Crítica: Ódio só gera violência, mostra ótima peça uruguaia Lítost

Os atores uruguaios Jimena Vázquez, Gabriela Iribarren e Santiago Duarte em cena da peça “Lítost, la Frustración”, um dos destaques do Mirada 2018 em Santos – Foto: Mauro Martella – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Uma das peças mais marcantes do 5º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado pelo Sesc São Paulo entre 5 e 15 de setembro na Baixada Santista, foi a uruguaia “Lítost, la Frustración”.

Trata-se de um inventido e burilado texto de Jimena Márquez, que também dirige a encenação.

Em foco está uma família disfuncional sob comando doentio de uma mãe, ex-prostituta, defendida com bravura e competência pela excelente atriz Gabriela Iribarren, um furacão cênico.

Gabriela Iribarren em cena da peça uruguaia “Lítost, la Frustración”, destaque no Mirada 2018 – Foto: Mauro Martella – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL


Ela tem dois filhos. O primeiro é um menino com sonhos de dança reprimidos pela mãe homofóbica, interpretado pelo bailarino Santiago Duarte, cujo bailado enérgico e sincopado parece saído de um filme de Fred Astaire.

A segunda é filha defensora do irmão e freudianamente contra a mãe, que maltrata e explora a ambos de forma impiedosa. A garota é interpretada também com desenvoltura por Jimena Vázquez, jovem atriz repleta de potência.

A segura e propositiva direção de Jimena Márquez alivia a crueza da história a todo instante com um olhar humorado para toda aquela desgraça.

E ela consegue isso ao inserir o bailado ardente de Santiago ou propor uma eficiente movimentação cênica das outras duas atrizes, formando sempre um conjunto poético.

Márquez ainda investe em recursos épicos para despir o drama, deixando-o sob análise do público e submetido a ironias do elenco e do próprio texto, abusando do metateatro.

Ódio gera violência

Falando na dramaturgia, ela demonstra ser fruto de farta pesquisa e tem como fio condutor palavras que existem apenas em um idioma.

Palavras estas condensadoras de sentido e que não encontram tradução em outra língua, sendo obsessão da filha como válvula de escape da pesada vida em família.

Uma dessas, e a mais importante das muitas que a peça vai ensinando, é “lítost”, que titula a obra.

Trata-se de palavra checa que traduz alguém que é consciente de sua própria miséria e quer infligi-la também ao outro, como faz a perversa matriarca.

E é claro que tanto ódio exalado acaba por reproduzir mais ódio, que irrompe em forma de violência na peça.

A obra ainda tem figurino propositivo de Gerardo Egea, que também assina a simples e funcional cenografia, que dialoga com a luz pontual de Inés Iglesias e a envolvente trilha de Santiago Duarte.

Gabriela Iribarren, Jimena Vázquez e Santiago Duarte em cena da peça “Lítost, la Frustración”, um dos destaques do Mirada 2018 em Santos – Foto: Mauro Martella – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL


Não sendo desmérito para o espetáculo em si, um detalhe da apresentação da peça no Mirada, contudo, precisa ser observado.

Em uma das cenas cruciais da história, o filho é chamado de “nena”, cuja tradução do espanhol para o português no festival ficou com a inocente palavra “neném”. Mas, na verdade, na peça o xingamento é homofóbico, lançado para o menino que gosta de dançar, tanto que dispara a ira violenta da irmã.

Assim sendo, melhor seria ter traduzido “nena”, neste caso, para “mariquinha”, “bichinha” ou “menininha”, assim o sentido de uma cena tão importante não se perderia. Se a peça tiver futuras apresentações no Brasil, cabe o ajuste.

Idenpendentemente deste pequeno lapso, “Lítost” é uma obra potente que nos deixa com um nó na garganta e cientes de que sem afeto e amor não é possível se construir nada.

Se embarcarmos nessa onda de ódio e vingança, vamos terminar todos sendo uns pobres coitados dignos de pena e lamento.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
“Lítost, la Frustración”
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪

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