Raquel Hallak e Francis Vogner fazem balanço da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por VIVIANE PISTACHE
Colaboração especial para o Blog do Arcanjo
Enviada especial a Tiradentes, Minas Gerais*
Raquel Hallak, coordenadora geral da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e Francis Vogner, coordenador curatorial, debateram a Soberania Imaginativa como ideia norteadora dessa da edição, além de considerações sobre os quase trinta anos do evento mineiro, durante conversa com a imprensa na última sexta, 30 de janeiro.
Francis iniciou o diálogo refletindo sobre a gênese desta temática não surgir a partir de estímulos recentes ou de uma epifania repentina, mas sim de uma“longa reflexão sobre um processo que se desdobra durante anos, sobretudo da edição anterior. Por exemplo, o termo ‘soberania imaginativa’, surgiu em um texto da edição anterior.”

Certamente o contexto geopolítico catalisou a urgência da temática, ajustando a lente de percepção da produção nacional ao espírito do tempo: “E a gente teve, no ano de 2025, um contexto geopolítico e social em que a gente entendeu que a soberania imaginativa certamente faria sentido, para jogar luz sobre os filmes, para que pudesse estimular boas perguntas através de um diálogo que se desdobra no tempo. Então, se vocês forem ver todas as edições anteriores do festival existe uma cadência, uma relação entre uma temática e outra. As coisas não se repetem, mas são parte de um longo processo de reflexão e de conversa da equipe de programação.”
Cada temática nasce assim de um decantado debate que envolve desde as edições anteriores, conversas com cineastas, formuladores de políticas públicas, com imprensa e intelectuais presentes em cada edição, pares da curadoria, mas em constante diálogo com a coordenação geral da Mostra:
“Raquel e eu estamos sempre em sintonia de conversas. Não há nenhuma temática que eu escreva que não passe por uma conversa muito afinada com a Raquel. Então, é interessante pensar que a temática é uma composição da programação, mas isso é uma conversa mais ampla, para além da equipe de programação”, falou o curador.

Questionada sobre o que esperar da próxima edição, que terá a força histórica de 3 décadas, Raquel Hallak diz que irá usar de sua soberania imaginativa, arrancando risadas. Apesar de uma certa perenidade da Mostra no calendário do cinema nacional, cada edição lança novos desafios para sustentar uma identidade:
“Eu sempre desenho o cenário ideal. Agora o real, só chegando mais próximo. Mas acho que a gente encerra essa edição, e eles também podem dizer, acho que foi esse sentimento de ter traduzido na programação como um todo, principalmente um sentimento de reflexão e provocação. Estamos no momento do cinema brasileiro com dois filmes recentes. Um disputou e ganhou o Oscar, o outro vai disputar várias premiações do cinema brasileiro. Mas acho que é importante registrar que a Mostra Tiradentes vem ao longo desses quase 30 anos apresentando o cinema brasileiro que muitas vezes não tem nome, não é reconhecido”, diz a coordenadora.

Cada um dos 137 filmes selecionados nesta da Mostra tem um singular encontro, seja na Tenda que concentra as mostras competitivas, seja na praça que alcança um público maior que as tribos cinéfilas, seja no Teatro Yves Alves que contempla especialmente as mostras de homenagem, curtas de produções mineiras ou ainda curtas de formação; em cada uma dessas salas, as pessoas se apropriam do debate de cada edição, com interesse de participar dos debates, não apenas dos filmes, como nos debates sobre curadoria, circulação dos filmes ou ainda os debates mais densos e por vezes acalorados no Fórum de Tiradentes que reúne nomes expoentes de uma multiplicidade de setores de atuação do audiovisual nacional.
“Então, quando a Mostra se torna esse grande espaço generoso de conversa, de troca, de conhecimento, de formação, a gente fica com esse sentimento de missão cumprida, o diálogo também com a cidade, que é muito importante, o acolhimento, a resposta, uma conjugação de esforços que trazem sempre esse resultado que a gente lá atrás fica imaginando. Será que vai dar certo? Eu fico imaginando. Será que esse filme vai ter público? Como é que as pessoas vão responder a essa sessão? Ontem, eu estava ali na praça. Nossa, esse filme! E o som só aumentava aquele filme. Tudo passa, de fato, também pela nossa imaginação quando a gente está fazendo um evento. E os 30 anos, com certeza, é uma data comemorativa, e ele traz muito mais um peso de você olhar pelo retrovisor quando a gente começa, em 1998, que foi um evento que, por um lado, foi precursor da descoberta da vocação turística da cidade. Então, ele tem um diálogo muito forte, porque hoje a gente vê em Tiradentes uma cidade que virou até uma indústria de eventos, todo fim de semana, todo mês tem um calendário. E ele também tem uma história a ser contada do ponto de vista do cinema brasileiro, porque é o evento que acompanha essa retomada. E, desde o início, nasceu para ser o grande aliado do cinema brasileiro. E o grande desafio é manter essa identidade da mostra. Com tantas mudanças, com tantas permanências, mudanças tecnológicas, políticas, sociais, pandemia, ele representa essa grande renovação do cinema brasileiro. Então, a gente está o tempo todo aqui mostrando o que ele está fazendo no cinema, sobre a forma que esse cinema está sendo feito, quem está sendo feito, de onde vêm esses filmes. Então, espero que essa 30ª edição, antes de mais nada, seja um olhar reflexivo sobre a trajetória da mostra, sem perder a identidade do presente, mas também olhando sempre as perspectivas de futuro.”, afirma Raquel Hallak.

Considerando o legado da Mostra de Tiradentes para a cidade, além de estimular a vocação turística do território, a Mostra semeia produção local de cinema e nesta edição teve sete filmes que certamente são frutos de políticas públicas como as Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, mas certamente é também fruto da construção de um imaginário que torna a realização de um filme não apenas um sonho, como uma atividade possível. Considerando em especial a Mostra Valores, Raquel destaca que o festival sempre esteve atento às pessoas e ações que acontecem na cidade.
“Então, quando esses filmes se colocaram, todos os inscritos referentes à cidade estão na programação. Então, fizemos mais duas sessões na praça, que não é ideal, por causa da chuva e do teste de filme. Mas está ali, fizemos. Amanhã tem mais uma projeção. E é importante que a cidade se veja e se reconheça, a gente não tem dúvida nenhuma disso. E também a possibilidade de a gente ser um espaço democrático para outras manifestações. A Serra de São José não é de hoje, que a gente vem sediando. O casarão que estava caindo ali, a gente trouxe o secretário na época de patrimônio. Então, todas as possibilidades que o evento tem, pensando inclusive na transversalidade do audiovisual, a gente coloca em série dentro da programação. Assim como as ações formativas, por ser no mês de férias, a gente sempre pensou em ter oficinas. Sempre teve, desde a primeira edição, oficinas juvenis, que é uma oportunidade principalmente para o tiradentino, para as crianças terem essa perspectiva. E são várias que fez com que a gente instituísse a campanha Eu Faço a Mostra. Porque toda hora chegava… Ah, meu filho fez a oficina! Ah, o Gabriel Martins, que eu sempre dou esse caso, pensando de fora, veio para Tiradentes e fez a oficina. Então, esse olhar atento, inclusive, que vai desde a formação até oferecer esse espaço para que a cidade se enxergue tanto na tela quanto a gente manter esse sentimento de pertencimento que sempre tem”.

É interessante perceber nas falas da Raquel Hallak, quanto do Francis Vogner, um esforço de contemplar ações e filmografias que ambicionam uma radiografia bem capilarizada de uma multiplicidade de realidades brasileiras a partir de uma provocação mineira. Tiradentes esse ano reuniu produções de 23 estados brasileiros que vão de cineastas com estrada ou começando a caminhada, e desde filmes que estão na praça, porque têm um diálogo com o grande público, a filmes também experimentais, arriscados, num evento com certa consciência e orgulho de estar escrevendo uma história possível do cinema brasileiro desde a Retomada.

Francis relembra que Gabriel Mascaro e Kleber Mendonça estiveram na Mostra de Tiradentes com seus primeiros longas e que a Vitrine Filmes há quase vinte anos começou levando de Tiradentes pequenos filmes e hoje distribui obras do porte de Agente Secreto. Provocado pela pergunta do crítico Luiz Joaquim, Francis pontua:
“Enfim, como a gente constrói essa história? E uma coisa que quero deixar muito claro para vocês. Óbvio que Tiradentes, aglutina cineasta, a imprensa, o público, a gente escreve textos enquanto programadores, mas acho que todos nós que estivemos presentes aqui nesses anos todos… O Luíz, por exemplo, é um crítico que vem aqui desde muito tempo. Exatamente. A gente escreveu essa história. Certamente quem for, eu mesmo, Luís, fazendo pesquisas sobre os primeiros Auroras, sempre encontro um texto seu. Então, a história está aí.”

A Mostra de Cinema de Tiradentes ao longo de sua história tem se revelado como um arquipélago de obras de dimensões diferentes, desde as mais artesanais feitas por uma equipe de única pessoa, como as de regime de trabalho mais convencional, fruto de editais e profissionalismo mais amadurecido. Cada filme com sua realidade fomentando assim a soberania imaginativa a partir das circunstâncias que dispõem.
Talvez por isso que esses filmes, mesmo alguns sendo mais difíceis do que outros, encontram um público em Tiradentes, porque propõem uma experiência de prazer ou desprazer, que é também parte da experiência do cinema. A força da imaginação aqui é justamente em não trabalhar com aquilo que já está dado de antemão. Muitas vezes, algumas obras até acionam um certo modo tradicional, convencional, industrial, que lida com regras já conhecidas, sabendo aderir ao clichê como ponto de partida, mas nunca como ponto de chegada ou fim em si mesmo. São assim, representativas de uma imaginação que é mais do que im-provável, com filmes que se fazem de acordo com o desejo, erudição e a partir de circunstâncias políticas concretas. Quando a imaginação encontra sua força in-domável, certamente abre frestas para sua soberania. Ou como Raquel pontua:

“Eu acho que não tem como vir numa Mostra de Cinema de Tiradentes e não sair daqui transformado. Eu acho que todo mundo sai energizado, de uma certa forma. Eu acho que são encontros muito fortes, debates, trocas, conhecimento. E quando essa programação se materializa, ela encontra o público, e aí a gente vê esse processo transformador que a cultura faz, principalmente o audiovisual, que trabalha com as imagens, com as nossas histórias, com a nossa representação, identidade. Eu acho que esse é o conjunto de destaques, vamos dizer assim, de todas as edições do evento.

Assim, às vésperas de seus trinta anos, a Mostra de Tiradentes se consolida como essa experiência de expansão de imaginários, de encontro entre filme e público, espaço de formação, numa escrita possível da história do cinema brasileiro, além de ser um espaço de debate e construção de políticas públicas via Fórum, ou de fazer negócios e por fim, uma oportunidade de escoar o cinema nacional para o mundo, trazendo até Tiradentes uma seleta e fundamental curadoria internacional, ou construindo pontes de mercado entre as obras finalizadas e agentes de negócio via Brasil CineMundi que há 17 anos fortalece a ideia de um cinema brasileiro sem fronteiras.
Realizada de 23 a 31 de janeiro de 2026, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes reuniu números grandiosos em Minas Gerais com realização da Universo Produções. A magnitude do festival reflete-se em indicadores expressivos que movimentam a economia e a cultura nacional. Com um público superior a 38 mil pessoas e a injeção de mais de R$ 10 milhões na economia local, o evento mobilizou uma rede de 21 pousadas e 16 restaurantes parceiros, além de contratar 280 empresas mineiras. A programação artística foi composta por 137 filmes de 23 estados, incluindo uma Mostra Homenagem a Karine Teles com 7 obras, e 32 atrações artísticas. No campo profissional, o evento gerou mais de 2.500 empregos, contando com uma equipe de 184 colaboradores e a presença de 97 jornalistas representando mais de 600 veículos. A vertente formativa e de mercado destacou-se com 17 atividades (oferecendo 623 vagas), o lançamento de 7 livros e o 4º Fórum Tiradentes, que reuniu 70 profissionais. O impacto internacional foi consolidado pelo Conexão Brasil CineMundi, com 20 projetos em rodadas de negócios com players de 12 países, além de uma presença digital massiva que alcançou 4,2 milhões de visualizações e acessos de 74 nações. O Blog do Arcanjo acompanhou tudo de perto, como é tradição!

*Viviane Pistache é preta, mineira, pesquisadora, roteirista, curadora e, de vez em sempre, crítica de cinema.
*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo viaja a convite da Universo Produção e se hospeda na pousada Segredo da Serra Guest House.
Acompanhe a Mostra de Cinema de Tiradentes no Blog do Arcanjo!
Editado por Miguel Arcanjo Prado
Avaliações críticas:
★ Fraco
★★ Regular
★★★ Bom
★★★★ Muito Bom
★★★★★ Excelente
Siga @miguel.arcanjo
Ouça Arcanjo Pod
Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
© Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado 2025 | Todos os direitos reservados.

