Crítica: Refluxo expõe elite cínica e perversa

Patrícia Vilela como Cleide, a dondoca que odeia as ciclofaixas – Foto: Leekyung Kim

Por Miguel Arcanjo Prado

Formado por Antunes Filho, a quem louva, mas não reproduz, o jovem diretor Eric Lenate é daquele tipo que faz questão de carimbar com sua assinatura qualquer peça que chegue às suas mãos. Em “Refluxo”, em cartaz no Teatro do Sesi, em São Paulo, não é diferente.

A obra escrita por Angela Ribeiro apresenta uma crítica ácida e potente à elite, formada, na peça, por pessoas vazias e cínicas, mergulhadas no individualismo e na mediocridade.

As personagens do espetáculo são moradoras de um nobre edifício, cuidado pelo porteiro, a quem, apesar do forte desprezo de classe evidenciado, não deixam em paz.

Dario, o porteiro defendido competentemente por Maurício de Barros, em grande momento no palco como ator, é o fio condutor da obra, juntamente com sua repetitiva ânsia diante de seus patrões. Daí o nome da peça: o refluxo insistente que ele sente ao ter contato com a aquela gente rica e repleta de preconceito e maldade.

Lavínia Pannunzio, Laerte Késsimos e Maurício de Barros em cena de “Refluxo” – Foto: Leekyung Kim

Lenate faz uma direção de proposta estética bem definida, apresentando seu cenário como uma grande instalação. Ele até brinca com o público no começo do espetáculo, colocando a todos em uma espécie de Castelo dos Horrores do extinto parque Playcenter.

Depois, já acomodada, a plateia se vê diante de um grande elevador — uma dica preciosa: não se sente nas cadeiras das pontas de cada fileira, de onde a visão do palco é parcial e é preciso esticar o pescoço para poder acompanhar boa parte do que se passa, sobretudo ao fundo do palco.

Rosângela Ribeiro, nos exuberantes figurinos, e Leopoldo Pacheco, no bem marcado visagismo, são destaques na equipe técnica, bem como a instalação cenográfica do próprio diretor e a iluminação precisa de Aline Santini. Tudo está em diálogo o tempo todo, formando um conjunto final coeso e bem cuidado.

Elenco de “Refluxo” está coeso e bem marcado: mais experientes se destacam – Foto: Leekyung Kim

Lenate aposta em uma encenação na qual brinca com seus atores, como marionetes, exigindo dos mesmos uma prosódia que os aproxima do mundo dos quadrinhos.

Apesar das fortes amarras da direção, o elenco consegue ir além de cumprir as marcações. Os que têm mais estrada no palco se destacam.

Agnes Zuliani, grande atriz, mostra cuidadosa composição da velha Corina, aquela que espera pela visita do filho que nunca vem. Carlos Morelli, por sua vez, rouba a cena a cada aparição com seu espalhafatoso Abreu, o síndico do prédio.

Patricia Vilela, que veste o mais belo figurino da peça, acerta ao expor de forma pungente o desequilíbrio emocional de sua personagem, Cleide, a dondoca que odeia as ciclofaixas.

O elenco ainda tem Lavínia Pannunzio como Diva, uma atormentada cantora decadente, Laerte Késsimos na pele de Túlio, um escritor desempregado de sexualidade dúbia, e os jovens Sheila Faermann e Felipe Ramos, como um casalzinho imaturo sempre em pé de guerra.

Inteligente e desconcertante

Assim como na última peça que dirigiu, “Mantenha Fora do Alcance do Bebê”, há no espetáculo de Lenate um quê das encenações de Bob Wilson, grande diretor estadunidense famoso pelo obsessivo apuro estético.

E “Refluxo” dialoga ainda, de certa forma, com a Trilogia das Pessoas do grupo Os Satyros, de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, ao fazer uma espécie de crônica de certa parcela de moradores da cidade de São Paulo.

“Refluxo” cumpre o papel de expor, de forma sutil e ao mesmo tempo inteligente e desconcertante, como se comporta grande parte de nossa elite. Sobretudo, nos últimos tempos tão sombrios. Este é o grande mérito desta peça.

“Refluxo” * * * 
Avaliação: Bom
Quando: Quarta a sábado, 20h30, domingo, 19h30. 80 min. Até 2/7/2017
Onde: Teatro do Sesi (av. Paulista, 1313, metrô Trianon-Masp, São Paulo)
Quanto: Grátis (reservas pelo site do Sesi)
Classificação etária: 14 anos

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