Crítica: Força clássica de O Jardim das Cerejeiras sobrevive a novos tempos

Cena da peça “O Jardim das Cerejeiras”, em cartaz no Teatro Aliança Francesa: clássico do teatro russo é revisitado para celebrar 40 anos do Grupo Tapa – Foto: Ronaldo Gutierrez Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Clássico do russo Tchekhov é apresentado em São Paulo para comemorar os 40 anos do Grupo Tapa. As sessões são até 31 de março no Teatro Aliança Francesa (r. General Jardim, 182), na República, quinta, sexta e sábado, 20h30, e domingo, 19h, com entrada de R$ 20 a R$ 60 em valores de inteira.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
“O Jardim das Cerejeiras” ✪✪✪
Avaliação: Bom

A forte movimentação de classe social que varreu a Rússia na virada dos séculos 19 para o 20 são o epicentro do espetáculo “Os Jardim das Cerejeiras”. Trata-se do último escrito pelo célebre autor russo Anton Tchekhov (1860-1904). Ele o pensou como comédia, mas que foi transformado em um forte drama com ares de tragédia por Stanislavksi, que o dirigiu no Teatro de Arte de Moscou pouco antes da morte do autor. A montagem serviu de base para o registro de atuação do realismo, copiado depois por Hollywood e a televisão.

A obra agora é montada para celebrar os 40 anos do Grupo Tapa, um dos mais tradicionais em atividade na cidade de São Paulo, detentor do potente número de 82 prêmios da crítica especializada. Diretor com quatro décadas de experiência, Eduardo Tolentino de Araújo é quem encena o clássico.

Diante de tudo isso, chega-se ao espetáculo repleto de expectativa de se assistir a uma obra prima, expectativa esta que não é atendida. Trata-se de um bom espetáculo, nem mais, nem menos.

A encenação cumpre seu objetivo de reviver um clássico, apresentando-o de forma digna a novas gerações de público, o que já é está a contento diante das atrocidades que diretores e atores brasileiros costumam fazer com grandes obras do teatro mundial, fruto daquela conhecida pretensão de ser melhor que um clássico.

Tolentino imprime ao drama pitadas de comédia, na tentativa de recuperar o desejo inicial de Tchekhov e, talvez, deixar mais palatável ao frequentemente raso público nacional o denso enredo russo.

Seu elenco caminha por distintos registros de atuação no decorrer da obra, a maioria delas fugindo do realismo, prevalecendo um tom mais expansivo do que o introspectivo que costuma se repetir em montagens deste clássico ao redor do mundo.

A peça mostra uma Rússia de aristocracia decadente, mantendo a pose sem dinheiro diante da forte ascensão da burguesia comerciante e do crescimento da industrialização formadora de uma classe trabalhadora em ebulição que, aliada às ideias marxistas defendida por jovens estudantes, culminaria na Revolução Russa de 1917.

A partir deste farto panorama histórico, o texto simbólico concentra-se propriamente em uma família aristocrata no interior do país, que se vê na iminência de perder suas terras repletas das mais belas cerejeiras russas.

A direção de Tolentino é muito precisa na condução da história, criando, com a ajuda do elenco elegantemente vestido por Rosângela Ribeiro — assistida por Lenin Cattai —, ambientações de forma inventivas a partir de seu cenário sóbrio e minimalista com móveis antigos reaproveitados.

O diretor conta com o auxílio de um bem coreografado elenco e da sonoplastia de Alexandre Martins para realizar as transições de tempo, tendo a iluminação (quase sempre aberta) de Nelson Ferreira como aliada em alguns momentos — recortes mais propositivos de luz teriam feito a obra crescer.

Cena de “O Jardim das Cerejeiras”, um clássico de Tchekhov em cartaz no Teatro Aliança Francesa, em SP – Foto: Ronaldo Gutierrez – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

É perceptível nesta montagem uma tentativa de popularizar o clássico e torna-lo mais palatável ao grande público, lavando com certos maneirismos de atuação parte da densidade proposta pela profunda dramaturgia de Tchekhov, tão bem compreendida por Stanislavski.

Assim, em determinados momentos, o elenco torna-se espalhafatoso, fazendo com que alguns personagens da fria Rússia mais pareçam habitar o sul da Itália, tamanha sua incapacidade de introspecção.

Alguns registros de atuação soam dissonantes do clássico russo, com uma ausência de organicidade no corpo e na voz, repletos de malabarismos, como acontece com Natália Beukers na pele da criada Duniacha e até mesmo com Alan Foster, como o estudante Trofímov, sobretudo na espantosa cena na qual seu personagem explode após embate com a personagem central, a proprietária do cerejal, Liuba, papel de Clara Carvalho.

Atriz experiente e dona de farto talento que a faz transitar com propriedade tanto pelo drama quanto pela comédia, Clara Carvalho consegue se destacar, sobretudo, pela generosidade de fazer concessões para modular sua atuação para que não destoe do todo ao seu redor.

Dá gosto também assistir a duas atuações certeiras. A de Adriano Bedin, como o criado Iacha, que enxerga o cheiro da decadência em tudo e só quer escapar daquele lugar.

E também a de Guilherme Sant’Anna, excelente como o criado Firs, personagem que ganha ainda maior importância nesta montagem ao ser interpretado por um ator negro, criando tensão racial aliada à social, o que faz a peça se aproximar da realidade brasileira, onde raça e classe, infelizmente, ainda têm significado conjunto. Prova disso é o ferino riso de identificação de parte do público quando um dos personagens diz uma fala altamente racista e escravocrata ao criado que nunca conheceu outra realidade que não à da servidão.

Outro que vai bem é Sergio Mastropasqua, certeiro como um antagonista cordial na pele do bronco negociante em ascensão. Riba Carlovich, por sua vez, diverte o público como o proprietário de terras azarão. Completam o elenco uma intensa Anna Cecília Junqueira, um hiperbólico Brian Penido Ross, uma monocórdica Gabriela Westphal, uma pictórica Mariana Muniz, além de Bruno Barchesi e Paulo Marcos.

A assistir a “O Jardim das Cerejeiras” é comprovar que a força do texto de Tchekhov sobrevive a novos tempos, já que sua obra continua atualíssima, sobretudo espelhada pelas mudanças do Brasil contemporâneo. Clássica, a peça revela que a disputa entre classes sociais pela manutenção do poder e do dinheiro em constantes rearranjos jamais terá fim.

Afinal, como disse o escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa no livro “O Leopardo”, às vezes é preciso mudar tudo para que tudo fique como está, como aprendeu este crítico com o lendário cientista político Fernando Massote.

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