Juan Pablo Galimberti, da argentina Cia La China, celebra estreia no Brasil na Miacena: ‘Temos de estar mais juntos, não separados’

O diretor e dramaturgo argentino Juan Pablo Galimberti celebra sucesso da peça La Gravedad de las Burbujas na 3ª MIACENA em São Paulo © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Após subir os degraus da Casa Farofa, espaço cultural na rua Treze de Maio, 240, em pleno coração da Bela Vista, bairro pulsante da região central de São Paulo, me deparo com o espanhol argentino sendo falado por um grupo de artistas. São os integrantes da companhia La China, abrigada no centro cultural homônimo em Buenos Aires, no bairro portenho La Paternal. Eles preparam a segunda das três sessões da peça La Gravedad de las Burbujas, sob direção de dramaturgia de Juan Pablo Galimberti, no marco da terceira MIACENA – Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos. A última é neste sábado, 20h, encerrando a programação do festival sob idealização de André Acioli e Dani Angelotti, que teve 50 atrações gratuitas em 19 espaços paulistanos, sendo parte da Jornada do Patrimônio da Prefeitura de São Paulo. Enquanto montam a cenografia, comem jabuticabas recém compradas no Mercadão de São Paulo, em um passeio turístico que fizeram durante a tarde. O ator Juan Francisco Chapur me oferece a saborosa fruta. Pergunto se há delas na Argentina, ele responde que não e que está encantado com o doce sabor brasileiro. Essa poderia ser a síntese destes idílicos dias do grupo argentino em São Paulo. Estão no elenco Juan Pablo Galimberti, Sol Kohanoff, Juan Francisco Chapur, Pablo dos Reis, Catriel Kucharczuk, Luciana Vitale e Franco Moix, além da produtora Carola Parra e do sonoplasta Jeronimo Speciali.

Miguel Arcanjo mostra bastidores dos argentinos da peça La Gravedad de las Burbujas na MIACENA em São Paulo

La China Casa Cultural em Buenos Aires

Logo, o encenador e dramaturgo argentino Juan Pablo Galimberti se aproxima e se acomoda para nossa rápida conversa antes do começo da apresentação. A atmosfera do espaço, uma espécie de casarão tomado pela arte, dialoga intimamente com as raízes de sua gestação artística. “La China é uma casa onde acontecem diferentes peças. É a minha casa. Tem uma cozinha, é uma arquitetura típica de Buenos Aires conhecida como casa chorizo, na qual um único corredor articula os cômodos que se abrem para o pátio”, revela o diretor, estabelecendo um paralelo imediato com o ambiente paulistano que o acolhe.

Ópera sinfônica do cotidiano

Construída com o vigor dos processos de imersão prolongada, a montagem que atravessa fronteiras carrega uma gestação meticulosa. “A peça já tem quatro anos. Surgiu primeiro pelo texto, pela escrita, e depois, durante a pandemia, comecei a prová-la e no pós-pandemia”, relata Galimberti. A estrutura dramática assenta-se em uma urdidura espacial intrincada e ambiciosa. “Trata-se de uma obra em que quatro histórias acontecem ao mesmo tempo, mas em espaços diferentes, convivendo no mesmo território cênico. O fato de essas narrativas coexistirem sem se verem gera quase uma ópera, uma ópera sinfônica do cotidiano”, define. Para viabilizar esse mecanismo, o diretor recorreu a uma estratégia de criação quase clandestina com seus intérpretes: “Trabalhei por duplas separadas e cada uma pensava que era a própria peça. Quando as juntei, elas competiam para ser a obra, até entenderem que o espetáculo era algo maior do que a situação individual que atuavam. Eu sempre fui direto, eles sabiam, mas não acreditavam em mim”, diverte-se, ao recordar o jogo de bastidores.

“Base do teatro argentino é o teatro off”

Suas convicções sobre a linguagem cênica expandem-se à medida que a conversa mergulha nas idiossincrasias do teatro de pesquisa contemporâneo. Ao comentar o circuito independente e sua relação com os palcos institucionais e comerciais, Galimberti delineia uma cartografia precisa do fazer teatral em sua terra natal. “O teatro argentino está muito vivo. Sua base forte é o teatro off. Na atualidade, as pessoas que estão no circuito comercial ou no oficial e que constroem o teatro argentino passaram pelo off e deram esse salto para viver concretamente de montar obras. O teatro está vivo no off porque ali estão as perguntas; no comercial e no oficial precisa haver respostas.”

“Posturas detestáveis que põem em perigo o teatro”

Essa contínua inquietação artística não está imune às fissuras sociais e políticas que atravessam a América Latina. O encenador não esquiva o olhar diante da dura realidade socioeconômica de seu país sob a atual conjuntura política. “O teatro argentino atravessa um momento horrível, muito complicado, principalmente pela forma de ver o mundo que têm os nossos representantes eleitos na democracia. São posturas detestáveis, que põem em perigo não apenas o teatro, mas a sociedade inteira. A classe média está cada vez mais espremida e um dos grandes problemas atuais é o endividamento: há cerca de seis milhões de pessoas endividadas que não conseguem pagar suas dívidas. Quando um país não pode se projetar, não pode deixar de olhar o dia a dia”, adverte.

“Miacena faz ocupação poética dos espaços urbanos”

Em contrapartida à aridez dos tempos argentinos atuais, a experiência paulistana surge como um alento de vitalidade e intercâmbio. Encantado com a escala e o vigor da capital paulista, Galimberti enxerga na mostra MIACENA uma oportunidade de ocupação poética dos territórios urbanos. “São Paulo é gigante, muito viva. Sinto essa sensação de portas abertas. Entender os espaços, conhecê-los e, a partir daí, ver como o próprio espaço dá sentido, é o que vai crescer cada vez mais. Se a partir do cotidiano podemos irromper com o teatro e torná-lo extraordinário, acredito que ainda podemos ter resistência”, pontua.

“Estamos organizando um beijo coletivo entre argentinos e brasileiros”

Diante das polêmicas virtuais recentes que rivalizaram Brasil e Argentina durante a Copa do Mundo e ruídos que por vezes tentam distanciar as duas nações, o diretor encerra o encontro propondo uma poética de aproximação afetuosa. “Tenho uma amiga com quem estamos organizando um beijo coletivo entre argentinos e brasileiros. Essa é a minha opinião sobre isso. Temos muitas similaridades na forma como vemos o mundo. Temos que estar mais juntos, não separados”, conclui.

LA GRAVEDAD DE LAS BURBUJAS (La China, Argentina) na MIACENA
Última sessão neste sábado, 22 de agosto, 20h, na Casa Farofa – Rua Treze de Maio, 240, Bela Vista, São Paulo. Grátis.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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