Com 15 mil pessoas, 11ª CineOP pede preservação do cinema brasileiro

Público assiste a filme na Praça Tiradentes na 11ª CineOP - Foto: Leo Lara

Público assiste a filme na praça Tiradentes na 11ª CineOP, em Ouro Preto – Foto: Leo Lara

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Ouro Preto (MG)*

Nem o frio noturno abaixo dos 10º afugentou o público da 11ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, realizada entre 22 e 27 de junho e que teve público de 15 mil pessoas.

Muitos moradores e turistas da charmosa cidade história mineira, que é Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, resistiram ao vento gelado, inclusive nas sessões ao ar livre na praça Tiradentes.

Os mais friorentos preferiram as sessões no Cine Vila Rica, cujo anúncio de restauração foi anunciado pela parceria entre a Universo Produção e a UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), representada pelo reitor Marcone Souza.

Preservação do cinema: participantes da 11ª CineOP - Foto: Leo Lara

Pela preservação do nosso audiovisual: participantes da 11ª CineOP – Foto: Leo Lara

Foram 92 filmes exibidos gratuitamente em mais de cem horas de programação. Além do público, 150 convidados perambularam pelas ladeiras históricas e participaram de 22 debates em seis dias cujo maior foco era encontrar soluções para a preservação de nosso audiovisual.

“O principal marco desta edição, que considero histórico, é a entrega do Plano Nacional de Preservação, um sonho desde que a CineOP começou, em 2006, e que foi construído ao longo destas últimas 11 edições em um esforço conjunto de profissionais do setor. É um grande documento a serviço da nossa história, da nossa memória”, definiu ao Blog do Arcanjo do UOL a coordenadora geral da CineOP, Raquel Hallak.

Fernanda Hallak, Quintino Vargas, Raquel Hallak e Marcone Souza - Foto: Jackson Romanelli

Fernanda Hallak, Quintino Vargas, Raquel Hallak e Marcone Souza – Foto: Jackson Romanelli

O audiovisual feito na televisão também foi foco da CineOP, com representantes de arquivos das emissoras discutindo como preservá-los. Parcerias entre o cinema e a TV também foram debatidas. Ana Gabriela Lopes, diretora de produção que cuida dos seriados da Globo, afirmou que a emissora está interessada em fazer a ponte com parceiros em outras plataformas.

“A Globo, como produtora de audiovisual brasileiro, sempre se preocupou em ter uma relação com o mercado. Com o avanço da tecnologia essa possibilidade fica mais concreta. Hoje, a gente pode ter o mesmo conteúdo ou conteúdos vinculados nas mais diversas plataformas. Temos projetos que nascem de forma diferente. Há projetos que são desenvolvidos para a televisão e que depois viram um roteiro para o cinema, há outros que nascem para o cinema e depois disso viram uma série para a televisão. E há projetos que já nascem híbridos”, afirmou Ana Gabriela.

Diferentemente de outros festivais que apostam em novidade, na CineOP o foco é enxergar a sétima arte como patrimônio histórico. Assim, une cinema à educação e à memória.

O cineasta João Batista de Andrade em Ouro Preto - Foto: Leo Lara

Cinema político: o cineasta João Batista de Andrade, em Ouro Preto – Foto: Leo Lara

Gente importante do audiovisual brasileiro deu as caras em Ouro Preto. Como os cineastas João Batista de Andrade, que foi homenageado na Mostra Histórica com a exibição de seu longa “A Próxima Vítima”, de 1983, com Antonio Fagundes, Mayara Magri, Gianfrancesco Guarnieri e Louise Cardoso. O longa arrancou aplausos fortes do público e deixou emocionado o cineasta, que saiu da sessão com lágrimas nos olhos.

“Sempre tive uma visão muito política no meu cinema. Percebi aqui que tem muito jovem que está a fim de enfrentar o país de agora, e parar de idealizar o que foi a ditadura. O meu cinema tem sido citado, como um cinema feito na hora. ‘A Próxima Vítima’ foi um filme feito a quente, a ficção foi feita em cima do momento, nas eleições de 1982, que ajudaram a empurrar a ditadura. Muita gente me pergunta como criar uma ficção que reflita o Brasil de agora. Às vezes o governo se nega a fazer coisas boas para a gente, mas nos dá muito assunto”, afirmou Andrade. A abertura da CineOP teve gritos de “Fora Temer” na plateia.

João Moreira Salles apareceu para falar de Eduardo Coutinho, homenageado em Ouro Preto ao lado do restaurador Chico Moreira. Curtas também fizeram sucesso entre o público, como o paulista “A Bolsa”, de Deborah Perrota, Jason Tadeu e Marcela Cardoso, com atuação visceral de Gilda Nomacce, e o bem fotografado curta cearense “O Homem que Virou Armário”, de Marcelo Ikeda, com Andréia Pires e Rômulo Braga.

Homenageado: Carlos Miranda, O Vigilante Rodoviário - Foto: Leo Lara

Herói da TV Tupi: Carlos Miranda, O Vigilante Rodoviário, foi celebrado na CineOP – Foto: Leo Lara

Outro que causou furor em sua passagem pela antiga Vila Rica foi Carlos Miranda, O Vigilante Rodoviário, primeiro herói nacional da célebre série exibida pela extinta TV Tupi na década de 1960. O público foi ao delírio vendo os antigos episódios do programa, sobretudo os mais velhos. O episódio que mais chamou a atenção do público foi um gravado em Ouro Preto, no qual o policial rodoviário resolve o roubo de uma obra de arte de Aleijadinho com a ajuda de seu inseparável amigo, o cão Lobo.

A CineOP abrigou ainda o 11º Seminário do Cinema Brasileiro: Fatos e Memória, o Encontro Nacional de Arquivos e o Encontro da Educação: 8º Fórum da Rede Kino. Ao fim, a (ABPA) Associação Brasileira de Preservação Audiovisual também votou nova diretoria, que passa ao comando do presidente Carlos Roberto Rodrigues de Souza e da vice-presidente Paloma de Melo e Silva Rocha. E os participantes da CineOP elaboraram a já tradicional Carta de Ouro Preto, com o Plano Nacional de Preservação, que será entregue às autoridades públicas, para que seja analisado e vire lei, como esperam os profissionais do audiovisual que participaram do encontro.

Marcelo Veronez é filmado pelo cineasta Pola Ribeiro no show na CineOP - Foto: Jackson Romanelli

Cantor Marcelo Veronez é filmado pelo cineasta Pola Ribeiro no show na CineOP – Foto: Jackson Romanelli

Mas, nem só de cinema viveu a CineOP. As noites do festival foram movimentadas com shows no Galpão Cine Bar do Centro de Convenções. Os DJs Rafael, Belezazu e Hellthon animaram a pista, assim como as festas Transa e Trambique. No palco, subiram as bandas Galanga, Los Gregórios, 7 Estrelo e Candonguêro.

Mas o que marcou definitivamente o palco foi o cantor Marcelo Veronez, que fez com sua banda o melhor show da CineOP, “Não Sou Nenhum Roberto”, com músicas de Roberto e Erasmo Carlos em versão roqueira. Na pista, em simbiose com o artista, o público cinéfilo nem lembrou que lá fora os termômetros ouro-pretanos marcavam 9ºC, de tão quente que tudo ficou.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite da CineOP.

CineOP torna Ouro Preto capital da preservação do cinema brasileiro - Foto: Leo Lara

CineOP torna Ouro Preto capital da preservação do cinema brasileiro – Foto: Leo Lara

 

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