Crítica: Selvática expõe pavor do Brasil atual em Cabaret Macchina no FIT

Os aguerridos artistas da Selvática em Cabaret Macchina no FIT Rio Preto: a partir da esquerda: Victor Hugo, Leo Bardo, Semy Monastier, Leonarda Glück, Matheus Henrique, Nina Ribas, Patricia Cipriano, Simone Magalhães e Patricia Saravy – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a São José do Rio Preto (SP)*

Com sede na fria Curitiba, a Casa Selvática aquece corações e mentes com um dos grupos de artistas mais inventivos e libertários da atual safra teatral brasileira, “descobertos” na mídia nacional por este crítico, quando do seu surgimento.

Grupo este de ares cosmopolitas que os transforma em artistas interessantes em qualquer parte do mundo. Poderiam estar em Nova York, Londres, Berlim, Buenos Aires ou Tóquio.

Para a sorte do Brasil, estão em Curitiba, o que torna sua arte de embate ainda mais potente ao expor a crise que assola o país e o pavor diante dos rumos de nossa história.

Cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018: Matheus Henrique, Leo Bardo,  – Foto: Victor Natureza – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Com seis anos de farta trajetória, a Casa Selvática conquistou em 2018 dois trunfos.

O primeiro, integrar pela primeira vez a Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, o maior do Brasil, provando, enfim, que santo de casa faz milagre.

O segundo foi apresentar o mesmo espetáculo, “Cabaret Macchina”, em outro consagrado festival das artes cênicas no Brasil: o FIT Rio Preto, o Festival Internacional de São José do Rio Preto, organizado no interior paulista pelo Sesc São Paulo em parceria com a Prefeitura de São José do Rio Preto, entre 5 e 14 de julho.

A atriz Patricia Cipriano em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

“Cabaret Macchina” trata-se de “uma pós-ópera anti-edipiana da Casa Selvática”, como explica o grupo em seu programa intelectualizado.

E, para o grande público, a peça é uma grande aventura conjunta demolidora do homem de hoje (e suas certezas), figura totalmente mecanizada e reprodutora de discursos prontos.

Victor Hugo e Leonarda Glück em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Essa desconstrução é feita a partir da obra do autor alemão Heiner Müller.

O espetáculo, feito na rua, em Rio Preto ocupou o charmoso, imponente e histórico prédio da antiga fábrica Swift, começando no estacionamento e terminando no imponente galpão Graneleiro, fazendo o público rumar por quase duas horas entre devaneios e revelações assombrosas.

Nina Ribas e Stéfano Belo em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

O “cabaret de rua” proposto pelo grupo reúne artistas interessantes (e interessados) em um conjunto propositadamente caótico, tal qual a vida, sobretudo a de artistas que não fazem o jogo do mainstream.

Neste perambular com o público, os artistas buscam desconstruir a figura mítica do herói, que ainda ilude a tantos, com um humor cáustico e muitas vezes feroz, atacando ainda o clamor pelo militarismo, o crescente discurso de ódio ou a manipulação de massas por fascistas que ressurgem.

E tudo ganha uma verdade absurda. Afinal, aqueles artistas em cena sabem bem do que o desmantelamento da cultura é capaz.

Sofrem na pele a crescente falta de incentivo e verba para produções artísticas, que caminha junto com a demonização do artista por certos setores sociais retrógrados.

Diretor onipresente: Ricardo Nolasco em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Victor Natureza – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Espécie de ativistas da liberdade de ser e de pensar, os integrantes da Casa Selvática são orquestrados pelo inquieto e inventivo Ricardo Nolasco, diretor da nova geração que é herdeiro absoluto de Zé Celso, o grande guru teatral brasileiro, sempre à vanguarda de tudo e de todos.

O espetáculo cutuca temas espinhentos da sociedade brasileira às vésperas de uma eleição definitória, com um texto sofisticado e poético escrito por Francisco Mallmann, Leonarda Glück e Ricardo Nolasco.

As falas, por vezes excessivas em verborragia diante da urgência cênica que pede a rua, ganham acolhida verossímil na boca daqueles artistas inventivos na peça produzida por Cacá Bordini, com direção de movimento de Gabriel Machado e direção musical de Jo Mistinguett.

Simone Magalhães em cena de Cabaret Macchina no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Artistas potentes como Amira Massabki, Cali Ossani, Leo Bardo, Leonarda Glück, Leo Bardo, Matheus Henrique, Nina Ribas, Ricardo Nolasco, Amabilis de Jesus, Semy Monastier e Victor Hugo. E ainda Patricia Cipriano, Patricia Saravy, Stéfano Belo, três grandes atuadores da Selvática, além de Simone Magalhães, cantora que faz o mundo se calar aos seus pés, enquanto artistas sucumbem diante de sua voz soberana, na angustiante cena final.

Onde vamos parar? É a pergunta que fica.

Diante da explosão distópica orquestrada pela Selvática, a resposta parece cada vez mais pavorosa e caótica. Tomara que não.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
“Cabaret Macchina” ✪✪✪✪
Avaliação: Muito bom

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo e FIT Rio Preto.

Patricia Saravy em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Victor Natureza – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Cali Ossani em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Victor Hugo em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Victor Hugo e Stéfano Belo em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Semy Monastier em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Simone Magalhães canta em cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Cena de Cabaret Macchina, da Selvática, no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Os artistas da Selvática com o público de Cabaret Macchina no FIT Rio Preto 2018 – Foto: Vivian Gradela – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

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