★★★★★ Crítica: Pet Shop Boys arrebatam SP em show de hits da dupla que deixou o pop mais inteligente

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
★★★★★
PET SHOP BOYS
DREAMWOLRD – THE GREATEST HITS LIVE
Avaliação: Excelente
Uma noite de pura nostalgia com uma das melhores duplas da música britânica e global. A apresentação do Pet Shop Boys, formado por Neil Tennant e Chris Lowe, em São Paulo, nesta última terça-feira, 3 de março, foi impecável. Sob uma bela lua que moldava com nuvens a agradável noite de 23°C neste fim de verão pós-Carnaval, a Suhai Music Hall, na zona sul da capital paulista, abrigou celebração dos ícones dos anos 1980 e 1990, reunindo diferentes gerações.
O público que lotou o espaço era um mosaico demográfico: fãs veteranos, a maioria, que acompanham a dupla desde que revolucionou a indústria pop nos anos 1980 dividiam espaço com uma geração mais jovem, atraída pela atemporalidade estética do duo, redescobertos por filhos e netos da primeira geração de fãs.
Essa conexão intergeracional confirma o que Neil Tennant afirmou recentemente ao jornal britânico The Independent: “Nossa carreira demonstrou de forma contínua que a música pop e a alta arte não apenas podem coexistir, como também superar formas musicais supostamente superiores”. Está coberto de razão.

A aclamada turnê Dreamworld: The Greatest Hits Live chegou ao Brasil após uma passagem arrebatadora pelo Chile, onde a imprensa local destacou a apresentação no Festival de Viña del Mar como uma “noite mágica”. No palco paulistano, a magia se repetiu e a estrutura seguiu o rigor artístico da produção assinada por Tom Scutt.
Neil Tennant, com sua presença vocal impecável, e Chris Lowe, o arquiteto sonoro atrás dos sintetizadores, foram acompanhados por uma banda de apoio de alto calibre. O que se testemunhou foi um desfile impactante de sucessos, onde a precisão técnica e o temperamento reservado de Chris Lowe encontraram o contraponto perfeito no carisma magnético de Neil Tennant, que, aos 71 anos, mantém uma performance vocal irrepreensível.
A turnê Dreamworld, dedicada à antologia de hits de toda a carreira, já havia dado mostras de sua potência no Primavera Sound de 2023 em São Paulo, mas retornou agora com o peso de um concerto solo. A curadoria do repertório foi estratégica: houve um mergulho profundo nas duas primeiras décadas discográficas — alicerce dos grandes clássicos — e um destaque para a produção pós-2013, a partir do álbum Electric. Curiosamente, o roteiro ignorou o hiato criativo entre 2002 e 2012, focando, acertadamente, naquilo que define a essência sonora do duo.
Embora o hino “Go West” tenha ficado de fora por conta de disputas de direitos autorais com os herdeiros do Village People, o que frustou muitos fãs das antigas, a ausência foi compensada por uma sequência arrebatadora de composições dos três primeiros discos. No palco, a dupla contou com o suporte luxuoso do guitarrista e percussionista Simon Tellier, da vocalista e tecladista Clare Uchima, que também cantou com Tennant, e do baterista Bubba McCarthy. O conjunto quase não se ausentou de cena durante as quase duas horas de apresentação, com exceção das breves saídas de Tennant para refinadas trocas de figurino, fechando com um visual clássico da elegância britânica.
O repertório foi uma sucessão de hits. A abertura com “Suburbia” e “Opportunities (Let’s Make Lots of Money)” estabeleceu um ritmo que não esmoreceu. Hits como “Where the Streets Have No Name (I Can’t Take My Eyes Off You)”, a emblemática “Domino Dancing” (que teve um clipe ousado e precursor para a época) e a eufórica “Always on My Mind” transformaram a casa de shows da zona sul paulistana em um templo de celebração coletiva.
A transição fluída entre “Single/Bilingual” e “Se a vida é (That’s the Way Life Is)” foi um dos destaques da noite. O encerramento da primeira parte, com a grandiosidade de “It’s a Sin”, preparou o espírito do público para um bis definitivo. O retorno triunfal trouxe “West End Girls”, o marco zero de sua trajetória, culminando na melancolia sublime de “Being Boring”. A sensação foi ver dois gênios do entretenimento pop com alta dose de inteligência.
“Estamos muito animados em mergulhar profundamente em nosso catálogo e dar aos fãs a chance de ouvir ao vivo as favoritas de sempre”, disseram em entrevista à Retro Pop.
O encerramento, com a melancólica e sublime “Being Boring”, serviu como o desfecho ideal para uma noite de rigor técnico e alta dose de entrega artística.
Sem espaço para improvisos desnecessários, o Pet Shop Boys entregou em São Paulo uma síntese do que o pop pode alcançar quando guiado pela inteligência e pelo compromisso com a excelência. “Obrigado, São Paulo”, disse, em português, ao fim, Tennant, para uma plateia em puro êxtase que ovacionou o duo.
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PET SHOP BOYS
DREAMWOLRD – THE GREATEST HITS LIVE
Avaliação: Excelente
Pet Shop Boys
Os Pet Shop Boys, formados por Neil Tennant e Chris Lowe, representam a intersecção perfeita entre o pop comercial e a alta cultura. A trajetória da dupla começou em agosto de 1981, quando se conheceram por acaso em uma loja de eletrônicos na King’s Road, em Londres, unidos pelo interesse comum em sintetizadores e na cena disco. Ao longo de quatro décadas e com mais de 50 milhões de discos vendidos, consolidaram-se misturando a disco music a letras inteligentes inspiradas em nomes como T.S. Eliot. Neil Tennant, ex-editor da revista Smash Hits, é a voz erudita e melancólica; Chris Lowe, formado em arquitetura, é o arquiteto sonoro que mantém uma postura impassível e quase silenciosa no palco. No âmbito pessoal, a sólida amizade sustenta o duo, que enfrentou boatos maldosos de que teriam tido um relacionamento romântico, o que chegou a prejudicar a carreira da dupla nos Estados Unidos. Tennant afirmou ser gay em 1994, e muitas de suas composições, como “Being Boring”, são tributos emocionantes a amigos perdidos para a epidemia da aids. Já Lowe se mantém reservado e jamais falou de sua vida pessoal ou amorosa. Discretos, eles evitam tapetes vermelhos e mantêm a “pureza do projeto” acima de tendências, provando que a inteligência é o componente mais resiliente da música pop que produzem.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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