Crítica: Cia. Bruta expõe problemas sociais em Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira

A atriz peruana Marba Goicochea se destaca no elenco de “Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira” – Foto: Giorgio Donofrio

Por Miguel Arcanjo Prado

Assim que o público entra e busca se acomodar, percebe a ternura da atriz peruana Marba Goicochea, brincando com um balão no palco. Até que este é estourado de forma abrupta.

A imagem, poética e ao mesmo tempo violenta, dá o tom que perpassa a peça “Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira”, da Cia. Bruta de Arte.

É como se fosse uma metáfora de nossa civilização brasileira contemporânea, frágil e prestes explodir a cada instante.

O grupo celebra seus dez anos sob direção mais uma vez do sensível Roberto Audio – que comandou com a trupe espetáculos emblemáticos, como “El Truco” (2007) e “Máquina de Dar Certo” (2012).

Na nova obra, os integrantes apostam na própria diversidade que compõe o coletivo teatral para encher de poesia seu discurso sobre memórias e afetos — inclusive os nomes das personagens é uma auto-homenagem aos membros.

A ficção, repleta de elementos pinçados da realidade, se passa na Ilha de Galápagos, no Pacífico, berço da teoria evolucionista de Darwin. É lá que nove amigos se encontram para observar os animais e, por consequência, a si próprios.

Nove atores em uma ilha: “Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira” – Foto: Giorgio Donofrio

Audio acerta, sobretudo, nas cenas sem diálogos, nas quais a encenação cresce com atmosferas oníricas e verdadeiros quadros vivos que parecem saídos de uma tela surrealista.

O apuro estético proposto pela direção casa com a sutil iluminação de Paulo Maeda e os coloridos figurinos de Rosangela Ribeiro, que dialogam também com a sonoplastia pop de Érico Theobaldo, que vai dando o tom das cenas.

O elenco se esforça por buscar uma unidade, mas ainda é irregular nas cenas faladas. Alguns ainda têm o texto preso a velhas fórmulas de se dizer, faltando cadência e ritmo próprios, o que enfraquece sua verdade.

Contudo, há quem imprima vigor a cada palavra dita. Ironicamente, quem mais se sobressai neste quesito é a peruana Marba Goicochea, que exibe uma presença descomunal como atriz, mesclando fragilidade e força em uma mesma figura desconcertante.

Ver Marba dizer seu texto é um alento. Sobretudo quando esta fala da xenofobia, expondo a dureza que é ser estrangeiro e ter seu direito de fala negado ou ignorado a todo instante por conta de um simples sotaque.

A própria peça exemplifica o que diz a atriz, quando, após esta dizer seu discurso mais potente, entra em cena um urso dançarino fazendo estripulias no palco com uma canção pop dos anos 1980, esmagando instantaneamente a tentativa de comunicação da imigrante. A cena, apesar de provocar riso aos menos incautos, é de uma violência aterradora.

Angela Ribeiro contracena com Washington em seu melhor momento na peça – Foto: Giorgio Donofrio

Angela Ribeiro, por sua vez, cresce na cena na qual vive uma jovem assediada por um homem em uma pista de dança. Ao negar-lhe a aproximação, sua personagem é ofendida por este. E revida com toda a fúria do mundo, no melhor momento da atriz na peça, no qual mergulha de cabeça no sentimento que sua personagem exala.

A dramaturgia em trio de Angela Ribeiro, Ana Pereira e Whashington Calegari por vezes soa pretensiosa ao querer abarcar tantos temas importantes em tão pouco tempo.

E, em alguns momentos, por pouco não dá voz ao discurso que quer combater, como na literalidade presente no xingamento proferido pelo chefe da personagem de Teka Romualdo, na cena que pretende expor o racismo estrutural brasileiro — na sessão vista por este crítico, um espectador riu da fala racista, em evidente identificação.

Os melhores momentos da encenação são aqueles nos quais, justamente, as dores individuais se ressignificam em causas maiores e universais, abrindo lugar para um pensamento crítico sobre o racismo, a xenofobia, a homofobia, o machismo e a democracia em frangalhos; temas que estão na pauta do dia da surreal sociedade brasileira contemporânea.

Ainda estão no elenco Ana Lúcia Felippe, Ana Pereira, Fabiana d’Praga, Rodolfo Morais, Wanderley Salgado e Washington Calegari.

“Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira” está em cartaz na SP Escola de Teatro (praça Roosevelt, 210), sábado e segunda, às 21h, e domingo, às 20h, com entrada a R$ 20, até 26 de junho.

“Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira” * * *
Avaliação: Bom

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