Ana Lúcia Torre celebra 80 anos de vida e 60 de carreia em Olhos nos Olhos no BTG Pactual Hall: ‘Fui vivendo e só me dei conta agora’ – Entrevista de Quinta


Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Ana Lúcia Torre é uma das grandes atrizes que o Brasil tem, merecedora de respeito e aplausos. Ainda mais agora, quando celebra seus 80 anos de vida e 60 de carreira no espetáculo Olhos nos Olhos, sob produção da Morente Forte, de Célia Forte e Selma Morente, e direção e dramaturgia de Sergio Módena, seus antigos parceiros de trabalho. A peça inaugura a sala menor do BTG Pactual Hall, com 200 lugares, em Santo Amaro, com temporada sexta e sábado, 20h30, e domingo, 18h30, até 29 de março e ingressos na Sympla.
A peça mistura histórias da bem vivida vida da atriz com letras de canções emblemáticas de Chico Buarque de Holanda, de quem ela foi colega no grupo de teatro amador da PUC-SP, nos anos 1960. Com a experiência de ter morado fora, em Portugal e na Noruega, e também no Rio de Janeiro, onde se tornou nome querido da televisão, a artista voltou para São Paulo no começo dos anos 1990 e, desde então, é uma das atrizes mais importantes não só da TV e do cinema como também do teatro.
Da sua casa, na zona sul paulistana, Ana Lucia Torre conversou com o jornalista Miguel Arcanjo Prado na volta da Entrevista de Quinta do Blog do Arcanjo. Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Ana Lucia, são 80 anos de vida e 60 de anos carreira. Qual é a sensação de chegar a esses números grandiosos?
Ana Lúcia Torre – Eu só me dei conta quando comecei a falar sobre isso. Sabe que gente não sente? Porque você vai indo, vivendo e se sentindo bem. Eu estou aí e os meus anos estão aqui comigo.
Miguel Arcanjo Prado – É verdade que você conheceu o Chico Buarque na época de faculdade na PUC?
Ana Lúcia Torre – Quando eu entrei na PUC, em Ciências Sociais, um mês depois se formou o grupo de teatro da PIC, o TUCA, Teatro da Universidade Católica. O Teatro Tuca estava em construção. Nós começamos a ensaiar no que na época era o porão do Tuca, que passou a ser o Tucarena. Para o TUCA, o grupo de teatro, vieram várias pessoas de várias faculdades que formavam a PUC. Um deles era um rapaz que compunha, que fazia arquitetura, e que é o Chico. Inclusive, num programa do TUCA, ele é o Francisco Buarque de Holanda, porque ainda não assinava Chico.

Miguel Arcanjo Prado – Como era o TUCA nessa época?
Ana Lúcia Torre – O grupo era totalmente amador, ninguém fazia faculdade de artes cênicas. Porque na PUC não havia. Havia estudantes de direito, engenharia, sociais, filosofia, arquitetura, enfim… Tinhamos só tres profissionais: o diretor geral, Roberto Freire, o Silnei Siqueira, que era diretor artístico, e o cenógrafo José Armando Ferrara. Todo o restante era estudante. A primeira peça já estava escolhida pelos três profissionais e veio a ser Morte e Vida Severina. O Chico só compunha as música. Ele musicou sem mudar a letra as poesias do João Cabral de Melo Neto. A maioria das músicas a gente cantava ao fundo, como se fosse um coral à capela. E essas músicas são magistrais!

Miguel Arcanjo Prado – Você morou fora do Brasil na juventude, em Portugal e na Noruega. Como foi ser imigrante?
Ana Lúcia Torre – Eu larguei a faculdade no terceiro ano, Ciencias Sociais, e aí eu fui para Portugal estudar teatro e fiquei um ano morando em Lisboa. Na época, eu namorava um brasileiro que decidiu fazer um curso na Noruerga, e eu fui junto. Eu fiquei quatro anos e meio lá. Aprendi a falar norueguês. Foi um momento muito marcante, me fez perceber outras culturas, outras religiões, o respeito que as pessoas têm entre si. Durante algum tempo, morei numa cidade universitária. Tive amigos da África, de toda a Europa, dos Estados Unidos, enfim, do mundo. E você aprende com isso a respeitar muito. Quando você está na convivência diária da diversidade é uma coisa incrível.
Miguel Arcanjo Prado – Como foi ser uma brasileira na Noruega?
Ana Lúcia Torre – Foi um dos melhores momentos da minha vida. Fiz amigos que tenho até hoje, inclusive brasileiros, que também são de São Paulo, com os quais eu mantenho amizade até hoje e isso já faz mais de 50 anos! Ser imigrante é um aprendizado de amizade, de respeito e de solidariedade. A vida é muito menos complicada, porque quando você tem respeito pelo outro tudo fica melhor. Porque você sabe o seu limite e o limite do outro, tudo fica muito fácil. E aí eu fui aprendendo que existem formas de governo, olha só que coisa, que fazem bem para o povo. Na Noruega, todos os cidadãos são considerados iguais. A Noruega tem um rei e sua família, mas não tem corte. Estava eu um dia atravessando na faixa e, como boa brasileira, pus o pé na faixa. Vi o carro vindo e esperei. E o carro fez sinal de passar, e olhei para o motorista para agradecer e era o Rei. Acho que isso define a Noruega.
Miguel Arcanjo Prado – Como foi retomar a vida no Brasil após tanto tempo fora? Sentiu aquela sensação de que a vida havia seguido sem você?
Ana Lúcia Torre – Foi bem difícil, e vou te dizer porquê. O que eu mais estranhei foi o barulho nas ruas, as buzinas, os xingamentos. Eu chegava a ter tontura ao atravessar a rua. E o principal: era raro eu conseguir ir ao restaurante. Porque as pessoas falavam muito alto. Por que a gente fala tão alto que não permite que a mesa ao lado converse? Porque é preciso gritar mais que todo mundo? Essa falta de — para usar uma palavra agradável — finesse me deixou em uma situação bem difícil. Eu demorei mais de um ano para me readaptar. Mas, infelizmente, as coisas pioraram. Eu moro no quinto andar, tem gente que passa e eu ouço a conversa como se estivessem na sala de casa.

Miguel Arcanjo Prado – E como foi retomar o trabalho de atriz?
Ana Lúcia Torre – Eu voltei para o Brasil, mas não vim para São Paulo. Eu fui para o Rio, onde não conhecia ninguém. Mas aqui em São Paulo, na época do TUCA, eu conhecia um diretor, que depois se casou com uma atriz e eles foram morar na Europa, porque ele foi fazer doutorado em Paris. Que era o Celso Nunes e a Regina Braga. Quando eu ia a Paris, eu ficava com eles. Quando eles foram a Lisboa, duas vezes, ficaram lá em casa. E voltaram para o Brasil antes de mim. Quando voltei para o Brasil, o Celso tinha se tornado o grande diretor de teatro. E eu entrei em contato com ele. Sempre que eu vinha a São Paulo, a gente saía para jantar junto. E ele estava com um grande sucesso, a peça Equus. Um dia ele foi ao Rio e me chamou para jantar. Fazia uns cinco meses que eu havia chegado ao Brasil. Aí no jantar ele falou: ‘Estou trazendo Equus no Rio, vou montar com elenco aqui e quero você’. Aceitei na hora. Fizemos um ano de temporada, de terça a domingo, no atual Teatro Nelson Rodrigues, no centro do Rio.
Miguel Arcanjo Prado – Como foi a ideia de falar de sua vida com canções do Chico na peça Olhos nos Olhos?
Ana Lúcia Torre – O Sérgio Módena, diretor de Olhos nos Olhos, é meu amigo. Encontrei com ele e ele falou para fazermos alguma coisa. ‘Por que você não fala de você?’, ele me perguntou. Eu falei: ‘Várias pessoas quiseram fazer a minha biografia e nunca senti vontade’. Ele devolveou: ‘Por que você não fala da sua vida através do teatro?’. E eu tinha contado que, uma vez, por brincadeira, havia pegado sete músicas do Chico e havia falado só as letras, ficou legal e amigos gostaram. O Sérgio falou que era uma ótima ideia. Ele vinha na minha casa e começava a me perguntar coisas. Eu falava e ele ia gravando. Dali uns dois, três dias, a gente se reunia, e ele me mostrava um pedaço do que tinha feito e fazia outras perguntas. Concomitante, o Sérgio tinha separado umas 25 músicas do Chico que ele adorava. E à medida que o texto foi saíndo a gente foi sublinhando com algumas das letras do Chico. E o casamento ficou maravilhoso!

Miguel Arcanjo Prado – Olhos nos Olhos também celebra os 40 anos da Morente Forte.
Ana Lúcia Torre – Veja só, 40 de Morente Forte, que são minhas parceiras de longa data, a Célia Forte e a Selma Morente. Eu faço qualquer trabalho com elas de olhos fechados, é só elas ligarem que eu vou. Quando eu cheguei em São Paulo, elas eram assessoras de imprensa. Eu trabalhei muito com elas. E elas vieram lindamente para esse lado de produção. Você trabalhar com profissionais tão perfeitos como elas e o Sérgio Modena é excelente. Antes da pandemia, ele me ligou e falou que queria fazer uma peça comigo. Eu falei que adoraria. Aí ele falou que era Longa Jornada Noite Adentro e eu quase caí da mesa. Para mim é o maxímo de personagem que uma atriz possa querer. Ele falou que queria fazer em SP e com a Morente Forte. Aí já fechamos o negócio! [Nota do editor: Ana Lúcia Torre ganhou o Grande Prêmio da Crítica da APCA por este espetáculo].

Longa Jornada Noite Adentro, que lhe rendeu o Grande Prêmio da Crítica da APCA © Priscila Prade Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Voltando novamente um pouco, como você foi para a televisão?
Ana Lúcia Torre – Foi através do teatro. Eu estava fazendo Equus, o protagonista era o Rogério Fróes. Ele fazia uma novela das 18h, A Moreninha, protagonizada pela Nívea Maria e com direção de Herval Rossano. Uma matinê da peça, o Herval foi assistir. E ele estava em fase de produção da novela Dona Xêpa, e me chamou para fazer. E foi um baita sucesso. Morei 15 anos no Rio fazendo muito teatro, mais que TV. Depois fazendo TV esporadicamente. Aí a TV resolveu gostar de mim.Aí foram 17 anos de intenso trabalho na TV. Até que, agora faz dois anos e meio, quase três, que não faço televisão, mas estou me dedicando a este espetáculo.

Miguel Arcanjo Prado – Como sua volta para São Paulo depois de morar no Rio?
Ana Lúcia Torre – Eu tinha me casado novamente e estava fazendo a peça Suburbano Coração, do Naum Alves de Sousa, com a Fernanda Montenegro. Fizemos um ano de temporada no Rio. E aí Fernanda, que era produtora também, resolveu trazer para São Paulo. Como eu estava recém casada, o marido já tinha preparado o apartamento em São Paulo. Quando estávamos a 15 dias para vir para cá, veio o Plano Collor e tudo parou. A peça parou também. Mas eu vim para São Paulo para morar com meu marido. Nessa mesma época, o Grupo Tapa, que é originário do Rio, fazia um ano que estava em São Paulo. E eu era amiga deles no Rio. Então, o primeiro pessoal que eu fui buscar aqui foi o Tapa. A gente saía depois do espetáculo, jantava. Eles estavam fazendo Raposas do Café, um espetáculo belíssimo, e num dado momento, uma das atrizes precisou sair, que era a Vera Mancini, e o Eduardo Tolentino de Araújo, o diretor, imediatamente me ligou e fui fazer a peça. Fiquei sete anos no Grupo Tapa e depois minha carreira no teatro em São Paulo não parou mais.
Miguel Arcanjo Prado – Qual a expectativa para inaugurar a sala intimista do BTG Pactual Hall?
Ana Lúcia Torre – Eles reformaram a sala menor e ficou linda. É isso que está me motivando bastante. Eu moro na zona sul de São Paulo. A região de Santo Amaro é muito populosa. Eu acho que teremos um bom público.

Miguel Arcanjo Prado – O que você diria a quem está começando na profissão de ator e atriz?
Ana Lúcia Torre – Estudar, estudar muito. Quando digo estudar, não é só teatro. É assistir filmes, ouvir música, ir a exposições de artes plásticas, assistir dança… Tudo que for relacionado à arte e principalmente assistir tudo que puder de teatro. Porque só assim você vai saber o que te satisfaz e o que não te satisfaz. Depois de algum tempo de ver muita coisa variada, você pode dizer: isso eu gosto de ver, mas não de fazer. Isso não gosto nem de ver nem de fazer. Isso eu gosto de ver e de fazer. Você tem de ter um material de referências que te permita ter critérios. E trabalhar por trabalhar não te dá a disposição para a energia que é necessária para se construir uma personagem. Às vezes a gente não pode selecionar por necessidade, mas na medida do possível, é imporante escolher algo que te agrade.
Miguel Arcanjo Prado – Por que você faz teatro?
Ana Lúcia Torre – Eu acho que cada pessoa tem uma forma de se expressar dentro da sociedade na qual está inserida. Por exemplo, quando era pequena, acordava cedo para ir à escola, porque nessa época a gente ia sozinha para a escola. Eu acordava, ficava me arrumando, minha mãe preparando o café e comia aquele paozinho francês quentinho que só em São Paulo tem. Eu falava: ‘Mãe, que pãozinho bom!’. Ela me respondia: o pãozinho é bom e chega na nossa mesa quentinho assim porque o padeiro acordou às três da manhã para preparar nosso pão. Esse respeito aprendi de casa. Essa coisa de todos somos iguais. Mamãe saía para ir ao mercado e tinha dois garis que faziam a limpeza na rua, ela estendia a mão, eles tiravam a luva, a cumprimentavam, e ela batia um papinho e ia embora. Na minha casa nunca tinha gente comendo em um lugar e outra gente em outro. E o teatro é o espaço onde mais tem igualdade. Tem gente que me diz: ‘Monólogo você está sozinha’. Jesus amado, para eu subir no palco, pelo menos 20 pessoas trabalharam para eu chegar ali. Desde pequena, com quatro, cinco anos, eu ia para o colégio e era chamada para declamar poesia. Fui para o ginásio e fazia parte do comitê que preparava a apresentação anual, que era no teatro. Desde pequena eu estava metida em teatro. Estudei balé, porque na minha época as meninas estudavam balé e piano. Então as coisas foram vindo e minha família sempre me apoiando, o que é uma maravilha, porque aí tudo fica mais fácil.
OLHOS NOS OLHOS, com Ana Lucia Torre
Sexta e sábado, 20h30 e domingo, 18h30. De R$25 a R$160.
BTG Pactual Hall – Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722. Santo Amaro, São Paulo.
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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