Nicolas Manfredini se destaca como iluminador de teatro na volta ao Brasil após 7 anos na Europa

O iluminador Nicolas Manfredini é nome de destaque na nova geração do teatro © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Reportagem de VICTOR STELLA

Nicolas Manfredini cresceu nos bastidores do teatro. Afinal, é filho da saudosa atriz Márcia Manfredini (1960-2022), sua grande mentora em fazer do mundo teatral sua profissão. Contudo, escolheu os bastidores, exercendo outro papel fundamental aos espetáculos: a iluminação, onde ele se destaca como promissor talento da nova geração. Aos 29 anos, o iluminador já viveu na Europa por sete anos e voltou recentemente ao Brasil,onde tem retomado sua participação em peças brasileiras.

Atualmente, assina a elogiada iluminação da peça Visita a Domicílio, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso até 25 de junho, onde a peça repete o sucesso que teve no último Festival de Curitiba, onde Nicolas esteve pela primeira vez com o espetáculo dirigido por Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado.

Dentre outros projetos que participou, pode-se citar as assistências que prestou a Aline Santini e Eric Lenate em “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” e “Refluxo”, no Teatro do Sesi, e a iluminação de “Diga Que Você Já me Esqueceu”, de Dan Rosseto.

Ele também fará a luz de Zauberflöte, de Pablo Maritano, no Festival de Campos do Jordao, agora em julho, e também está na equipe do grande iluminador Beto Bruel na peça “Orkhḗstra Phántasma”, de Felipe Hirsch, em cartaz no Sesc Vila Mariana. Ele também opera a luz de Wagner Antônio na turnê nacional de Gostava Mais dos Pais, com Lúcio Mauro Filho e Bruno Mazzeo, e a luz de Sarah Salgado em Autobiografia do Vermelho, de Daniela Thomas.

Nesta entrevista exclusiva ao repórter Victor Stella, o iluminador Nicolas Manfredini conta sobre sua criação nos teatros, seu período fora do Brasil e dá detalhes da criação da luz de Visita a Domicílio.

Blog do Arcanjo – Como começou sua ligação com o teatro? 
Nicolas Manfredini – Minha relação com o teatro, eu acho que ela começou do momento em que eu nasci, por conta da mãe que eu tive, Márcia Manfredini, que era atriz e que sempre me levou junto com ela para fazer tudo o que ela fazia. Então, desde as férias de escola até qualquer final de semana livre, eu estava sempre com ela em teatro, em estúdio, ou viajando para acompanhar uma gravação. Então, foi um mundo que eu sempre tive perto, que eu sempre fui muito influenciado pela minha madrinha também, que é produtora de eventos, e sempre me encantei pelos bastidores, principalmente. Então, desde sempre tive essa vontade de criar, criava muita coisa em casa, criança, fazia sempre pecinha de teatro, show para a família no aniversário, juntava a galera do prédio para fazer peça, montamos peças, escrevia, dirigia, fazia luz, fazia cenário. Então, da brincadeira de copiar o que minha mãe fazia profissionalmente, acho que nasceu essa vontade de estar no teatro, e eu nunca me vi fazendo outra coisa, assim, nunca nem sequer passou pela minha cabeça o que que eu faria da minha vida se não fosse teatro. E hoje eu, graças a Deus, vivo disso, sou muito feliz e orgulhoso de poder ser das pessoas que vivem de arte, acho que é um privilégio gigantesco. 

Nicolas Manfredini e sua irmã Luiza Manfredini com a mãe dos dois, a atriz Márcia Manfredini (1960-2022) © Arquivo familiar Blog do Arcanjo 2026

Blog do Arcanjo – Porque escolheu ser iluminador? 
Nicolas Manfredini – Escolhi a iluminação, porque sempre foi uma área que me passava uma magia… Eu acho que a luz é muito responsável por criar a atmosfera que vai fazer as pessoas viajarem para dentro daquela história, sabe? Acho que cada área tem o seu elemento para puxar a pessoa para dentro do palco, que acho que essa é a intenção de todo espetáculo. E eu acho que a luz, mesmo que seja por breves momentos, ela tem a capacidade de descolar as pessoas do ambiente que elas estão, delas esquecerem onde elas estão. Acho que ela tem uma magia muito forte, psicológica. E na prática do dia a dia e na carreira, quando eu comecei, tentando descobrir o que eu ia fazer, se era atuar, se era dirigir, a minha mãe também, muito sábia, me disse na época: ‘Vai fazer alguma coisa que pelo menos te paguem’ — atriz já com medo do filho sofrer — “vai fazer alguma coisa que vai te garantir pelo menos um dinheiro para você não ter que fazer outra coisa em paralelo a isso’. Comparando muito com a carreira de atriz, que eu acho muito mais difícil, que é muito mais concorrida, de uma certa forma, de imagem, tem muitas outras camadas que a área técnica não tem e que fazem um outro caminho. E ela queria que eu não passasse pelos sofrimentos que tem nesse caminho. E ela tinha razão, de fato. Foi uma escolha certeira. Eu fui para a SP Escola de Teatro, onde me formei, e dali segui trabalhando sem parar com a minha mestra Aline Santini, que foi quem me deu quase que o meu guia de iluminação da minha vida. Foi ela que me colocou na frente. Muito de aprender olhando o trabalho dela. E foi assim, foi nesse trajeto que a luz sempre me encantou, e eu tive a sorte também de encontrar grandes mestres no caminho que foram me guiando e que me deram esse caminho bom que eu segui.

Blog do Arcanjo – Quanto tempo você ficou na Europa, o que fez nesse período? 
Nicolas Manfredini – Fiquei sete anos na Europa. Foi um divisor de águas. Eu fui para lá buscando me conhecer, me descobrir em algum lugar, vasculhar o que eu queria na minha área mesmo e me testar. Eu acho que tem o lado da migração em si, que é muito doido, você largar todo mundo e ir para um lugar que você quase não conhece ninguém. Eu tive a sorte de ter gente lá, mas é um tiro no escuro. E eu acho que eu tive muita sorte. Tive sorte de cair com as pessoas certas, no lugar certo, na hora certa e vieram grandes oportunidades. Meu primeiro trabalho lá foi com o Teatro Bando, que é uma companhia de 50 anos, que surgiu após 25 de abril, a ditadura militar lá em Portugal, e que se estabeleceu muito forte politicamente. E me chamaram para ser diretor técnico e iluminador deles. A gente colaborou durante uns três anos juntos e fiz coisas com eles em escalas que eu nunca tinha imaginado fazer, assim, de nível de produção grande, tanto em teatro quanto ao ar livre, produções com muita gente. Foi uma responsabilidade muito grande que me trouxe também essa maturidade. Eu era novo, tinha 21 anos, então me forçou a crescer ao nível das oportunidades que eu estava tendo. E depois dali, em paralelo com isso ainda, eu e uma amiga minha, minha amiga irmã, Dora Sales, que é cenógrafa brasileira, mas que mora lá também há uns anos, nos cruzamos lá e resolvemos criar um grupo de teatro que chama Grupo Cru, para fazer os nossos experimentos. E deu muito certo, porque a gente fez um primeiro espetáculo que era um monólogo dela. Nós escrevemos, dirigimos, produzimos e tudo, e fomos para um festival, ganhamos o prêmio de melhor espetáculo do festival internacional e dali em diante seguimos engatando outros projetos e fazendo os nossos experimentos. Não só em teatro. Eu dirigi videoclipe com o grupo, fizemos curta-metragem, depois eu dirigi um espetáculo e escrevi. Eu e ela dirigimos um espetáculo e atuamos juntos, que foi o Proibido Virar à Esquerda. E eu fui tateando todos esses lugares. Tive boas oportunidades com bons artistas que me estenderam a mão e que me acolheram e que reconheceram meu trabalho. Trabalhei muito com o Teatro Lama, que é uma companhia que já está aí nos seus 15 anos de vida, mas que cresceu muito e que tem um projeto incrível em Faro e em Lisboa. Então, fui criando essa rede em Portugal, assim, muito boa, ao mesmo tempo que pude testar experiências e me aprimorar.

Blog do Arcanjo – Como foi a volta para o Brasil? 
Nicolas Manfredini – A minha volta para o Brasil se deu por alguns motivos, principalmente, hoje eu vejo que fui muito influenciado por esse momento político que a gente está vivendo no mundo, principalmente na Europa, com receio da minha vida a longo prazo lá, se eu teria garantia a longo prazo com o que está acontecendo. E um outro lado em que eu percebi foi que, na minha trajetória na Europa, eu aprendi a amar o Brasil muito mais do que eu já amava, e a ver coisas que eu não via aqui. E comecei a entender que meu lugar no mundo acho que é mais aqui do que lá. Tive experiências incríveis lá, foram de pessoas, a trabalhos, a lugares, foi tudo incrível, é um divisor de águas na minha vida essa vivência que eu tive lá, mas foi lá também que eu entendi o valor que o Brasil tem de fato, das pessoas, da cultura, de tanta coisa e que você percebe que preenche um pedaço da nossa vida muito significativo assim, pelo menos para mim. E tinha uma questão também do meu buscar artístico, que eu me identifico muito mais, com o que a gente faz aqui em São Paulo, é o meu berço, então acabo me identificando desde sempre, mas principalmente hoje. E o teatro que eu mais busco esta é uma coisa mais política, espetáculos que tenham mensagens, que tenham um porquê, ou que causem questionamentos, que levantem questões, esse tipo de teatro que eu mais me interesso. E eu acho que aqui é onde eu pego o meu gosto artístico junto com a minha necessidade política também. E eu acho que isso lá não se casava tanto assim, eu não conseguia juntar essas duas coisas no mesmo lugar. E aqui muito, e isso me satisfaz demais. Tenho um prazer muito maior de viver a nossa cultura de fato, de poder colaborar com ela. E acho que foram esses os motivos da volta. Tempo, família, tudo isso também. E estou muito feliz no Brasil hoje, estou me sentindo realizado, acho que foi uma escolha assertiva, porque nosso país é bom demais. São Paulo é uma potência mundial artística, que a gente menospreza muito, às vezes, não só São Paulo, o Brasil todo, mas São Paulo especificamente é um pólo, é um pólo artístico, econômico e de oportunidades único no mundo. Com uma diversidade de opções para todos os públicos e para todos os grupos e isso é muito incrível, isso é raro de se achar hoje em dia no mundo e isso me alimenta aqui também, e isso completa o porquê da minha volta ao Brasil também.

Nicolas Manfredini em frente ao Teatro Paiol na estreia da peça Visita a Domicílio, na qual assina a iluminação, no 34º Festival de Curitiba © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Blog do Arcanjo – O que você está fazendo atualmente? 
Nicolas Manfredini – Atualmente eu tô trabalhando como iluminador e como diretor técnico para alguns projetos internacionais que vêm pra cá e para espetáculos daqui, de diretores que eu já conhecia mesmo antes de me mudar para a Europa. E assistência para alguns alguns iluminadores também. Tenho ainda me testado, ainda querendo descobrir mais coisas. Tô trabalhando ainda devagar, mas para trazer projetos do meu grupo de teatro pra cá e em parceria com o grupo de teatro de lá também pra fazerem trabalhos aqui. Tô criando essa ponte com alguns artistas, com alguns diretores. Acho que a longo prazo minha vontade é criar esse intercâmbio de Portugal para cá com projetos. O prazer que eu tenho de fazer luz pro teatro, que é o meu um prazerzão de vida e tem surgido oportunidades incríveis.

Visita a Domicílio tem luz assinada por Nicolas Manfredini © Adriano Escanhuela Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Blog do Arcanjo – Como você chegou até a peça Visita a Domicílio? 
Nicolas Manfredini – Eu cheguei no Visita ao Domicílio através do Fábio Câmara, que sempre produziu os espetáculos do Dan Rosseto, que foi um diretor que eu colaborei aqui e colaboro até hoje, um mestre, gênio, que tenho o maior prazer de trabalhar. E ele me indicou pro Miguel Arcanjo, que codirige a peça com Zé Guilherme Bueno. O Miguel tinha visto uma luz minha em 2018, se eu não me engano, que eu fiz pro Dan, que era também produção do Fabinho, que era o “Diga Que Você Já Me Esqueceu”, lá no Teatro Viradalata. E o Miguel naquela época tinha feito uma matéria falando sobre, um uma indicação de prêmio, que ele fazia na época só na internet ainda, e indicou minha luz. Eu já estava fora do Brasil quando o espetáculo estava acontecendo e daí ele lembrou de mim para agora, me chamou e foi um prazer conhecer essa equipe. Já tinha trabalhado com o Juan Manuel Tellategui. Ele também estava no “Diga Que Você Já Me Esqueceu”, então foi um reencontro muito bom. E eu tenho adorado essa experiência de estar com eles. A estreia em Curitiba foi um sucesso, o espetáculo tem um potencial incrível, tá muito bem feito, muito bem dirigido. Eu tô tentando somar o que eu posso pra tá ao nível do que eles tão fazendo, porque é muito bom.

Nicolas Manfredini na estreia de Visita a Domicílio, na qual assina a iluminação, no Teatro Sérgio Cardoso em São Paulo © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Blog do Arcanjo – E como foi a escolha da iluminação para a peça Visita a Domicílio? 
Nicolas Manfredini – Então, a ideia de luz pro Visita o Domicílio, eu acho que desde o primeiro ensaio que eu vi, me surgiu uma questão de divisão entre os dois personagens: um tá num estado emocional e o outro tá num outro completo estado emocional. E eu queria tentar traduzir isso de alguma forma na luz,  de uma forma mais rígida e uma forma mais fluída, porque acho que esse contraste, até corporal dos atores, é muito visível na cena. E depois eu fui adicionando elementos em que eu via como importantes e narrativos do espetáculo para tentar compor a narrativa do que que tá acontecendo nas entrelinhas daquela relação ali dos dois, que tem tantas reviravoltas. E depois tem um tom de comédia no começo, mas que já vai dando indícios para onde o espetáculo vai. E eu tento, através da luz, ir narrando esse caminho e dando indícios pro público do que que vai surgir na frente, assim, dando as pistas do que vai acontecer à frente… sutis… no máximo que a linguagem da luz consegue dizer, eu diria. Trabalhar também camadas e texturas, mistura de cores, porque eu acho que tem uma certa vida dentro daquele apartamento e que eu queria transformar não como uma luz realista, mas em momentos ela ser uma coisa mais de brincadeira, em que eu posso fugir da realidade e voltar rapidamente. Eu acho que o espetáculo permite essas nuances e foi onde eu fui tentando entrar e criar e acho que está um projeto bonito. 

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Visita a Domicílio
Quarta e quinta, 19h. Até 25/6/2026
Teatro Sérgio Cardoso – Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista
60 min. 18 anos. Compre seu ingresso!

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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