Júlio Bressane chega aos 80 anos com um cinema que busca por transformação

Júlio Bressane na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes © Leo Lara Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Enviado especial a Tiradentes, Minas Gerais*

Júlio Bressane chega aos 80 anos no próximo dia 13 de fevereiro consolidado como um dos grandes diretores do cinema brasileiro, afeito a um cinema de invenção e que se recusa a fazer concessões comerciais, presente em clássicos como Matou a Família e Foi ao Cinema, de 1969. O diretor carioca segue desafiando a ortodoxia narrativa, transformando a tela em um campo de experimentação semiótica e filosófica. Sua presença na abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com o curta “O Fantasma da Ópera”, deixou evidente seu compromisso com o cinema-arte. Com uma filmografia iniciada em 1966, Bressane transita com erudição entre a literatura de Machado de Assis — evidente em obras como “Capitu e o Capítulo” — e ensaios visuais densos sobre a memória. Seus trabalhos recentes, como “Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas” e o ainda inédito “Leme do Destino”, demonstram uma produtividade incansável e uma parceria profícua com o montador Rodrigo Lima, que assina a seu lado a direção do filme que abriu o festival mineiro, a quem chama de “meu colaborador há mais 20 anos”. Bressane mantém-se como um bastião de resistência cultural em nosso cinema. Questionado pelo Blog do Arcanjo sobre seu legado, Bressane avisa: “Você me desculpe, mas isso aí está longe dos meus pensamentos, não tenho legado nenhum. Nem sei se tenho de comemorar alguma coisa. Tenho tido condições de produzir filmes, isso que tem contado. Isso de 80 anos, celebrações, é bom, mas não é algo que te toque, vamos dizer assim, a sua patologia não permite isso”.

Júlio Bressane na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes © Leo Lara Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

“As coisas facilitaram muito. Hoje você pode fazer um filme com uma pequena câmera. A questão da produção de filmes enriqueceu muito, porque saiu de um padrão, de uma testura de filmes. E começa a apresentar vários tipos de produção de testuras diferentes. O que vai importar é a testura, seja de um filme de cem milhões ou um real. A questão de testura é que está em jogo, que produz aquela imagem que você vê. O desafio do cinema vai existir sempre. A coisa forte do cinema é que com o cinema você busca se transformar, porque você não quer ser você mesmo, você quer ir além do que você é. O cinema tem essa chave de autotransformação, e essa é a exigência e grande dificuldade hoje. O cinema transita e transpassa todas as artes, todas as disciplinas e, o mais difícil, ele transpassa a sua vida. E para você está ao corrente da exigência do cinema, você precisa passar por todas essas coisas. E isso exige esforço. Então você precisa de um certo esforço para colocar os clichês do cinema com os outros clichês, porque é assim que ele se transforma, se chocanco com o clichê da música, da física, da química, da literatura. E é aí que há a transformação. Mas isso tudo que eu estou dizendo é uma fórmula que serviu para mim. Talvez, para outra pessoa, não precise disso. Liga a câmera e faz um filme extraordinário.”
Júlio Brassane
cineasta

Júlio Bressane na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes © Leo Lara Universo Produção Blog do Arcanjo 2026

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo viaja a convite da Universo Produção e se hospeda na pousada Segredo da Serra Guest House.

Acompanhe a Mostra de Cinema de Tiradentes no Blog do Arcanjo!

Editado por Miguel Arcanjo Prado

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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