
★★★★ Muito Bom
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
De 14 a 30/10/2022, quinta a sábado, 21h, domingo, 18h, no Sesc Vila Maria (r. Pelotas, 141, metrô Ana Rosa), São Paulo. Retire seu ingresso!

Público aplaude de pé a estreia de Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo no Sesc Vila Mariana – Foto: Rafa Marques – Blog do Arcanjo

Equipe de Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo abre camarim ao Blog do Arcanjo

Blog do Arcanjo mostra quem aplaudiu Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo no Sesc Vila Mariana

Museu Nacional Todas as Vozes do Fogo
★★★★ Muito Bom
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
De 14 a 30/10/2022, quinta a sábado, 21h, domingo, 18h, no Sesc Vila Maria (r. Pelotas, 141, metrô Ana Rosa), São Paulo. Retire seu ingresso!

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Um dos mais influentes e respeitados jornalistas e críticos culturais do Brasil, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Foi eleito entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha, Prêmios ANCEC e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil.
Foto: Edson Lopes Jr.
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