Crítica: Desespero da Geração Y é a força da peça “Y-Control” em SP

Marco Biglia, Francine Kliemann e Sofia Boito em "Y-Control" - Foto: Karina Sato

Marco Biglia, Francine Kliemann e Sofia Boito em “Y-Control” – Foto: Karina Sato

Por Miguel Arcanjo Prado

Os grandes avanços tecnológicos serviram para movimentar de forma vertiginosa a infância e a adolescência da Geração Y, criada para “vencer na vida”. Contudo, quando veio a vida adulta, parece que a felicidade faltou no pacote, dando lugar ao desespero provocado pelo vazio existencial diante da vida digital fabricada. Este é o recado potente da peça “Y-Control”, em cartaz em São Paulo com o Coletivo V.AG.A.

O conceito Geração Y corresponde àqueles nascidos entre as décadas de 1980 e 1990 (ou a partir de meados das décadas de 1970, segundo alguns sociólogos). Gente que viu, como nenhum de seus antepassados, uma verdadeira revolução nos meios de comunicação e de interação humana. Gente que nasceu nos tempos das fichas telefônicas e hoje está mergulhada nos áudios que não param de chegar no WhatsApp ou nas curtidas efêmeras naquela foto postada no Facebook.

Em “Y-Control”, vemos jovens nascidos no século passado perdidos e apáticos (ou desesperados?) diante da realidade medíocre de suas vidas no século atual. Esperavam que tudo houvesse sido bem mais interessante. Afinal, foram criados com altas doses de expectativas.

Ar futurista: lâmpadas frias reforçam desespero de uma geração - Foto: Karina Sato

Ar futurista: lâmpadas frias reforçam desespero de uma geração – Foto: Karina Sato

Mauricio Perussi faz uma direção criativa e segura, criando estados de desolação com o auxílio de uma instigante trilha também assinada por ele. A luz fria das lâmpadas fluorescentes do cenário e iluminação de Camille Laurent mantém os personagens despertos, mesmo que estes busquem descanso de suas vidas.

Tal iluminação, bem como os figurinos assinados por Karina Sato, criam o ar futurista que pede a dramaturgia de Denise Schnyder. Afinal, vivemos no futuro de nossas infâncias e o esperado anos 2000 já caminha para o fim de sua segunda década, por mais que isso assuste aqueles criados entre videogames e discmans.

Ficção científica ou realidade?

A obra escrita por Schnyder busca na ficção científica a metáfora para retratar o mundo pasteurizado (e cruel) que a humanidade inventou para si: na obra, a Terra está prestes a entrar em uma era na qual 300 satélites refletores vão impedir a existência da noite, criando o “Eterno Entardecer”. Com isso, grandes corporações obrigarão a humanidade a produzir sem descanso.

Nada muito diferente do que querem alguns políticos e poderosos brasileiros, que chegaram a dar como exemplo plausível uma jornada de trabalho de 80 horas semanais. Viver para quê? E este é o maior mérito da peça: expor o insustentável de ideias desumanas como esta.

As atrizes Francine Kliemann e Sofia Boito se destacam com atuações precisas e impactantes, como duas jovens que sucumbem diante de tamanha pressão. O rapaz vivido por Marco Biglia, que completa o elenco, representa aquele que prefere deixar a ética de lado em troca de se dar bem a qualquer preço.

Ver “Y Control” é constatar que a geração criada para “vencer na vida” acabou se dando conta de que ser um “perdedor” pode não ser algo tão ruim assim. Talvez possa até ser uma saída. Num mundo de valores deturpados, o que é “vencer”? Até porque, para “vencer”, muitas vezes, é preciso abrir mão do melhor do que se tem: ser humano.

“Y-Control” * * * *
Avaliação: Muito bom
Quando: Terça, quarta e quinta, 21h. 70 min. Até 25/8/2016
Onde: Oficina Cultural Oswald de Andrade – R. Três Rios, 363, Bom Retiro, metrô Tiradentes, São Paulo, tel. 11 3222-2662
Quanto: Grátis
Classificação etária: 16 anos

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