Dan Stulbach celebra sucesso de O Mercador de Veneza: ‘O teatro é a vida decidida’ – Entrevista do Arcanjo


Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
“O teatro é a vida decidida”. É sob essa premissa que o ator Dan Stulbach protagoniza uma das montagens mais impactantes da temporada: O Mercador de Veneza em uma das grandes atuações do teatro brasileiro atual. O clássico de William Shakespeare (1564-1616), que já arrebatou mais de 40 mil espectadores e esgotou ingressos em mais de 100 sessões em cidades como Rio, Brasília e Curitiba, prorroga agora sua bem-sucedida temporada em São Paulo, no Tucarena. Na montagem da Kavaná e Baccan Produções, a diretora Daniela Stirbulov comanda a história do julgamento do agiota judeu Shylock. Elevado a protagonista, o personagem cresce nas mãos de Stulbach, que viu Al Pacino fazer o mesmo papel. Para o ator, o personagem é o retrato do “não-pertencimento”, o que o faz dialogar com sua própria profissão. “Todo ator tem essa sede de aceitação”, revela Dan em conversa exclusiva com Miguel Arcanjo Prado nesta Entrevista do Arcanjo, na qual reflete sobre como, em tempos de superficialidade digital, a busca pela profundidade tem atraído o público ao teatro, além de falar sobre o espetáculo, lembrar seus tempos de gestor do Teatro Eva Herz, a bem sucedida parceria com Manoel Carlos e adiantar sua volta à TV na nova novela de Walcyr Carrasco, Quem Ama Cuida, prevista para estrear em 18 de maio, conciliando a TV com o teatro. Leia a entrevista a seguir.
A peça O Mercador de Veneza segue em cartaz no Tucarena (Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes, SP), com sessões às quintas (20h30), sextas (21h), sábados (19h) e domingos (18h) até 17 de maio de 2026, com ingressos na Sympla.

Miguel Arcanjo Prado — Como chegou até você o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza?
Dan Stulbach — Foi através do Marcelo Ulmann e do Cesar Baccan [atores e produtores do espetáculo]. Eles me procuraram para tomar um café e contaram que tinham a ideia de fazer o texto. Queriam saber se eu topava. Tempos depois, conseguiram patrocínio. Fizeram um acordo com o Sesc e, no meio do caminho, rolou uma desistência. Chegamos a montar o elenco, o apoio voltou e finalmente estreamos no Sesc Santo André. Foi um processo intenso entre o convite e a estreia.

Miguel Arcanjo Prado — Qual foi a sua principal motivação para aceitar esse desafio shakespeariano?
Dan Stulbach — De princípio, o foco era fazer Shakespeare, que eu nunca tinha feito profissionalmente. Eu tinha assistido à montagem com o Al Pacino em Nova York em 2010 — a primeira vez que o vi em cena — e tive um encontro rápido com ele depois. Foi no Central Park, ao ar livre [dentro do projeto Shakespeare in the Park]; algo muito marcante para mim. Eu voltei e comecei a procurar meios de montar um festival ao ar livre aqui. O André Acioli me ajudou nisso, e começamos a procurar lugares… e acabamos chegando ao Mercador. Lembrei dessa emoção e, como eu tinha produzido minha última peça, O Anarquista, o projeto foi sedutor por conta do Shakespeare, da lembrança e da vontade de trabalhar com uma geração mais jovem. Em seguida, veio a direção; eu falei com a Daniela Stirbulov, achei interessante termos uma diretora mulher, jovem, que eu não conhecia. Foi um desafio em todos os aspectos.
Miguel Arcanjo Prado — Eu vi e em muitos momentos sua atuação me lembrou a de Paulo Autran. Como você trabalhou a construção desse personagem?
Dan Stulbach — Fico feliz com a tua lembrança e comparação; algumas pessoas falaram do Paulo Autran e também do Raul Cortez. O primeiro passo parece óbvio: entender muito bem o que está sendo dito. O sentido das palavras, o porquê de várias coisas, as diversas camadas. Isso me ajuda a aprimorar a forma. Eu a vou lapidando a partir do que entendi sobre a motivação. A gente ia construindo. Não tem nada que eu faça em cena que eu não saiba o motivo ou o porquê de dizer. O teatro é a vida decidida. Quanto mais tudo tiver decidido, o jogo fica mais livre.

Não tem nada que eu faça em cena que eu não saiba o motivo ou o porquê de dizer. O teatro é a vida decidida. Quanto mais tudo tiver decidido, o jogo fica mais livre.
Dan Stulbach
ator
Miguel Arcanjo Prado — O personagem Shylock toca em feridas sociais profundas. Como você enxerga essa conexão?
Dan Stulbach — Algumas pessoas acham que procurei na minha família ou história, mas, conscientemente, não tenho ninguém na família que tenha sido assim. Acho que o personagem, mais do que a questão judaica, traz a questão do estrangeiro, do não-pertencimento. Minha família é de estrangeiros e eu sinto que todo ator tem essa sede de aceitação e pertencimento. O principal é a elaboração da palavra e, depois, do gesto. Fazia tempo que eu não fazia um papel com essa complexidade e profundidade de aprofundamento. Eu queria também, como proposta com a plateia, trabalhar em cima do silêncio; respeitar e provocar a inteligência do espectador. Não queria que fosse fácil.

Miguel Arcanjo Prado — O espetáculo tem tido uma resposta de público muito forte. Como é viver esse sucesso nos palcos?
Dan Stulbach — Isso mostra o quanto a gente não domina esse processo do sucesso e do fracasso. É um mistério. O Mercador de Veneza tocou o coração das pessoas. Um “boca a boca” muito grande; da academia ao café, as pessoas falam do espetáculo, dizem que querem ver. Além de termos esgotado bilheteria constantemente no Tucarena, lotamos quatro sessões no BTG Pactual Hall e abrimos uma quinta extra para 1.100 pessoas, com fila de espera e tudo. Fico muito contente que o público queira nos ver. Apesar desse movimento da internet e de uma certa superficialidade, percebo que muita gente procura profundidade. Um sinal disso são os cursos de filosofia, os clubes do livro; as pessoas querem mais arte, se aprofundar, e o espetáculo está nesse lugar. Ele comunica, toca o coração, não é óbvio. No Sesc Guarulhos, esgotamos em duas horas. Eu quero fazer o maior número de sessões enquanto tiver público; me dá dó mandar as pessoas embora para casa. Brasília também foi incrível. A peça é estudada em cursos de Direito.

Miguel Arcanjo Prado — Você também tem uma faceta importante como gestor cultural, especialmente no Teatro Eva Herz, que eu me lembro bem. Como recorda essa fase?
Dan Stulbach — Eu tive a ideia desse teatro e procurei o Pedro Herz. Chamei para estar comigo o André Acioli, que tinha tinha trabalhado comigo ainda bem jovem nos bastidores de Visitando o Sr. Green, em 2000. Sinto falta até hoje de gerir um espaço cultural e poder dar palco para peças que não têm espaço, sem exigências mínimas. Existe um equilíbrio possível entre sucesso e qualidade. O Eva Herz teve essa história na nossa peripécia juntos. Eu saí porque a livraria não tinha mais verba para pagar nós dois, então decidi sair para o André ficar. Era gostoso ter um espaço e um parceiro como o André, alguém tão apaixonado e competente. O sucesso de O Mercador toca justamente aí: no diálogo com a cidade, coisa que o Teatro Eva Herz fazia tão bem assim como a Livraria Cultura, que o abrigava. Quem abriu o Teatro Eva Herz foi o Jô Soares. Lembro até hoje de quando mostrei o teatro para minha atual mulher. Foi um momento muito especial na minha vida.

Miguel Arcanjo Prado — Mudando para a televisão, precisamos falar do seu personagem Marcos, o vilão de Mulheres Apaixonadas, que lhe deu muita popularidade junto ao grande público. Como foi trabalhar com o Manoel Carlos?
Dan Stulbach — O Maneco me viu na peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz e me prometeu que me chamaria para uma novela. Ele escrevia semana a semana, quase dia a dia. Isso era incrível; tudo o que improvisávamos com os diretores, ele via e incorporava no texto: o bonequinho no carro, a história da raquete… as coisas surgiam ao longo da estrada. Ele era permeável a sugestões e adorava o ator. Em relação ao Maneco, além da delicadeza, havia o olhar sensível para a vida cotidiana — o que o Tchekhov tinha para o teatro: olhar para as coisas profundamente sem ser “cabeça”. Ele ouvia o público, andava no Leblon perguntando às pessoas. Foi uma parceria que mudou a minha vida. Lembro de quando apresentei minha mãe a ele; ficaram 40 minutos conversando sobre a vida e sobre como aquilo mudaria a minha trajetória. Maneco era de uma delicadeza única.

Miguel Arcanjo Prado — Quais são os seus próximos planos para conciliar palco e a TV?
Dan Stulbach — Vou ficar com O Mercador até julho, depois vamos para o TUCA. Vou fazer a próxima novela das nove do Walcyr Carrasco. Fechei contrato e fiz questão de, até julho, conciliar as duas coisas. Vou trabalhar todos os dias para dar conta. Serei um advogado na trama, mas ainda não muitos tenho detalhes.

Miguel Arcanjo Prado — Está feliz com essa peça O Mercador de Veneza?
Dan Stulbach — Estou feliz, sim. No fundo, retorno em O Mercador de Veneza a questões que já tratei em novas Diretrizes em Tempos de Paz. São temas que voltam na vida, que podemos tratar na terapia ou não, mas que ficam presentes no trabalho. A ideia do não-pertencimento é muito forte para mim. O teatro é o grande caminho da aceitação e do diálogo para a arte; as duas peças conversam por aí. São temas que eu desisti de resolver; eu não quero resolver, eu quero viver com eles harmoniosamente.
O MERCADOR DE VENEZA
FICHA TÉCNICA
Texto: William Shakespeare. Direção: Daniela Stirbulov. Tradução, Adaptação e Assistência de Direção: Bruno Cavalcanti.
Elenco / Personagem: Dan Stulbach (Shylock), Augusto Pompeo (Duque), Amaurih Oliveira (Lorenzo e Príncipe de Marrocos), Cesar Baccan (Antônio), Gabriela Westphal (Pórcia), Júnior Cabral (Graciano), Marcelo Diaz (Lancelotte Gobbo), Marcelo Ullmann (Bassânio), Marisol Marcondes (Jéssica), Rebeca Oliveira (Nerissa), Renato Caldas (Solânio e Tubal) e Thiago Sak (Salarino e Príncipe de Aragão). Cenografia: Carmem Guerra. Cenotécnico: Douglas Caldas. Desenho de Luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi. Figurino e Visagismo: Allan Ferc. Assistente de Figurino: Denise Evangelista. Peruqueiros: Dhiego Durso e Raquel Reis. Direção de Movimento: Marisol Marcondes. Aderecista: Rebeca Oliveira. Baterista: Caroline Calê. Consultoria Sobre Shakespeare: Ricardo Cardoso. Vídeo e Imagem: André Voulgaris. Fotos: Ronaldo Gutierrez. Design Gráfico: Rafael Oliveira Branco. Operação de Luz: Jorge Leal. Operação de Som: Eder Sousa. Motorista: Cosme Araujo. Assistente de Produção: Amanda Nolleto. Produção Executiva: Raquel Murano. Direção de Produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann. Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.
SERVIÇO
O Mercador de Veneza. Classificação: 12 anos. Duração: 95 minutos.
TUCARENA – Teatro da PUC-SP (Entrada pela Rua Bartira, s/n, esquina com a Rua Monte Alegre, 1024). Capacidade: 288 lugares. Temporada: de 29 de janeiro a 17 de maio de 2026. Quintas, 20h30; Sextas, 21h; Sábados, 19h e Domingos, 18h. (obs: não haverá sessão de 12 a 15 e 19 de fevereiro/e 24,25,26 de abril).
Vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/113353 ou na bilheteria do teatro. Bilheteria: de terça a sábado das 14h às 20h e domingos das 14h às 18h. Valores de ingresso: Quinta e sexta: R$ 160 / Sábado e domingo: R$ 180.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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