Crônica: Pedro Augusto, por João Leite

João Leite escreve com gosto e enviou ao Blog do Arcanjo esta crônica urbana, repleta de amor e ironia da vida. Leia com toda a calma do mundo:

Pedro Augusto acordou diferente aquele dia: tremia — e não era o frio. Pelo contrário: era o amor por Elisa. Saíam há três meses: tempo suficiente para Pedrinho.

Lili era tudo o que Pedrinho sonhava enquanto ouvia sua lista millenial de canções românticas. Com quase 23 anos, o rapaz era só elogios à moça para sua mãe e confidente — ela mesmo não se importava muito: implicância de mãe.

Pedrinho queria surpreender a moça, e entre uma curva e outra do ônibus checava o presente que tinha escolhido. Lia repetidas vezes o que mandou gravar: “Só seu” e a data de quando ela respondeu sua primeira mensagem de WhatsApp — não havia buraco em São Paulo capaz de distrair o moço do brilho metálico que o par de alianças continha.

Ele havia ajuntado dinheiro das entregas que fez com a bicicleta nos fins de semana desde que a moça passou a segui-lo nas redes sociais: empreendia, como dizem por aí, para conquistar a amada.

Ensaiou algumas coisas para dizer para a menina sem notar que os fones de ouvido estavam altos o suficiente para atrair a atenção de uma senhora que estava no banco reservado.

— Nervoso?
— Oi? — disse tirando os fones.
A senhora riu.
— Desse jeito não vai conseguir dizer o que sente pra moça, um filho.
Agora era Pedrinho quem ria.

Começaram o tipo de conversa que só o transporte público e elevadores conseguem gerar: ela contou a Pedro que o marido também ficou nervoso quando foi pedi-la em casamento e quase não conseguiu fazê-lo: mas também contou que ele abriu o coração e que se beijaram no centro antigo de São Paulo, próximo à rua Direita.

— E agora são felizes? — Pedrinho gostava de finais felizes.
— Que nada! Ele morreu sozinho em casa: comeu camarão estragado e teve um “problema” na privada — ela falava mais baixo.
Pedrinho ficou horrorizado.
— A vida tem dessas, meu filho: o fim pode ser bastante bobo.
— Bobo?

— Acho que ninguém quer morrer de caganeira, “cê” não acha? — falou ainda baixo, mas logo começou a rir.

Pedrinho desceu do ônibus distraído, não pelo fim da história, mas pelo seu começo — esqueceu-se do episódio do banheiro. E de tão distraído não viu o ônibus que vinha do outro lado da rua.

Pedro Augusto morreu precisamente às duas da tarde daquele sábado, largado entre a Avenida Faria Lima e a Rua dos Pinheiros. A casa de Lili era a duas quadras dali. Naquele instante, ela recebia Carlos: eles saíam há quatro meses: tempo suficiente. Queria apresentar ao moço o novo apartamento.

*João Leite é escritor, cronista e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM. Apaixonado por literatura, artes, teatro e filosofia: “humano, demasiadamente humano”.

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