Opinião: Silvio Santos com cantora Jennyfer Oliver dá vontade de chorar

Jennyfer Oliver e Silvio Santos: ele simplesmente não aceitou que ela fosse a melhor cantora em seu programa no SBT – Foto: Reprodução – Blog do @miguel.arcanjo UOL

O que a cantora Jennyfer Oliver está passando nas últimas horas ninguém merece viver. A jovem sertaneja, que já é vitoriosa por ter chegado a um programa de TV representando um dos estilos musicais mais racistas deste Brasil, apenas queria demonstrar seu talento no Programa Silvio Santos. Só oferecer seu canto talentoso ao público, ser reconhecida e poder exercer com dignidade sua profissão.

Contudo, Jennyfer Oliver foi alvo de perceptível perseguição, ao que tudo indica, pelo simples fato de ser negra. E o pior: a perseguição partiu de Silvio Santos, o que lhe coloca em situação de disputa desigual, afinal, ele é o dono do programa e do canal, além de ser a figura mais popular da televisão brasileira.

Jennyfer Oliver é uma artista talentosa. Tanto que, na votação popular do próprio Programa Silvio Santos, foi eleita pelo auditório a vitoriosa da disputa. Isso, mesmo tendo sido prejudicada e tido sua música trocada de última hora pelo apresentador, como revelou em entrevista à repórter Raíssa Basílio, aqui no UOL.

Aliás, tal entrevista merece ser lida com toda a calma do mundo, porque, em suas sutilezas, é reveladora de como opera o racismo estrutural brasileiro e, neste caso específico, a opressão de uma mulher negra que ousou desafiar sair do lugar que esse racismo prevê para ela: o de subalterna. A conversa também explicita o medo da cantora de ser prejudicada pelo episódio, já que ela é consciente de sua fragilidade feminina e negra diante de um sistema cruel, racista e machista, não pertencente a pessoas como ela.

Afinal, ser a mais talentosa e a preferida pelo público, como diziam as regras do próprio programa, não bastaram para que ela saísse eleita como a melhor cantora do quadro de Silvio Santos. Ou seja, Jennyfer vai acreditar em Justiça? E por que seu talento não bastou? Porque Silvio Santos, o dono do programa e o do canal, de forma arbitrária e sem qualquer tipo de explicação plausível, não aceitou sua vitória. Não à toa, a opinião pública viu no episódio mais um ato racista por parte do comunicador.

E Jennyfer Oliver, diante desse turbilhão no qual foi submersa, temeu, com razão, por sua carreira. Afinal, ela sabe que não foi fácil chegar até ali. E, diante daquela que seria a grande oportunidade de sua trajetória, ela foi coisificada, como o racismo costuma fazer com pessoas negras. Deixou de ser a melhor cantora para ser mais uma vez a negra vítima do racismo. E este talvez seja o lado mais cruel do racismo estrutural brasileiro, aquele que não permite com que negros se destaquem sem que sejam perseguidos e reforçados em sua condição de pessoas pretas.

É triste ver que 131 anos depois da vergonhosamente tardia abolição da escravidão, as pessoas negras seguem sendo tratadas como coisas, e não como gente. E que a ascensão destas ainda gere tanto ódio, mesmo que com ar de deboche de um programa televisivo dominical. Diante disso, este colunista só consegue confessar uma vontade acrescida de um nó no peito: de chorar copiosamente por Jennyfer Oliver e por todos nós, uma triste sociedade brasileira, enferma em seu racismo.

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