Há um antes e depois de Que Horas Ela Volta, diz Camila Márdila, no teatro e em série na Globo

Camila Márdila, em cena de “Plano sobre Queda”, no Teatro Poeirinha, no Rio – Foto: Vitor Ebel

Por Miguel Arcanjo Prado

Camila Márdila ficou conhecida ao protagonizar, ao lado de Regina Casé, o premiado filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, em 2015.

No momento, a atriz de 29 anos nascida em Taguatinga (DF) e que estudou comunicação social na Universidade de Brasília encena até 28 de maio, no Rio, a peça “Plano sobre Queda”, que depois fará turnê por São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

A obra dirigida por Miwa Yanagizawa pode ser vista de quinta a sábado, 21h, e domingo, 19, com ingresso a R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), no Teatro Poeirinha (r. São João Batista, 104, Botafogo, Rio, tel. 21 2537-8053).

Camila, que em breve estará em uma série na Globo em parceria com a O2, conversou com o Blog do Arcanjo do UOL sobre teatro, cinema e televisão.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Você acha que pode definir sua carreira como antes e depois de “Que Horas Ela Volta?”
Camila Márdila – Apesar do “Que Horas” fazer parte de toda uma construção de caminho, porque está longe de ter acontecido por acaso, certamente há um antes e depois. Foi o trabalho que me colocou pro mundo, que me trouxe muitos outros trabalhos e me abriu caminhos. Eu saí do contexto: jovem atriz tentando se apresentar para “a menina do filme”, ou “a Jessica”. Mas, principalmente, o filme reforçou em mim uma responsabilidade com o fazer artístico, com o que a gente cria e bota no mundo. Sempre considerei o trabalho do ator um tipo de abertura a vozes outras, e sempre me questionei sobre como realizar esse trabalho sem me colocar num lugar de dona-representante dessa voz, sempre quis encontrar caminhos para que o espectador se colasse lado a lado com as personagens, com a história, que ele seja sempre tão dono dela quanto eu e, assim, sinta que pode colocar ali seus medos, suas angústias, seus sentimentos, suas alegrias. Construir histórias juntos; sempre achei que essa é a potência política transformadora do nosso trabalho.

Camila Márdila e Regina Casé no premiado filme “Que Horas Ela Volta?”: “Há um antes e depois”, diz atriz – Foto: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – No segundo semestre você fará a minissérie “13 Dias Longe do Sol” na Globo?
Camila Márdila – Na verdade a minissérie ainda não tem data de estreia. É uma produção da O2 Filmes para a Globo. Na história, um prédio em construção desaba durante uma chuva e alguma pessoas ficam soterradas, e a Yasmin, minha personagem, é uma delas. No núcleo somos eu, Selton Mello, Carolina Dieckman e mais seis atores incríveis, a maioria em seu primeiro trabalho na TV, que interpretam os operários da obra. A Yasmin está grávida e ao visitar o pai, mestre de obras da construção, essa tragédia acontece. Seu instinto de sobrevivência e de maternidade são colocados à prova nessa perigosa e desesperadora situação-limite. É uma série repleta de personagens muito instigantes, questões morais pertinentes e muita emoção!

Miguel Arcanjo Prado – Na peça, você faz uma garçonete que fica próxima de uma mulher que está prestes a morrer. Sua personagem é considerada para substituir a morta em seu papel de esposa. Já se imaginou em uma situação assim? O que faria?
Camila Márdila – Um dia desses soube de uma matéria no New York Times sobre uma mulher que procurava alguém para “substituí-la”, porque ela sabia que em breve poderia morrer. No “Plano sobre Queda”, essa premissa se coloca como uma possibilidade, uma hipótese. É como se durante toda a peça a gente fosse levantando diversos: “e se isso… e se aquilo”, e assim vamos construindo histórias possíveis junto do público. A ideia de que alguém a substitua no papel de mãe e esposa depois de sua morte é uma espécie de gesto amoroso de quem considera muito o outro, aquele que fica, e que vê em outro alguém uma possibilidade de continuar existindo – não por semelhança e continuidade, mas principalmente pela diferença: as personagens Cléo e Isabela vêm o mundo e a vida de maneiras distintas, e isso as faz criarem um laço muito forte. É uma peça sobre encontros, sobre a potência do encontro com o outro, com o diferente, e mais que isso, sobre o apaixonar-se verdadeiramente, se interessar pelo universo do outro – algo que acredito ser extremamente revolucionário em tempos de polaridades estéreis.

Miguel Arcanjo Prado –  Como lida com o trânsito entre cinema, teatro e TV?
Camila Márdila – Ter a oportunidade hoje de transitar por todas essas linguagens é um privilégio que me esforço para estar à altura: o desejo de tirar proveito e conhecimento de todas as experiências que me chegam, digamos que é algo que me guia na vida. Sou apaixonada pelo cinema, e gosto cada vez mais do que a TV tem se proposto a fazer, além de até agora ter me envolvido em projetos particularmente especiais em seu formato. Mas o teatro é meu lugar de estudo, e é aí que me encontro, é aí que retorno a mim, é onde consigo me perceber em relação ao mundo, flagrar dificuldades e lugares-comuns de trabalho, quebrar a cabeça pra renovar o pensamento, para tentar dizer o que precisa ser dito, enfim, é o que me dá sustento pra dar conta da vida.

Camila Márdila, Liliane Rovaris e Breno Nina na peça “Plano sobre Queda” – Foto: Alexandre Nunis

Miguel Arcanjo Prado – Qual a importância de fazer arte no Brasil em tempos tão sombrios?
Camila Márdila – Diante dessa nuvem negra que paira sobre nosso país e sobre nós, a arte assume ainda mais um lugar de resistência. Esses tempos sombrios são instaurados com o objetivo claro de nos enfraquecer enquanto sociedade, de nos fazer sentir órfãos, despertencidos, perdidos, desamparados, sem lugar no mundo. A importância e a responsabilidade da arte nesse cenário é construir identidade, nos fazer sentir parte de alguma coisa, confirmar nossa presença no mundo, já que todo o resto quer fazer a gente se sentir bem insignificante e pequenininho. Tem uma fala na peça “A Comédia Latino-americana”, dirigida por Felipe Hirsch, que diz: “Nós somos do tamanho do inimigo que decidimos combater”, e assim eu diria que se por um lado a opressão aumenta, por outro, a arte tem a força de nos agigantar, de nos fazer sentir do tamanho que a gente quiser ter.

Miguel Arcanjo Prado – Falando nisso, você estava no elenco do mais recente projeto de Felipe Hirsch, Tragédia e Comédia latino-Americana e foi com o elenco para apresentações na Europa. Como foi a recepção do público de lá?
Camila Márdila – Acredito que quanto mais produzimos obras pertinentes a nós mesmos, mais nos tornamos próximos de qualquer público de qualquer lugar do mundo. “A Tragédia e a Comédia” são espetáculos que resultam de uma intensa pesquisa sobre a literatura latino-americana, é uma imersão na nossa história e de nossos vizinhos/parentes. O público alemão e português, os dois lugares onde estivemos, foi extremamente atencioso e curioso ao que estávamos apresentando ali: cenas (corpos, vozes, músicas, cenário) que manifestam o tempo todo – e não teria como ser diferente – a complexidade de nossa formação histórica-social de colonizados e colonizadores. Foi uma experiência muito instigante para ambos os lados, sem dúvidas.

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