Vera Barreto Leite Valdez foi mais que moda e teatro, foi uma estrela classuda que flutuou pela vida

Vera Barreto Leite Valdez morreu aos 89 anos em São Paulo, ícone da moda mundial e do teatro brasileiro © Frank Hovart Divulgação Teatro Oficina Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Vera Barreto Leite Valdez não caminhava; ela flutuava sobre a memória de uma época que já não existe, mas que ela, por teimosia e elegância, insistia em personificar. Aos 89 anos, a mulher que foi a tradução brasileira do chic parisiense e do teatro libertário despediu-se em São Paulo nesta quarta, 14, deixando para trás um rastro de fumaça e histórias que parecem ficção.

Ícone do século 20

Filha de diplomatas e verdadeiro ícone do século 20, Vera era a própria rebeldia refinada. Expulsa de colégios em Portugal por usar batom carmesim e decotes audaciosos, ela encontrou em Paris o palco para sua peregrinação estética. Antes que o termo “top model” fosse cunhado pela exaustão da indústria, Vera já a modelo preferida — e protegida — de ninguém menos que Coco Chanel, não sem antes encantar a estilista surrealista Elsa Schiaparelli. Nas passarelas de 1954, enquanto a Europa se reconstruía, Vera era a imagem da modernidade: magra, altiva, com um olhar que sugeria que ela sabia de algo que o resto do mundo ainda desconhecia.

Entre seus feitos, na década de 1950, viajou o platena para difundir o New Look de Christian Dior. Com Coco Chanel, que costumava costurar roupas em seu corpo, trabalhou até o último desfile feito pela lenda da moda. Posou para ícones da fotografia como Helmut Newton, Richard Avedon, Willy Rizzo e Frank Horvat. A temporada em Paris rendeu até apelido para Vera e suas amigas modelos: Les Blusons Chanel. Afinal, fumou ópio com o romancista Jean Cocteau, era amiga do psicanalista Jacques Lacan e namorada do bilionário Maurice Ronet. Outro que era louco por ela foi o cineasta Louis Malle, que foi quem a tirou do Brasil após ser presa e torturada pela ditadura com a ajuda de Bernardo Bertolucci, outro diretor que a venerava.

Vera Barreto Leite Valdez na peça Bacantes, do Teatro Oficina © Jennifer Glass Teatro Oficina Blog do Arcanjo 2026

No Brasil, sua existência foi um embate entre o glamour e a aspereza da realidade. Transitou com propriedade entre a sofisticação da Maison Canadá e a vanguarda visceral do Teatro Oficina. Com Zé Celso, despiu-se das roupas de alta-costura para vestir a pele política da arte. Sofreu os suplícios da ditadura militar, foi presa e torturada, mas nem o cárcere nem o sanatório conseguiram desbotar seu espírito. Recentemente, esteve no filme Tia Virgínia, de Fabio Meira, como uma anciã matriarca inválida na cadeira de rodas, em interpretação visceral e que lhe rendeu menção honrosa como atriz coadjuvante no Festival de Gramado.

Vera era uma criatura de contrastes. Podia falar de joias com a mesma naturalidade com que discutia a nudez como um estado de liberdade. Para ela, envelhecer não era um declínio, mas uma metamorfose necessária para novos personagens. Ao partir, encerra-se um capítulo de uma itinerância singular pela beleza e pela dor. Vera Valdez não foi apenas uma modelo ou uma atriz; foi uma entidade que provou que a verdadeira elegância reside na capacidade de permanecer inabalável, mesmo quando o mundo ao redor insiste em desmoronar. Uma estrela que flutuou pela vida, foi coerente do início ao fim.

Vera Barreto Leite Valdez
27/15/1936 – 14/01/2026
Velório na sexta, 16 de janeiro, das 8h às 15h, no Teatro Oficina, aberto ao público, na Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo. Cremação às 17h no Horto da Paz para amigos e familiares.

Vera Barreto Leite Valdez morreu aos 89 anos em São Paulo, ícone da moda mundial e do teatro brasileiro © Frank Hovart Divulgação Teatro Oficina Blog do Arcanjo 2026

Editado por Miguel Arcanjo Prado

Siga @miguel.arcanjo

Ouça Arcanjo Pod

Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
© Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado 2025 | Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *