Do sonho ao pesadelo, Gaspar Noé cria bad trip coletiva macabra em Clímax

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
“Clímax”, de Gaspar Noé
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪

Uma câmera que percorre um habilidoso caminho entre o sonho e o pesadelo, a beleza e o horror. O que poderia ser praticamente um documentário coreográfico de street dance com um grupo diverso e numeroso de bailarinos em ousadas coreografias logo se torna um pesadelo sem fim. “Clímax”, o novo filme de Gaspar Noé, é uma grande bad trip coletiva macabra que leva o horror e o caos humano aos olhos de um angustiado espectador.

O cineasta argentino radicado em Paris é diretor de outras produções polêmicas como “Irreversível”, com sua interminável cena de estupro, e “Love”, com imagens de sexo em 3D.

A sinopse de “Clímax” parece simplória: um grupo de bailarinos trancafiados em uma espécie de galpão ensaia uma exigente coreografia. Após executá-la com destreza, começa uma festinha particular e, ao que tudo indica, alguém colocou no ponche servido alguma droga misteriosa com efeitos próximos aos do LSD.

Se a primeira parte do filme é festiva e energicamente dançante, tal qual um primeiro dia de “Big Brother”, com todos se conhecendo e em clima de libido em riste diante do novo, na segunda, quando a droga impera em todos os sentidos, a humanidade revela sua pior face, no que parece ser um experimento mórbido-vingativo de quem “batizou” a bebida, tornando cada movimento algo assustador.

“A vida é uma impossibilidade coletiva”, diz o letreiro que o diretor usa para separar as duas partes do filme. Com razão: o que o espectador vê na tela a seguir é o pior da espécie humana, elevado à última potência pela substância química que, ao que tudo indica, os personagens tomaram sem saber. A partir daí, tudo pode acontecer. E é preciso estômago forte para acompanhar o desenrolar desta festa sinistra.

Hábil cineasta, Noé transforma sua câmera em observadora de um pesadelo que vai se construindo aos poucos e torna-se cada vez mais aterrorizante em sons, música, imagem e caos observado por sua lente, que aos poucos funde elementos e cores, sobretudo o vermelho, para criar o desespero coletivo.

Se este tipo de horror já foi usado por cineastas como Pasolini ou Buñuel, com caos sexual passeando por excessos de tabus para fazer crítica social à perversidade de classes abastadas, Noé passeia por elementos como incesto, homossexualidade e escatologia de forma mais individualista. Isso condiz com o homem do século 21, cada vez mais autocentrado e vago em ideologias.

No alucinado “Clímax”, o mal vira um impulso primário, sem necessidade de decodificá-lo em qualquer enquadramento político-ideológico. E vê-lo de perto é mergulhar no puro pavor.

“Por sorte não me trataram de religioso”, diz diretor de Clímax Gaspar Noé sobre seus filmes polêmicos

Em conversa com jornalistas brasileiros nesta terça (29) no Reserva Cultural, em São Paulo — encontro do qual participou o Blog do Arcanjo no UOL —, o cineasta Gaspar Noé afirmou que seu filme “Clímax” é fruto de criação coletiva, já que não havia mais que três páginas de roteiro quando se trancafiou com o elenco e a equipe enxuta por 15 dias no espaço que serve de cenário à tenebrosa festa, que classificou como “uma Torre de Babel”: “Nela, o grupo social se vai à merda”, definiu, sem firulas metafóricas. “O que mais me inspira é o comportamento humano”, avisou.

Noé, que revelou ser fã do cineasta brasileiro José Mujica Marins, o Zé do Caixão, a quem conheceu em Paris, falou que gosta de liberdade no set e que não trabalha com assistentes e técnicos que sejam ególatras e que queiram ter o domínio de tudo.

“Não gosto de roteiro, porque o texto demasiadamente escrito não permite desvios. Em ‘Clímax’, salvo um ou dois diálogos, o resto é tudo improvisado, inclusive, quando na primeira parte eles falam em dupla ou trios. Eu mesmo filmei com a câmera esses diálogos. Era somente eu e eles, improvisando”, contou. Segundo o diretor, muitos bailarinos tímidos se soltaram nessas cenas, revelando seus inconscientes. “Eles se entusiasmaram”, admitiu.

Noé contou que o processo de filmagem foi rápido e intenso. “Filmar ‘Clímax’ foi como entrar em uma montanha-russa e depois seguir para um trem fantasma”, definiu. E reiterou que os bailarinos não se drogaram ao longo do filme. “Bailarinos são muito fracos para qualquer substância química. No segundo dia, demos álcool e café forte a eles, e ficaram imprestáveis para trabalhar, pois bailarino não bebe e fica bêbado muito rápido. Depois disso, ninguém bebeu mais nada”, observou, lembrando que as filmagens começavam por volta das 15h e iam até depois da meia-noite, exigindo forte preparo físico de toda equipe.

O diretor revelou que fazer um filme de bailarinos era um objetivo, porque “ver garotos e garotas dançando assim me hipnotiza”, mas que se interessa por esse tipo de dança de rua, feita em batalhas e mostrada no filme. “Não me interessa a dança clássica nem a contemporânea”, afirmou ele, aficionado por street dance. Para ele, a “psicose coletiva que se abate sobre seus personagens é a mesma capaz de dominar grupos em situações de guerra ou de manifestações políticas”.

Questionado se usa drogas, Noé afirmou: “As pessoas curiosas provam coisas”. Para logo complementar: “Minha droga principal é o cinema. Vejo filmes todos os dias. Só me viciei também há cinco anos em cigarro. Acho que na vida há que ser curioso, mas precavido”, aconselhou, antes de reforçar: “A maior parte das brigas e da violência estão associadas ao álcool, que é uma droga legalizada. Quando alguém está triste não deve beber”, deu seu segundo conselho.

Sobre a tal frase do filme, que diz que viver é uma impossibilidade coletiva, afirmou acreditar que “também pode ser uma possibilidade coletiva”, mas que “a frase negativa tem mais efeito, como Nietzsche”. Os 23 bailarinos em cena são todos reais, a maioria achado nas batalhas de dança das ruas de Paris, sobretudo na periferia da capital francesa. Um contorcionista camaronês foi achado pela internet e trazido do Congo. Praticamente metade do elenco é negra, reafirmando a diversidade étnica da nova França, já observada pelo mundo na última Copa do Mundo.

O cineasta revelou uma situação divertida com os bailarinos que participam do filme por conta de seu lançamento. “Todos falaram que ficaram muito orgulhosos do resultado final do filme, mas me confessaram que não querem que suas famílias assistam”. Ao responder sobre os apelidos polêmicos que colocam em sua filmografia, Gaspar Noé usou de uma típica ironia argentina: “Por sorte não me trataram de religioso, aí, sim, eu me assusto”.

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