Opinião: Queimemos museus, livros, história… Civilização, para quê?

Museu Nacional do Brasil arde em chamas no Rio – Foto: Marcelo Dias – Futura Press – Estadão Conteúdo – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Pobre o país que bota fogo literalmente em sua memória. Ver o Museu Nacional arder em chamas, destruindo boa parte da história do Brasil, é angustiante para qualquer brasileiro com mínimo grau de funcionamento cerebral.

E é também aterrorizantemente metafórico do momento momento histórico que estamos vivendo, com o país à beira de um precipício.

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Precipício este com direito a postulante ao posto de mandatário da nação ganhar mais adeptos à medida que difunde inverdades históricas que aquele mesmo acervo destruído pelas labaredas seria capaz de desmentir.

Em qualquer país civilizado, coisa que o Brasil até pretendeu ser em um dia distante, a destruição de um museu de tal envergadura seria algo inadmissível e imperdoável.

É do tipo de coisa que não poderia ter acontecido jamais, ainda mais após incêndios colossais como o do Museu da Língua Portuguesa, o da Cinemateca Brasileira e o do Memorial da América Latina, só para ficar em três exemplos recentes.

E há, neste caso, agravante ainda maior: o simbólico. O Museu Nacional do Brasil é o símbolo da tentativa de construção de uma civilização brasileira.

Foi a partir de sua fundação, por Dom João VI, em 1808, junto de outras instituições primordiais como o Banco do Brasil, que o país passou a ganhar respeito internacional como nação pensante.

Mas, pelo jeito, parte dos brasileiros parece mesmo querer continuar sendo uma republiqueta na qual um museu não seja instituição que importe.

Com tanta gente ávida por mergulhar o país em um faroeste tropical, museu não deve mesmo fazer falta. Civilização para quê?

Caso a maioria deste país estivesse mesmo interessada em fatos históricos concretos, e não em balelas falaciosas sob forma de retórica de botequim, o Museu Nacional não pegaria fogo assim.

A culpa de sua destruição é de todos nós. De nossas tristes escolhas.

Merecemos ser um povo sem história, um lugar onde mentiras não possam ser refutadas. Afinal cada um por aqui inventa e acredita no que quer de acordo com o que diz seu próprio umbigo. Coerência histórica como a que um museu provoca não é mesmo algo desejável.

É tão metafórico o arder em chamas do Museu Nacional do Brasil que causa arrepios. É como uma premonição de um “Fahrenheit 451” no qual considerável parcela da sociedade brasileira tem sanha por mergulhar.

Então, queimemos nossos arquivos, como Rui Barbosa fez com os documentos da escravidão, queimemos nossos museus, façamos fogueiras com nossos livros, destruamos nossa história. Só assim ela poderá ser mais terrível do que já foi.

Triste Brasil.

Por Miguel Arcanjo Prado

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