Chega a Santos Carvão, espetáculo da Cia Sansacroma indicado ao Prêmio Arcanjo e ao Prêmio APCA

Carvão, da Cia Sansacroma, dirigida por Gal Martins © Sergio Fernandes Divulgação para Miguel Arcanjo 2025

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Após um bem-sucedido percurso por palcos paulistanos e cidades do interior, a aclamada Cia. Sansacroma se apronta para as duas últimas exibições de seu espetáculo-manifesto “Carvão”. A obra, que propõe uma profunda investigação sobre o amor negro como prática política e ancestral, será apresentada em Santos nos dias 9 e 10 de dezembro, terça e quarta-feira, às 20h, no Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo.

O espetáculo tem recebido reconhecimento da crítica, com indicações ao Prêmio APCA (melhor interpretação e melhor figurino) e ao Prêmio Arcanjo 2025 na categoria dança.

Com entrada franca, a montagem encerra sua peregrinação pelo estado, realizada por meio do edital Fomento CULTSP PROAC nº 23/2024, após ter cativado públicos em espaços emblemáticos como Sesc Consolação, Centro Cultural Olido e Centro Cultural São Paulo, além de circular por Diadema, Piracicaba e São Carlos.

“Carvão” transcende a dança. É uma coreografia-manifesto que mergulha nas narrativas do afeto negro, desvendando-o como um ato político, filosófico e profundamente ancestral, apesar de séculos de violências históricas.

Inspirado nas reflexões da autora bell hooks, o espetáculo refuta o entendimento romantizado do amor, posicionando-o como uma prática de liberdade. Para corpos negros, o ato de amar se manifesta como um gesto radical de resistência à desumanização e como uma recusa ativa às lógicas coloniais que buscam persistentemente romper e obliterar os laços afetivos e comunitários.

“O amor negro é esse carvão: forjado nas chamas do racismo, mas ainda assim, uma brasa viva que alimenta futuros possíveis,” explica Gal Martins, diretora artística da Cia. Sansacroma.

A obra utiliza a simbologia do carvão — aquilo que foi consumido pelo fogo, mas que resiste e persiste, uma matéria que não foi destruída. Em cena, cinco intérpretes criadores, acompanhados por uma performance musical eletrônica ao vivo, erguem um território de afetos forjados entre cicatrizes e renascimentos.

A direção e concepção de Gal Martins buscam dialogar com o pensamento de Renato Nogueira, que aponta o corpo negro como um “tempo de travessia” onde a ancestralidade pulsa como origem e horizonte. Em “Carvão”, o tempo se dobra, e a coreografia se constrói sobre múltiplas camadas de memória, transformando o amor em um rito de cura, reinvenção e insubmissão.

A água, elemento cênico crucial que contrasta e dialoga com a densidade do carvão, simboliza o fluxo da ancestralidade e a possibilidade de cura. Gal Martins complementa a metáfora: “É rio que carrega cinzas, lágrima que rega a terra, maré que embala os afetos negados, mas jamais apagados.”

“Carvão” é uma dança feita de resistência mineral e correnteza ancestral, que afirma o direito inegociável ao afeto negro, reverberando o pensamento de bell hooks: “o amor é a única prática que pode nos levar além do medo.”

Editado por Miguel Arcanjo Prado

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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