Oh Abre Alas – Festival Nacional de Teatro de Rua de Perdões chega à terceira edição: “São os moradores que realizam”, diz Bruno Costa

Bruno Costa, da Mundo Cênico, dirige o Oh Abre Alas – Festival Nacional de Teatro de Rua de Perdões em Minas Gerais © Gabriel Mesquita e Fernanda Penoni Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Enviado especial a Perdões, Minas Gerais*

O Centro Histórico de Perdões, em Minas Gerais, torna-se o palco da 3ª edição do OH ABRE ALAS – Festival Nacional de Teatro de Rua de Perdões, realizada de 31 de julho a 02 de agosto de 2026. Idealizado e produzido pela Mundo Cênico, o evento gratuito promove um circuito cultural dinâmico em praças, igrejas e casarões, promovendo a democratização do acesso à arte com acessibilidade universal, incluindo intérpretes de Libras e assentos preferenciais. À frente da iniciativa está Bruno Costa, bacharel em teatro pela UFSJ e gestor cultural da Mundo Cênico, que reflete sobre o papel da celebração na descentralização da arte e na integração entre a comunidade local e o cenário cênico nacional. Em entrevista exclusiva a Miguel Arcanjo Prado, o idealizador detalha a trajetória e as conquistas do evento mineiro.

Miguel Arcanjo Prado – Como surgiu a ideia de criar o festival?
Bruno Costa –
A Mundo Cênico nasceu em 2018. E, com ela, nasceu também uma inquietação: víamos crescer em Perdões o desejo pela arte, formávamos novos artistas, mas tínhamos poucas oportunidades de encontrar o teatro como espectadores. Pensamos em levar todos até Belo Horizonte, mas logo percebemos que era impossível colocar tanta gente na estrada. Então fizemos o caminho inverso. Em vez de levar o público ao teatro, trouxemos o teatro ao encontro do público. E foi desse gesto, tão simples quanto necessário, que nasceu o festival.

Miguel Arcanjo Prado – Como você vê a evolução do evento nestas três edições?
Bruno Costa –
Todo começo é uma semente. O nosso também foi. O festival nasceu pequeno, mas já carregava uma estrutura sólida e um desejo muito claro de permanência. Os grupos voltaram, novos grupos chegaram e a programação foi encontrando novos caminhos. Hoje, além dos espetáculos, abrimos espaço para a formação, para o diálogo e para a partilha dos processos criativos. O festival cresce porque tem gente interessada em participar.

Bruno Costa e a equipe da Mundo Cênico, realizadores do Oh Abre Alas – Festival Nacional de Teatro de Rua de Perdões em Minas Gerais © Gabriel Mesquita e Fernanda Penoni Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Como é a participação dos moradores de Perdões no evento?
Bruno Costa –
É a parte que mais me emociona. Durante o festival, a praça deixa de ser apenas um lugar de passagem e se torna um lugar de encontro. Encontramos famílias inteiras, antigos professores, comerciantes, vizinhos, crianças correndo entre um espetáculo e outro. Mas talvez o mais bonito seja perceber que o morador de Perdões não ocupa apenas a plateia. Ele acolhe, organiza, trabalha, oferece seu tempo e seu afeto. O festival acontece porque são os moradores que realizam esse festival.

Miguel Arcanjo Prado – O que vocês buscaram trazer neste ano para o público?
Bruno Costa –
Buscamos oferecer um encontro com a diversidade do teatro brasileiro. Recebemos grupos de diferentes regiões, cada um trazendo sua maneira de olhar o mundo e de transformá-lo em cena. E quisemos ir além do espetáculo. Criamos um espaço onde os artistas compartilham seus processos, suas dúvidas e seus desafios. Porque o teatro não acontece apenas quando a cortina se abre; ele também nasce na conversa, na escuta e na troca. Além dos espetáculos, tem show musical, dança, bate-papo, oficina, intervenção artística, exposição de artes visuais, lançamento de livro…

Terceira edição do festival Oh Abre Alas terá grandes nomes como Mauricio Tizumba e Grace Ginaoukas em Perdões, Minas Gerais © Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Perdões quer se firmar cada vez mais como importante polo cultural do interior mineiro?
Bruno Costa –
Sem dúvida. Perdões guarda uma história, uma arquitetura e uma vocação cultural muito singulares. Há uma diversidade de grupos, manifestações e pessoas que fazem da arte parte da vida cotidiana. Costumo pensar que esta é uma terra de solo fértil para a cultura. A Mundo Cênico apenas ajuda a cultivar aquilo que já existia, oferecendo estrutura, continuidade e novos horizontes para essa potência florescer.

Miguel Arcanjo Prado – O festival tem o objetivo de conectar Perdões à produção nacional de artes cênicas? O que buscam fomentar a partir disso na cidade?
Bruno Costa –
Sim. A Mundo Cênico nasceu como uma iniciativa independente, popular e sem fins lucrativos, movida pela convicção de que a arte precisa alcançar as pessoas. Hoje somos uma escola que oferece aulas gratuitas para mais de 150 crianças e adolescentes, mantemos um grupo de teatro em circulação, um ponto de memória e uma programação cultural permanente. O festival amplia esse horizonte. Ele aproxima Perdões da produção nacional e, ao mesmo tempo, revela ao Brasil a força artística que existe aqui.

Miguel Arcanjo Prado – Sabemos da dificuldade de realizar um evento cultural deste porte. Quais apoios são fundamentais para que ele aconteça?
Bruno Costa –
Nenhum festival acontece sozinho. O que sustenta o Oh Abre Alas é o sentimento de pertencimento que a cidade construiu em torno dele. O comércio participa, empresários acreditam, voluntários dedicam seu tempo e seu trabalho. São mais de cem pessoas envolvidas para receber artistas, cuidar da técnica, da alimentação, da organização. Quando uma comunidade entende que a cultura também lhe pertence, ela deixa de ser apenas público e passa a ser autora dessa história.

Miguel Arcanjo Prado – O que o festival Oh Abre Alas representa para vocês da Mundo Cênico
Bruno Costa –
Representa encontro. É o encontro entre artistas e público, entre quem sonha e quem realiza, entre uma pequena cidade e a imensidão do teatro brasileiro. Durante esses dias, Perdões se torna um lugar onde as histórias circulam livremente, onde a imaginação encontra morada e onde a arte nos lembra, mais uma vez, que somos profundamente humanos.

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Oh Abre Alas – Festival Nacional de Teatro de Perdões e da Mundo Cênico.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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