1991 ou a Imperfeição do Amor | Resenha por Marcio Aquiles

Por Marcio Aquiles*
Especial para o Blog do Arcanjo

Eunice, mãe de Ivam Cabral, era costureira no interior do Paraná. O filho, ator e dramaturgo, certamente herdou esse gosto e talento, dada sua habilidade em cerzir histórias diversas e coser linhas de tempo desafiadoras em suas narrativas. No livro 1991 ou a Imperfeição do Amor (Giostri Editora, 2021), combina matrizes literárias da escritora Virginia Woolf, conceitos oriundos do Ph.D. em psicologia Andrew Solomon e a biografia da mãe. Essa costura aparece também na assinatura conjunta de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez para o livro, reverberando a parceria de mais de três décadas da dupla à frente da Cia. de Teatro Os Satyros.

A narração em primeira pessoa mescla monólogo interior, solilóquio e diálogo com o receptor (leitor ou público), gerando um texto com méritos dramáticos e literários, com potencial de impacto, portanto, tanto para os palcos (presenciais ou virtuais) quanto para o livro. São relatos e reflexões sobre o cotidiano de diferentes tipos de mulheres nas esferas pública e privada.

A pequena Ribeirão Claro vira metonímia e metáfora do Brasil profundo, ainda preso pela estrutura patriarcal e machista. As mulheres dessa história, cada uma ao seu modo, tentam superar os desafios psíquicos e sociais que uma sociedade retrógrada e intolerante impõe por meio de dogmatismos, violências e processos históricos segregacionistas.

Mais do que um retrato cultural, o enredo revela também, inevitavelmente, a própria perspectiva do narrador e a forma como ele entende e realça cada um desses acontecimentos, seja pelo recorte que escolhe dar a esses causos ou pela intertextualidade proposta com os autores citados. A incerteza quanto às porções biográficas ou ficcionais, dispositivo literário moderno por excelência, acentua a curiosidade por essas personagens singulares, como a miss da cidadezinha, a baronesa austríaca que lá se escondeu durante a Segunda Guerra e sua companheira iconoclasta.

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Fotos: Divulgação e Bob Sousa.

*Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros A Odisseia da Linguagem no Reino dos Mitos Semióticos e O Eclipse da Melancolia. Recentemente, lançou seu décimo livro, A Cadeia Quântica dos Nefelibatas em Contraponto ao Labirinto Semântico dos Lotófagos do Sul.

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Jornalista cultural influente e respeitado no Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo Pod. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra o júri de Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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