Opinião: Ruth Escobar lutou contra a censura, que rosna outra vez

Ruth Escobar, grande nome do teatro brasileiro que morreu nesta quinta (5) aos 82 anos após enfrentar as complicações do mal de Alzheimer nos últimos anos, foi uma incansável combatente da censura às artes. Num país sem memória, muita gente desconhece seus feitos, mas não podem ser esquecidos.

É histórica sua foto em uma passeata contra a censura durante a ditadura militar, marchando ao lado de Eva Wilma, Eva Todor, Leila Diniz, Tonia Carrero, Odete Lara e Norma Bengell. Ruth Escobar, corajosa, muitas vezes enfrentou militares e delegados para defender o teatro no qual acreditava.

O Brasil perde esta artista tão emblemática da história do teatro justamente no momento em que a censura rosna outra vez, querendo destruir obras e artistas em nome de um discurso hipócrita pela “moral e os bons costumes”, mesmo argumento utilizado pela ditadura militar 50 anos atrás para espancar, prender e torturar tanta gente.

Famosos prestam homenagem à atriz Ruth Escobar
Morre aos 82 anos a atriz e produtora Ruth Escobar

Ruth Escobar (1935-2017) – Foto: Divulgação

A menina portuguesa que veio para o Brasil com 15 anos logo tornou-se brasileira por direito e encontrou no teatro sua forma de expressão, fosse em cima dos tablados, como atriz, ou nos bastidores, como produtora incansável ou dona do teatro que até hoje leva seu nome, na rua dos Ingleses, 209, na Bela Vista, em São Paulo, onde seu corpo é velado.

Atualmente o Teatro Ruth Escobar vive uma programação descuidada e que não chega perto da glória e da ousadia artística que Ruth Escobar imprimiu àquele local no passado. Que tal situação atual seja revertida.

O Teatro Ruth Escobar abrigou peças que revolucionaram o teatro brasileiro, sobretudo na década de 1960, como “Cemitério de Automóveis”, de Fernando Arrabal, “O Balcão”, de Jean Genet, além da histórica montagem de “Roda Viva”, com texto de Chico Buarque e direção genial de José Celso Martinez Corrêa, com seu Teatro Oficina, em 1968, que terminou com atores espancados por jovens da extrema direita — tão parecidos com alguns disseminadores do ódio no Brasil contemporâneo.

Ruth sempre se preocupou em criar conexão entre o teatro brasileiro e o melhor dos palcos no mundo todo. O Festival Internacional que criou na década de 1970 trouxe ao Brasil pela primeira vez ícones teatrais como o diretor norte-americano Bob Wilson e o diretor polonês Jerzy Grotowski.

Na década de 1980, foi militar pela cultura na política, com os dois mandados como deputada estadual em São Paulo. Sempre na defesa da liberdade de expressão nas artes e contra qualquer tipo de censura, base do regime democrático pelo qual Ruth Escobar dedicou toda uma vida. Que o Brasil saiba honrar sua memória e seu legado.

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