Alê Youssef constrói união da cultura em SP contra ataques de Bolsonaro

Alexandre Youssef, o Alê Youssef, posa em seu gabinete na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo com o Theatro Municipal ao fundo, um dos símbolos de sua gestão; ele completou um ano frente à pasta – Foto: Bob Sousa – Blog @miguel.arcanjo UOL

Alexandre Youssef, ou Alê Youssef, como é conhecido, acaba de completar um ano à frente da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Partindo da ideia “São Paulo Capital da Cultura”, que tem como eixos centrais a ocupação e a ideia de pertencimento, sua gestão apaziguou as relações do órgão com o setor artístico e ainda conseguiu propor união da categoria para enfrentar as perseguições na esfera federal feitas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

Youssef está à frente de dois megaeventos culturais do país. O primeiro é o Carnaval de São Paulo. Só neste ano serão 678 blocos em 460 pontos de desfile. No ano passado foram 12 milhões de pessoas que geraram R$ 2,1 bilhões para a cidade. O segundo é a Virada Cultural, que teve público de 5 milhões em 2019 e giro econômico de R$ 235 milhões.

Para além desses carro-chefes de sua pasta, outro acerto foi a realização do Festival Verão Sem Censura, em janeiro último, com obras atacadas e censuradas em todo o país que ganharam abrigo na capital paulista — como “Divinas Divas” e “Roda Viva”, do Teat(r)o Oficina de Zé Celso no Municipal —, elevando o prestígio da pasta junto ao setor cultural e intelectual da maior metrópole do país.

Outro destaque da gestão de Youssef é a renovação de público do Theatro Municipal de São Paulo — 42% do público do mais nobre espaço paulista no ano passado esteve no local pela primeira vez. Para o secretário, isso tudo é fruto da cultura ocupando as ruas da cidade, fazendo com que os cidadãos se sintam pertencentes ao espaço público.

Neste entrevista exclusiva a Miguel Arcanjo no UOL, concedida em seu gabinete no histórico Edifício Sampaio Moreira, na rua Líbero Badaró, no centro paulistano e com vista para o Theatro Municipal e o vale do Anhangabaú, o secretário faz não só um panorama de sua gestão. Mas ainda responde se aceitaria continuar em um possível novo mandato para o prefeito Bruno Covas; revela o que pensa da chegada de Regina Duarte à Secretaria Nacional de Cultura; fala de como sua filha Julia, fruto do casamento de oito anos com a atriz Leandra Leal, o colocou em novo lugar em relação à negritude; e ainda responde se aceitaria desafios maiores no futuro.

Leia com toda a calma do mundo.

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Faz um ano que você entrou na gestão da Secretaria Municipal de Cultural de São Paulo. Chegou em um período que o órgão vinha de um momento tenso com os artistas [na gestão anterior, de André Sturm], mas você conseguiu apaziguar o cenário. E já chegou com a missão de fazer o Carnaval e a Virada. Como foi isso tudo para você?
Alexandre Youssef — Bom, primeiro acho importante a gente contextualizar o ambiente do convite. Recebi o convite logo no início do ano e nós tínhamos aí o início da gestão do presidente Bolsonaro, no ponto de vista federal. Já sabíamos da extinção do Ministério da Cultura, porque foi anunciado mesmo antes da posse. A classe, o setor, o universo cultural – do qual sempre fiz parte, sempre estive inserido – estava aí, preocupadíssimo, fazendo as considerações sobre os problemas que poderíamos enfrentar. E que depois acabamos vendo que se concretizaram.

Miguel Arcanjo Prado — Digamos que não era um cenário fácil…
Alexandre Youssef – Esse honroso convite do prefeito Bruno Covas foi aceito nesse ambiente, na ideia de que era necessário que, a partir da maior cidade do país, pessoas da cultura trabalhassem e defendessem a cultura da cidade. Na maior cidade do país, no maior centro econômico do país. E, sinceramente, é algo que agradeço ao prefeito, Bruno, todos os dias. Por que, nesse contexto em que o país vive, nesse momento em que a cultura está sob ataque, faz muita diferença ter São Paulo do lado da cultura. Apoiando a cultura, fomentando a cultura.

Miguel Arcanjo entrevista o secretário Alê Youssef em seu gabinete na Secretaria Municipal de Cultura: “Regina Duarte precisa interromper a criminalização da arte e o flerte com obscurantismo” – Foto: Bob Sousa Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – Pensando lá nos livros de história do futuro, qual papel você acha que São Paulo vai ocupar quando se falar deste período?
Alexandre Youssef – Eu acho que São Paulo vai ser visto como lugar de resistência cultural, um lugar, um oásis do ponto de vista da política pública para a cultura. Um lugar que, na hora em que o flerte com o obscurantismo aconteceu, a censura ameaçou voltar, a gente conseguiu responder de uma maneira muito contundente, que ecoou no mundo inteiro, como através do Festival Verão Sem Cultura. E acho também que, independentemente de qualquer contraponto, ou comparação com o governo federal, esse momento vai ficar como momento de demarcação da importância da ocupação cultural da cidade, como forma de expressar as linguagens da cultura.

Miguel Arcanjo Prado – Como você vê a Regina Duarte assumindo a Secretaria Nacinoal de Cultura?
Alexandre Youssef – A Regina Duarte, em primeiro lugar, precisa interromper a criminalização da arte e o flerte com o obscurantismo. Se ela não interromper isso, nada muda. Por que esses dois aspectos são a base dos ataques que o governo federal vem fazendo. Ela precisa interromper! E interromper logo para poder criar algum tipo de expectativa positiva no setor.

Miguel Arcanjo Prado – Sua gestão é marcada por um olhar potente para a comunidade negra e suas produções artísticas. O fato de você ser pai de uma criança negra [a menina Julia, fruto do casamento de oito anos com a atriz Leandra Leal] te coloca mais próximo dessa questão do que outros gestores que não tem essa ligação dentro de casa com a negritude?
Alexandre Youssef – Meu lugar de fala é o lugar de pai de uma menina negra. E é óbvio que isso me sensibiliza demais, me traz um olhar diferenciado para essa questão. Eu creio que seja uma obrigação de qualquer gestor público diante dos índices absurdos de desigualdade econômica, social e racial. A falta de oportunidades e da necessidade de reparos históricos; então, por um lado, eu tenho essa sensibilidade e tenho dentro de casa o maior exemplo de vida, e, por outro lado, não faço mais do que a obrigação.

Miguel Arcanjo Prado – Você fala muito da cultura nas ruas, defende a ideia de que ela tem de sair das salas e espaços convencionais, mas ocupe a cidade?
Alexandre Youssef – Sim. Na lógica de que uma cidade ocupada pela cultura – e pela arte – é uma cidade mais bonita, mais colorida, mais diversa, mais humana, mais segura e muito melhor de se viver. E acho também que esse lema de você, diante dos ataques, criar uma estratégia de resistência proativa, fazendo aquela coisa que a gente sempre tem falado: “coisas boas, bonitas e fortes sem parar”. Isso a cultura pode proporcionar para quem nos ataca, e que tenha que resistir a força da cultura. São Paulo exerce uma importância muito grande nesse sentido, porque a vitalidade cultural da cidade é inequívoca. Então, o que nós buscamos fazer é aproveitar essa vitalidade para construir pontes, aproximar diferenças.

Miguel Arcanjo Prado – Falando de diferenças de cultura, o mundo cultural, muitas vezes, sempre foi de feudos que não se conversavam. O próprio teatro, que cubro muito, tem o “teatro cabeça”, o “teatro musical”, o “teatro de rua”, o “teatro de grupo”… E muita gente se detesta, se odeia. Você acha que esse momento surgiu para unir a cultura?
Alexandre Youssef – Acho que é uma janela de oportunidade, nesse momento, para a gente entrar na mesma frequência do setor cultural. Eu tenho uma resposta – ou pelo menos um desejo -, de que qual que é essa frequência? A sintonia que a gente tem que estar é todas linguagens unidas, não só as diferenças internas das próprias linguagens, mas as próprias linguagens unidas em torno de um grande pacto, de um grande movimento, que juntem artistas, produtores, empreendedores, que junte coletivos e imprensa especializada com o objetivo de colocar a cultura no eixo central de desenvolvimento econômico-social das cidades, dos estados e do país.

Miguel Arcanjo Prado – Por que essa união é importante?
Alexandre Youssef – Dessa forma, a gente vai parar de depender do secretário “legal”, “bacana”, que consegue fazer, do ministro legal, bacana. Buscar a institucionalização das políticas culturais, a partir desse grande movimento. E fazer com que a gente possa, de alguma forma, mostrar que a cultura é estratégica. Como Londres, Barcelona, Madri, Lisboa e Seul fizeram e que deram origem a movimentos de transformação muito grandes a partir da economia criativa, na Inglaterra, na Espanha, em Portugal, na Coréia do Sul.

Alê Youssef comemora São Paulo estar no World Cities Culture Forum, figurando entre as principais capitais culturais do mundo: “Cultura tem de ser vista como elemento símbolo da valorização da democracia e da liberdade de expressão e como instrumento de geração de emprego e renda” – Foto: Bob Sousa Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – Qual foi o acerto desses lugares?
Alexandre Youssef – Eles acertaram porque colocam a cultura no eixo central do desenvolvimento econômico-social, por que a cultura tem que ser vista como elemento do símbolo da valorização da democracia e da liberdade de expressão. Ela tem que ser vista, também, como um instrumento de geração de emprego e de renda. E tem que ser vista como instrumento de redução das desigualdades. Pensando na desigualdade como sendo o mais grave problema nacional. Como a gente tem 27 unidades federativas que são verdadeiros países dentro de um país, com a diversidade cultural que a gente tem, com a riqueza cultural que a gente tem, com o reconhecimento da nossa cultura pelo mundo inteiro e a gente não entende isso como central ao nosso desenvolvimento?

Miguel Arcanjo Prado – Entender isso como central faz parte da cultura fazer as pazes com os números e começar a divulgar os números que ela gera? E digo não só divulgar, mas contabilizar antes. Muitas vezes nem se sabe o número de bilheteria total, por exemplo, em todos os teatros de São Paulo em um mês, porque não há essa contabilização. Você acha que a cultura precisa se amigar com os números e aprender a falar “olha, a gente gera esse tanto aqui”. Como o musical fez recentemente fez com o estudo da Fundação Getúlio Vargas que mostrou que tem um impacto de R$ 1 bilhão na economia. Eu vi que você tentou fazer isso com o “Agendão” da cultura. Mas falta isso: a cultura aprender a fazer matemática?
Alexandre Youssef – Falta uma visão estratégica no que diz respeito a como comunicar o grande ganho econômico e social que projetos culturais têm. Se nós tivermos uma junção de todas as linguagens, de todo o mercado, de toda industrial cultural. Entendermos o impacto disso tudo no PIB, nós poderemos ter, a partir da busca do PIB da cultura, a partir da participação da economia criativa na economia nacional, os elementos que vão forçar, inclusive, a qualquer governo que queira o desenvolvimento do país inserir a cultura nesse eixo estratégico.

Miguel Arcanjo entrevista o secretário Municipal de Cultura de São Paulo Alê Youssef em seu gabinete, no centro de São Paulo: “Época de ataque à cultura é oportunidade de união e construção de um movimento para colocar a cultura nesse eixo central de desenvolvimento econômico-social do país”, declara – Foto: Bob Sousa Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – E o que a cultura precisa fazer pra isso acontecer?
Alexandre Youssef – O que não dar para acontecer é a gente ficar isolado, restrito a uma área e a uma secretaria específica, com aquele orçamento especifico e com todas as linguagens brigando entre si para ver quem vai ficar com uma parte da fatia do orçamento. Esse período já passou! Se a gente tem que usar essa época de ataque para alguma coisa, ou se tem alguma oportunidade que surge nesse ataque, é a oportunidade da união e da construção desse grande movimento para colocar a cultura nesse eixo central de desenvolvimento econômico-social do país.

Miguel Arcanjo Prado – Já que falou desse eixo de desenvolvimento econômico, gostaria que você falasse duas ações muito grandes da sua gestão, a Virada cultural e o Carnaval, que cresceram sob sua gestão e prometem ser ainda maiores este ano. É isso?
Alexandre Youssef – Olha, acho que o Carnaval e a Virada Cultural são dois grandes exemplos da vitalidade cultural da cidade de São Paulo e da nossa vocação como uma das capitais mundiais da cultura. Não é à toa que entramos para o “World Cities Culture Forum”, que é o fórum que reúne as 38 capitais mundiais da cultura. A Virada Cultural é um exemplo da marca da cidade. Com certeza é o maior evento, festival público, 24 horas do mundo. Você ter cinco milhões de pessoas, com a quantidade de palcos que temos, com quantidade enorme de movimentações ao mesmo tempo. E o Carnaval de São Paulo que é também um marco dessa vitalidade. A Virada gerou R$ 235 milhões de giro econômico em 2019 e reuniu cinco milhões de pessoas. Em 2019, o Carnaval de Rua de São Paulo gerou R$ 2,1 bilhões em giro econômico e colocou na rua 12 milhões de pessoas, para responder sua pergunta sobre o ponto de vista econômico.

Miguel Arcanjo Prado – Em 2020 São Paulo terá o maior Carnaval do Brasil?
Alexandre Youssef – Não sei se é o maior do Brasil, não pode cravar isso. Até por que não estamos querendo competir o título de melhor, a gente quer buscar “o melhor possível” com infraestrutura para que a cidade possa ser uma plataforma para os verdadeiros protagonistas brilharem, que são os cidadãos e foliões através de seus blocos, fanfarras e cordões. Esses são os protagonistas do Carnaval. A cidade tem que ser uma plataforma para a festa acontecer em sua plenitude.

Alê Youssef durante desfile do maior bloco de São Paulo do qual é um dos fundadores, o Acadêmicos do Baixo Augusta, que completou dez anos no ano passado: “Carnaval foi catalisador de um processo de reencontro da cidade com ela mesma”, afirma – Foto: Edson Lopes Jr. Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – A retomada do Carnaval de Rua foi muito forte na última década.
Alexandre Youssef – Eu acho que tem um aspecto muito bonito no Carnaval de rua. O Carnaval de São Paulo, nesses últimos dez anos, foi o catalisador de um processo de reencontro da cidade com ela mesma. Das pessoas, da cidadania de São Paulo, com sua cidade e com as ruas. Pela minha história, que tenho muito vinculada ao processo todo do Carnaval, fico feliz de poder enxergar o crescimento, o impacto econômico e a importância hoje do Carnaval na vida das pessoas.

Miguel Arcanjo Prado – E há um entendimento de que o Carnaval é importante?
Alexandre Youssef – Há a compreensão da cidade sobre a importância do Carnaval, que é necessário a gente fazer um bom carnaval, um trabalho mais organizado. E respeitar o direito à cidade, o protagonismo dos blocos. Acho que o carnaval exerceu esse papel, a partir do momento que o carnaval passou a protagonizar essa ideia de ocupação cultural. Ele transforma a política cultural da cidade, a gente – pelo menos na minha passagem pela Secretaria Municipal de Cultura – coloca política cultural de ocupação cultural como eixo central de todas essas ações. Uma quase carnavalização da política cultural municipal.

Miguel Arcanjo Prado – Você falando dessa coisa de as pessoas se sentirem pertencentes à cidade, do respeito à diversidade, da pessoa perceber que a cidade é dela. Um exemplo disso na sua gestão é a grande mudança no Theatro Municipal, que antes era visto como um espaço mais elitista e, de repente, vimos outros atores naquele palco. Teve “Divinas Divas”, atrizes trans, artistas negros do teatro e do circo… Foi você quem quis isso a partir da escolha de um palhaço, o Hugo Possolo, para ser o diretor artístico do Municipal, simbolizando essa cidade para todo mundo?
Alexandre Youssef – Eu acho assim: primeiro, existe um programa que chama “São Paulo, Capital da Cultura”. É um programa de dez movimentos estratégicos dessa passagem – desse biênio – à frente da Secretaria de Cultura. Dentro desse programa está também a Ocupação Cultural e o calendário cultural integrado, Agendão. Assim como o destravamento dos Fomentos, que a gente destravou e investiu R$ 77 milhões em 2019 só em fomento cultural diretamente das linguagens. Destravando o teatro, que estava travado, a dança e tantos outros setores. Assim como outras importantes ações, como todo trabalho relacionado ao pertencimento e vínculo com os equipamentos culturais, que busca aproximar as comunidades dos seus equipamentos e ampliar seu público frequentador. E melhorar a integração da comunicação, de curadoria, que aumentou em 110% em centros culturais. E 97% em teatros, 60% em casas de culturas e 40% em bibliotecas. Além da ideia de reconhecimento, de ser reconhecido por ter entrado no World Cities Culture Forum, e de poder ganhar prêmios como o APCA, o Prêmio Arcanjo de Cultura e a jornada do patrimônio, ver momentos como show do Emicida no Municipal.

Emicida lota Theatro Municipal em novembro de 2019 com seu show AmarElo: “Arte é ocupar” – Foto: Jeferson Delgado/Divulgação Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – E o que significa esse novo Municipal?
Alexandre Youssef – Além de tudo isso, respondendo à sua pergunta, existe o projeto – o programa, o eixo – “Novos Modernistas”. O que é isso? É a compreensão da importância da Semana de Arte Moderna de 1922, que foi sediada no Theatro Municipal, na construção da identidade cultural da cidade e o retorno dos valores multiculturais que ela propôs. Isso está em toda nossa política cultural. E o Theatro Municipal é o grande palco, o farol, o lugar onde está simbolizado esse tipo de política.

Miguel Arcanjo Prado – Hoje o Municipal é de todo mundo?
Alexandre Youssef – Acho importante ressaltar que a gente alcançou 42% de renovação de público no Theatro Muncipal em 2019. Quarenta e dois por cento das pessoas que pisaram no Municipal ano passado pisaram lá pela primeira vez. Isso é um dado extraordinário! É abrir o Theatro ao todos, mantendo a tradição lírica. Porque ampliamos o número de óperas, inclusive. Mas, trazer um multiculturalismo e a ideia de brasilidade, da tradição brasileira. Inclusive para as próprias óperas, buscar óperas, por exemplo, que vão ser encenadas, e que foram escritas pelo Plínio Marcos. É abrir o Municipal para outras linguagens, é poder fazer lá o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, o Prêmio Arcanjo de Cultura. É poder fazer o show do Emicida no Mês da Consciência Negra. É poder fazer o circo, é poder trazer todos os “Prot[AGÔ]nistas”, que foram, inclusive receber o seu prêmio. É possível fazer também o teatro a cinco reais, trazendo a classe artística de volta.

Fernanda Montenegro é aplaudida de pé no Theatro Municipal de São Paulo em 2019: “Nenhum sistema irá nos calar”, disse a grande atriz – Foto: Matheus José Maria/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – Quais momentos lhe marcaram neste novo Theatro Municipal?
Alexandre Youssef – O Theatro Municipal, nesse contexto, foi palco de dois momentos muito marcantes que nossa passagem acabou gerando. Nesse momento do Brasil, eles simbolizam demais. Eu ressalto esses dois momentos que resulto em duas frases. O momento em que o Emicida, em seu show, que ganhou no APCA, emblemático do jeito que foi, destaca que “A arte é ocupar”. E o momento que a dona Fernanda Montenegro, ao ler suas memórias, no Festival Mário de Andrade, fala que “nenhum sistema irá nos calar”. Esses dois momentos aconteceram no palco do Municipal! Fora outros maravilhosos como exibirmos os filmes da Mostra Internacional de Cinema e o seu Prêmio Arcanjo de Cultura no fim do ano passado, reunindo todo mundo da classe artística. Tudo isso mostra a força que ecoa naquele Theatro. E como é importante ele estar vivo!

Alexandre Youssef, secretário Municipal de Cultura de São Paulo, discursa no Prêmio Arcanjo de Cultura, observado pelo secretário de Estado de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, o idealizador da premiação, Miguel Arcanjo Prado, e o diretor artístico da cerimônia e da SP Escola de Teatro, Ivam Cabral, no Theatro Municipal de São Paulo, em 18 de dezembro de 2019 – Foto: Edson Lopes Jr. @edson_lopes_jr – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – E o Hugo Possolo, atual diretor artístico e palhaço dos Parlapatões?
Alexandre Youssef – Sobre o Hugo Possolo: é uma honra pode contar com ele. É uma beleza nomear um palhaço, que é dramaturgo, que é talento puro, na direção artística do Municipal. E através dele representar esse movimento que foi criado de pessoas incríveis que toparam o desafio comigo. Laís Bodanzky, da SPCine, Erika Palomino, do Centro Cultural São Paulo, a Joselia Aguiar, na Biblioteca Mário de Andrade, o Pedro Granato, da coordenação dos Centros Culturais e Teatros, o André Fischer, no Centro Cultural da Diversidade, a Claudia Assef, na Galeria do Dj, o Xis, na Coordenação de Culturas Negras, e tantas pessoas que toparam vir comigo. Nessa defesa pela cultura. Todos esses e todos da equipe.

Alê Youssef, que tenta em sua gestão frente à Cultura na cidade de São Paulo criar uma “ideia de pertencimento, de reconexão das pessoas com suas próprias histórias”- Foto: Bob Sousa Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – Nessa ideia de pertencimento à cidade como você enxerga o projeto “Memória Paulistana”, que colocou placas em lugares históricos da cidade?
Alexandre Youssef – Vamos terminar a gestão com 466 placas fixadas. E é uma ideia de pertencimento, de reconexão das pessoas com suas próprias histórias. O Museu de Artes das Ruas também faz parte disso, grandes intervenções na cidade estão pipocando por aí. Várias estão bem visíveis, você já começa a perceber. E o Museu de Arte de Rua permanece agora com oficinas nas escolas. Para crianças fazerem, pintarem. E também dialogam com a ideia de ocupação. Essa ideia de ocupação está presente em tudo, é importante entendermos essa força. O aniversário de São Paulo como foi, essa beleza, esse cortejo modernista…

Miguel Arcanjo Prado – E como você responde às críticas de que os equipamentos de som não estavam à altura do tamanho da festa e as pessoas reclamaram de não ouvir os artistas, como aconteceu no show do Ney Matogrosso na Ipiranga com São João?
Alexandre Youssef – As críticas são válidas e precisam ser ouvidas para melhorarmos esse sistema de produção. Mostra o sucesso do evento, que lotou de maneira impressionante. A gente precisa melhorar, claro, está melhorando e aprimorando. É um desafio também para os processos de produção do setor público, não é fácil. Você tem limites óbvios que a Legislação te coloca. Mas a gente sempre tem que procurar melhorar, é isso.

Alê Youssef e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, no lançamento do livro “Baixo Augusta: A Cidade É Nossa”, em fevereiro de 2019: “Fico à disposição do prefeito”, diz Youssef sobre continuar à frente da Cultura caso Covas se reeleja – Foto: Frâncio de Holanda/Divulgação/Baixo Augusta – Blog @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – Você aceitaria continuar à frente da Cultura no caso da reeleição do prefeito Bruno Covas?
Alexandre Youssef – Em primeiro lugar, espero que o prefeito Bruno se reeleja. Por que ele, de fato, está fazendo uma gestão transformadora na área da cultura e muito importante no ponto de vista nacional. O quanto a gente está conseguindo cavar essa trincheira de defesa da cultura, nessa cidade e nessa Secretaria. Eu acho importantíssimo essa continuidade. Fico à disposição do prefeito, mas quem pode dizer é ele. Quem decide é ele.

Miguel Arcanjo Prado – Quais são os desafios para este último ano desta sua gestão?
Alexandre Youssef – Acho que temos um 2020 muito importante pela frente; porque, se o ataques aconteceram muito contundentes em 2019, os reflexos desses ataques vão acabar aparecendo. Porque os cortes aconteceram em 2019, mas muito dos orçamentos já tinham sido aprovados em 2018. Então, acredito que será muito importante a gente permanecer fazendo essas coisas “boas, bonitas e fortes” sem parar. Com muita velocidade, força e intensidade para continuarmos sendo um lugar de refúgio, de esteio, de alerta para a classe cultural. Espero que isso aconteça de uma forma harmônica, produtiva, e que a gente possa aproveitar esse momento para unir a classe artística, nesse movimento que precisa acontecer. Talvez 2020 seja o momento de firmamos o pacto da união da cultura, depois de ter apanhado tanto em 2019.

Miguel Arcanjo Prado – Você aceitaria ser ministro da Cultura no futuro?
Alexandre Youssef – A gente nem tem Ministério da Cultura, então, nem posso responder sua pergunta. É uma ilação muito grande a que estamos sofrendo. O que me faz sentir vontade, nesse exato momento, é trabalhar por esse movimento que falei aqui. Se a gente puder transformar essa entrevista em uma propagação dessa necessidade de pacto, em busca desse movimento de união da cultura, a gente pode transformar as coisas e quem sabe até um dia termos o Ministério da Cultura de novo.

Colaborou Vitor Almeida.

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Alê Youssef: “Talvez 2020 seja o momento de firmamos o pacto da união da cultura, depois de ter apanhado tanto em 2019″ – Foto: Bob Sousa Blog @miguel.arcanjo UOL

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