Além de Chico e Tribalistas, há Luiz Gabriel Lopes em Mana

Luiz Gabriel Lopes – Foto: Chicó do Céu/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Se a volta dos Tribalistas e o novo disco de Chico Buarque sacudiram a velha MPB e seus respectivos amantes nos últimos dias, não podemos deixar passar despercebida a chegada de um novo álbum nesta seara: “Mana”, o terceiro de Luiz Gabriel Lopes.

Nascido no Rio, mineiro de criação e de alma cosmopolita, neste trabalho o músico abandona os excessos da banda Graveola e o Lixo Polifônico, na qual é guitarrista e vocalista, e os arranjos barrocos de seu último disco, “O Fazedor de Rios”, para mergulhar em uma sonoridade simples e potente.

O disco é fruto da andança de Luiz Gabriel Lopes nas estradas latino-americanas, com seu violão dependurado nas costas, em buscas de novas redes e outras músicas. Muitas das 10 canções de “Mana” foram compostas na estrada e conservam este frescor.

Elas evidenciam diálogo farto com a velha MPB, sobretudo aquela produzida na década de 1970, época pela qual Luiz Gabriel Lopes parece ter fixação e tenta reproduzir em um diálogo contemporâneo repleto de nostalgia daquela juventude que veio antes da sua. A começar da capa, com uma mão segurando uma pena, que conversa diretamente com a capa do disco de Paulinho da Viola lançado em 1975, com a mesma mão e a mesma pena.

Mas, o músico também busca dialogar com seu tempo e seu entorno. Prova disso é “1986”, cujo nome remete ao ano em que ele nasceu, o mesmo da passagem do cometa Halley, citado na canção que evoca o discurso — reiterado e ainda hoje distante da prática — em prol da irmandade latino-americana.

Luiz Gabriel Lopes busca conversar com a sonoridade negra, presente em muitas de suas composições, tentando construir um diálogo sonoro pelo caminho do respeito.

É assim que o ijexá domina tudo em “Apologia”, que no álbum conta com participação de Mauricio Pereira — apesar deste crítico preferir a versão mais simplória da canção, aquela lançada no YouTube logo de seu feitio, com Luiz Gabriel Lopes dedilhando seu violão e cantando ao sabor do vento de Milho Verde, oásis idílico nas montanhas do interior mineiro.

Há músicos potentes no álbum, com produção de Lenis Rino: Téo Nicácio, no baixo, Mateus Bahiense, na bateria e percussão, Daniel Pantoja, na flauta de presença marcante e o próprio Luiz Gabriel Lopes, na guitarra, além da voz. Banda coesa e afiada.

O Nordeste vem eletrizante em “Matança”, com o bradar de espécies ceifadas de nossa vegetação desmatada, e profundo em “Cangaço Lírico”.

“Música da Vila” expõe a vida coletiva e utópica juvenil, enquanto que Ceumar faz a segunda participação especial no disco na serena “Quileia”.

A estrada que liga São Paulo e Belo Horizonte, muitas vezes frequentada por Luiz Gabriel Lopes em seus reiterados pedidos de carona — o músico trocou BH pela capital paulista nos últimos anos, sem perder de vez o pé na capital mineira —, surge em “381 Blues”, um papo noturno com o melhor do rock mineiro (e do Clube da Esquina) com participação de Téo Nicácio.

O samba-reggae “Caboclin” evoca o verso de Gilberto Gil no clássico “Refavela” (que completa 40 anos) sobre o “aqui e o agora”.

O disco ainda traz “Yoko”, música não sobre a mulher de John Lennon, mas sobre uma cachorrinha, e termina com “Um Índio”, que toma emprestado o título da canção de Caetano Veloso — referência sempre presente na obra de Luiz Gabriel Lopes — para finalizar o disco com a voz do mato que antecipa o dia, em uma espécie de presságio da chegada do trem caipira.

Mais simples e bonito, impossível. Vá além de Tribalistas e Chico Buarque e ouça Luiz Gabriel Lopes em “Mana”.

“Mana” ✪✪✪✪
Artista: Luiz Gabriel Lopes
Avaliação: Muito Bom
Para baixar: www.lglopes.com
Facebook: Luiz Gabriel Lopes


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