Opinião: Hector Babenco uniu Brasil e Argentina no cinema com olhar crítico

O cineasta Hector Babenco em 2015- Foto: Junior Lago/UOL

O cineasta Hector Babenco em 2015- Foto: Junior Lago/UOL

Por Miguel Arcanjo Prado

O cineasta Hector Babenco, que morreu nesta quarta (13), aos 70 anos, de parada cardíaca, em São Paulo, representava uma simbiose artística perfeita entre dois países irmãos: Argentina e Brasil. Onde muitos enxergam rivalidade, ele provava existir complementaridade com sua própria arte e modo de pensá-la. Sabedor disso, definia-se como um brasileiro que nasceu na Argentina.

Foi assim em “O Beijo da Mulher Aranha”, seu filme de maior sucesso internacional, de 1985, no qual a brasileiríssima Sônia Braga embarcava na história criada pelo argentino Manuel Puig. E a mistura deu certo. Foi o primeiro diretor latino-americano a ser indicado ao Oscar. Com tamanho reconhecimento, dirigiu depois, em 1987, as lendas Jack Nicholson e Meryl Streep na pele de dois alcoólatras em “Estranhos na Mesma Cidade”, ambos indicados ao Oscar.

Por ter conquistado Hollywood, Babenco manteve ao longo da carreira uma obsessão em fazer com que seus filmes fossem vistos pelo mercado internacional, que chegassem aos grandes festivais do mundo.

Seu último filme, “Meu Amigo Hindu”, todo falado em inglês e protagonizado pelo norte-americano Willen Dafoe, foi mais uma prova deste desejo. O protagonista, um cineasta à beira da morte, espécie de alterego de Babenco, foi sua grande despedida nas telonas, com direito a uma cena tocante de Bárbara Paz, sua última mulher, dançando seminua para sua lente, num adeus imortalizado na telona.

Hector Babenco, Bárbara Paz e Willen Dafoe em SP, em 2016 - Foto: Luciana Prezia

Hector Babenco, Bárbara Paz e Willen Dafoe em SP, em 2016 – Foto: Luciana Prezia

Como bom argentino, Babenco sempre foi um homem que não temia expor suas opiniões. Fazia severas críticas à forma de se produzir cinema no Brasil. Achava que faltava competitividade, que ter um currículo como o dele não valia muita coisa nos editais por aqui. Dizia que filmes falados em português não conseguiam mercado internacional. E que o Brasil precisava preocupar-se expandir o horizonte de seu cinema.

Filho de judeus de origem ucraniana radicados na Argentina, ele nasceu no balneário argentino de Mar Del Plata, onde passou sua infância entre os verões aborrotados de gente e os melancólicos invernos de vazio completo.

Aos 18 anos, como não quis servir ao Exército da Argentina, fugiu de navio e decidiu morar no Brasil. Em São Paulo, onde se fixou, foi conseguindo variados empregos, enquanto embalava o sonho de ser cineasta.

Sua porta de entrada no cinema foi um curta foi sobre o Masp, quando, aos 21 anos, ficou impressionado com a arquitetura de Lina Bo Bardi. Foi ele mesmo quem entrou no prédio e pediu para fazer o filme.

Depois, fez o documentário “O Fabuloso Fittipaldi”, sobre o famoso corredor. O primeiro longa veio em 1975, “O Rei da Noite”, seguido de “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, inspirado em um assaltante de banco real. O filme também marcou sua naturalização como brasileiro.

Cena antológica de Pixote: A Lei do Mais Fraco - Foto: Divulgação

Cena antológica de Pixote: A Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco – Foto: Divulgação

Mas a consagração viria com o olhar crítico social que imprimiu em “Pixote: A Lei do Mais Fraco”, filme de 1981 inspirado por uma visita sua à Febem, e protagonizado por um garoto de então oito anos, Fernando Ramos da Silva (que foi assassinado pela polícia dez anos depois), que contracenava com uma visceral Marília Pêra na pele de uma inesquecível prostituta. Na cena antológica em que ela amamenta o menino entrou para a história do cinema.

Apesar de ter feito o Brasil seu lar, Babenco jamais esqueceu sua Argentina. Uniu os dois países em “Coração Iluminado”, de 1998, sobre um homem que retornava a Buenos Aires após 20 anos de ausência, por conta da doença de seu pai. O protagonista, mais uma vez, era um pouco dele mesmo.

Ao sofrer de câncer e ser tratado pelo médico Dráuzio Varella, que na época trabalhava no Carandiru, se inspirou nas conversas com o amigo para o filme “Carandiru”, baseado no livro “Estação Carandiru”, escrito por Varella, denunciando mundialmente com seu cinema o massacre que ocorreu na prisão. Mais uma vez, conquistou o mundo e foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França.

Com seu olhar argentino para as mazelas do Brasil, Babenco imprimiu uma crítica social contundente em seu cinema, reconhecido em todo o mundo e que fez dele um dos mais importantes cineastas da América Latina. Apesar do forte discurso de seu cinema, nunca gostou de se envolver com política ou partidos. Preferia a política de seu cinema, onde enfrentava a injustiça social tão comum abaixo do Equador. Seja no Brasil ou na Argentina.

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