Opinião: Sábato Magaldi nos ensinou que teatro é para se pensar um país

O crítico Sábato Magaldi - Foto: Bob Sousa

O crítico Sábato Magaldi – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado

O jornalista, crítico teatral, professor e escritor Sábato Magaldi, que morreu nesta quinta (14), aos 89 anos, foi um dos maiores pensadores do teatro brasileiro. Além disso, era um mineiro de Belo Horizonte em terras paulistanas. Talvez, por vir das alterosas, tivesse um olhar tão matuto, generoso e preciso para os palcos, olhar este que fez dele um dos inquestionáveis nomes da cobertura, da crítica e do pensamento sobre o teatro brasileiro moderno. É assim que ele entra para a história. É o legado que deixa.

Para este colunista, que todavia dá os primeiros passos em um caminho de pensamento teatral, é impossível não ter Sábato Magaldi como referência primordial. Afinal, viemos da mesma Belo Horizonte (e da mesma UFMG) para uma São Paulo na qual o teatro nos provocou e nos abraçou.

A relação entre o teatro e a imprensa sempre foi importante e impulsionadora do pensamento sobre o país. Além de Sábato, outros nomes como Décio de Almeida Prado, Alberto Guzik e, mais recentemente, Kil Abreu, de quem também sou discípulo e que o definiu como o último grande crítico do teatro moderno brasileiro, comprovam este diálogo tão caro não só aos palcos como à nossa sociedade.

Viveu o teatro de seu tempo

Magaldi viveu, como ninguém, o teatro de seu tempo. Coube a ele ser testemunha ocular de momentos cruciais do teatro brasileiro moderno, seja como repórter e mais tarde como crítico e intelectual dos palcos e de seus bastidores. Basta ler o livro “Amor ao Teatro”, com sua obra, lançado em 2015 pelas Edições Sesc, para certificar-se. Título mais apropriado não há. Esta lição ele nos deixa. Para falar sobre teatro, é preciso vivenciá-lo. Não há truques nesta área. Há presença.

Magaldi realmente amou cada detalhe de nosso palco e dedicou a ele toda sua vida. Explicou a genialidade de Nelson Rodrigues quando ainda poucos compreendiam aquele que viria a ser nosso maior dramaturgo. Soube integrar o que estava na cena à vida cotidiana de um país que ainda procurava uma identidade.

Generoso com os colegas

E era generoso ao compartilhar seu conhecimento e suas honrarias. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 25 de julho de 1995, Magaldi disse: “Entendi, também, que e a eventual escolha de meu nome representaria a primeira homenagem da Academia àqueles que se dedicam precipuamente à tarefa de críticos e historiadores de Teatro e com eles compartilho a honra que me foi conferida”. Era de uma extrema elegância mineira.

Magaldi foi ainda nome crucial da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), mais importante entidade de crítica do Brasil com seus 60 anos de trajetória e da qual ele foi presidente. Por isso, quando este colunista teve a honra de assumir o posto de vice-presidente desta renomada instituição, ao lado do atual presidente José Henrique Fabre Rolim, Sábato Magaldi não deixou de estar em minha mente, como um norte crucial.

A falta de Sábato Magaldi deixa um buraco enorme para o teatro brasileiro, mas, a grandiosa obra que deixou a todos nós sempre atenuará esta reticente saudade. Com ele aprendemos que o teatro é, antes de tudo, para se pensar um país. Que bom.

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